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Alguns escritos sobre o Papa

 

Sobre o Papa Francisco, há uma abundante bibliografia que dá a conhecer e compreender melhor diversas características do homem e dos seus desígnios para a Igreja e o Mundo. Oferecem agora estes livros uma ajuda para examinar o vastíssimo legado de que agora somos depositários e dele usufruir.

A maior qualidade que Francisco encontra em si próprio é gostar de ouvir os outros. “Porque descubro que cada vida é diferente e que cada um tem o seu caminho. Ouvir. Não por bisbilhotice nem para julgar, mas para me abrir a estilos de vida e soluções diferentes”, contou o Papa ao sociólogo e teórico da comunicação Dominique Wolton. Da conversa, resultou Um futuro de fé (1) que, para além dos temas indicados na capa – “família, minorias, refugiados, desigualdade social, capitalismo, fundamentalismo, reforma da Cúria” – aprofunda a questão da comunicação. “Gosto muito de falar da linguagem dos gestos. É uma bela forma de comunicação. Porque, dos cinco sentidos, o mais importante é o tacto”. A escuta e o tacto. E o respeito pelo mistério. “Pense naquilo que se ouve nas exéquias: os ‘oh, minha mãe!’. Valia muito mais agarrar, dar um abraço! Não há nada que se possa dizer perante o mistério de outra pessoa. Quando procuro transmitir alguma coisa a alguém, esforço-me por pensar que estou perante o mistério de outra pessoa. Então tento comunicar a partir do lugar mais profundo do meu mistério, da minha experiência, o mais silenciosamente possível e, em situações limite, apenas através do toque”.

 

Comunicar a esperança

A virtude fundamental que o Papa Francisco quer comunicar aos outros é a esperança, considerou Francesc Torralba, professor catedrático de Filosofia da Universidade Ramon Llull, Barcelona, no Dicionário do Papa Francisco. As palavras-chave de um pontificado (2), oferece uma adequada síntese de um magistério de doze anos. Esta observação, que tantos outros igualmente partilharam e, com certeza, partilharão, pode muito bem apresentar-se como um pano de fundo do pontificado. De facto, como o filósofo e também teólogo assinalou, a missão de Francisco foi, sobretudo, entender este mundo e conseguir comunicar uma mensagem de esperança (3). É que, acrescenta, quando tudo está em crise – crise sanitária, crise económica, crise social, crise cultural, crise antropológica – é muito fácil desesperar. Mas, perante cada drama, aparentemente irreparável, o Papa propõe um remédio vigoroso.

A “conversão ecológica”, o “diálogo”, o “ecumenismo do sangue”, a “globalização da solidariedade”, a “misericórdia”, o “perdão”, a “revolução da ternura” e a “saída de si”, eis algumas das propostas que se encontram entre as palavras-chave que, no Dicionário do Papa Francisco, Francesc Torralba identifica entre as “mais originais e características do magistério social do Papa Francisco”.

O livro elenca também denúncias vigorosas e singulares do “alzheimer espiritual”, da “autorreferencialidade”, do “balconear”, da “colonização ideológica”, da “cultura do descarte”, da “cultura do provisório”, da “desertificação espiritual”, da “economia da exclusão”, da “esquizofrenia existencial”, da “globalização da indiferença”, da “idolatria do dinheiro”, da “mundanidade espiritual”, da “naturalização da miséria”, do “paradigma tecnocrático” ou da “psicologia do túmulo”.

Como no prefácio assinala o Padre Antonio Spadaro, então director da revista La Civiltá Cattolica, o livro de Francesc Torralba ajuda o leitor “a captar o peso específico da palavra e das expressões do Papa Francisco”. A seguir a cada uma das mais de três dezenas de entradas do dicionário, o autor selecciona os textos em que cada palavra ou expressão emergiram.

Ao prefaciador concedeu, aliás, o Papa a primeira grande entrevista, que teve uma ampla repercussão mundial. A esperança, e o optimismo, foi um dos temas da conversa. “Devemos ser optimistas? Quais são os sinais de esperança no mundo de hoje? Como conseguir ser optimista num mundo em crise?”, indagou Antonio Spadaro. Francisco respondeu não gostar de usar a palavra ‘optimismo’, por corresponder a uma atitude psicológica. “Gosto, pelo contrário, de usar a palavra ‘esperança’”, afirmou o Papa. “A esperança não engana, como lemos na Carta aos Romanos”. Ela, explicou ainda Francisco, “é uma virtude teologal e, portanto, definitivamente, um presente de Deus que não se pode reduzir ao optimismo, que é apenas humano. Deus não defrauda a esperança, não pode negar-Se a Si mesmo. Deus é todo promessa”. Cabe ao pastor lembrá-lo.

 

Ser pastor

A dimensão de Francisco enquanto tal encontra-se no título de dois livros assaz relevantes para o conhecimento da sua acção: O Pastor. Desafios, razões e reflexões de Francisco sobre o seu pontificado (4) e O Pastor ferido. O Papa Francisco e a sua luta para converter a Igreja Católica (5) “Francisco é o pastor ferido”, considera o jornalista Austen Ivereigh (6), que, em O pastor ferido, verifica que “ser-se escolhido pelo Espírito Santo não significa ser-se poupado às provações da história”. O livro propõe-se relatar “a história da tentativa por parte de Francisco de pôr Cristo no centro da Igreja” e da “turbulência” que o empreendimento suscitou. “Turbulência” é, com certeza, um eufemismo. Francisco foi vituperado, bem se sabendo que alguns gostariam que o pontificado fosse breve. Entre os que contra ele, dissimulada ou abertamente, conspiraram encontram-se, por exemplo, os que não aceitam uma Igreja de portas abertas, os que foram destituídos de honrarias e privilégios ou os que defendem e promovem políticas condenadas com veemência pelo Papa.

O Pastor ferido. O Papa Francisco e a sua luta para converter a Igreja Católica é muito instrutivo. “Porque a história é uma arena de combate espiritual, não surpreende que no preciso momento em que, com Francisco, a Igreja demonstra a universalidade do amor de Deus, uma onda de intolerância e de populismo esteja a varrer o mundo ocidental, deixando o Papa exposto como o mestre construtor de pontes numa época de enraivecidos construtores de muros”, registou Austen Ivereigh.

Constata ele que “Francisco nunca enfrenta os populistas directamente, mas opõe-se-lhes a toda a hora”. Um dos temas do confronto diz respeito aos migrantes. Vê-los como “a fonte dos males de uma sociedade” é, como disse o Papa, citado pelo autor, “um sinal de alarme do declínio moral”. “Contra a proposta de tornar de novo grandes as nações mantendo os forasteiros ao largo, Francisco relembra que o progresso de um povo ‘depende sobretudo da capacidade de se deixar mover e comover por quem bate à porta’”.

“Ele é totalmente livre!”, escreve no término da obra Austen Ivereigh, reproduzindo um comentário do cardeal Marc Ouellet sobre Francisco para questionar: “Seria isto que o tornava tão querido das pessoas, mas noutras produzia medo?”

Em O Pastor, da jornalista italiana Francesca Ambrogetti e do jornalista argentino Sergio Rubin, o próprio Papa constatou: “Muitos escandalizam-se dizendo que estou a dessacralizar o Papado. Fazem parte dos sectores mais aristocráticos, por assim dizer. No povo simples, pelo contrário, há uma recta veneração pelo Papa. ‘Sacralizam-no’, no sentido de o venerarem como o pastor, como o pai, não como se fosse um príncipe. Há uma sacralidade popular”. A designação “popular”, explica o Papa, não diz respeito “apenas aos pobres, mas a gente de boa posição, que não adere a uma sacralidade cortesã”, que “dá lugar à hipocrisia, ao arrivismo, a falar mal do outro”. Para Francisco, “o Vaticano é a última corte de monarquia absoluta que resta na Europa”.

 

Combater a papolatria

 

No recentíssimo El loco de Dios en el fin del mundo (7), um livro surpreendente, presentemente nos escaparates das livrarias espanholas, o escritor Javier Cercas refere o combate de Francisco contra a papolatria. O autor lembra que, numa entrevista concedida ao diário Corriere della Sera, o Papa se mostrara desgostoso com “uma certa mitologia” em torno da sua figura: “Sigmund Freud dizia, se não me equivoco, que em toda a idealização há uma agressão. Pintar o Papa como uma espécie de Super-Homem parece-me ofensivo. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos. Uma pessoa comum”.

Javier Cercas dá razão ao Papa, assinalando que “o excepcional não é o Papa: o excepcional é a Igreja católica; ou seja, a promessa da Igreja católica; ou seja a promessa de Cristo: o augúrio radiante do amor ilimitado, a ressurreição da carne e a vida eterna”. O escritor nota que “caíram todos os poderes, todos os soberanos, todos os reinos e todos os impérios; mas, depois de dois mil anos de História, a Igreja católica mantém-se em pé: essa promessa demonstrou ser indestrutível, mais poderosa que todos os exércitos juntos”. Diz ele que “se acreditasse em milagres, acreditaria que é um milagre”.

Mescla de crónica, ensaio, biografia e autobiografia, o livro de Javier Cercas – ateu e anticlerical, como adverte na nota de abertura e reitera no fim do livro – nasceu de um convite do responsável editorial da Livraria Editora Vaticana, Lorenzo Fazzini, para escrever um livro sobre a viagem que o Papa realizaria, entre 31 de Agosto e 4 de Setembro de 2023, à Mongólia, um país cuja comunidade católica não ultrapassa 1.500 pessoas. A circunstância interpelou o escritor, que aceitou o encargo por lhe proporcionar uma oportunidade de dar à mãe uma resposta certificada à dúvida sobre se, após a morte, ela se encontraria com o marido para desfrutar da vida eterna. Se a resposta que o Papa dá no fim do livro não é propriamente inesperada para um leitor cristão, o episódio que Javier Cercas relata no epílogo é muito surpreendente e comovedor para qualquer leitor.

Retomando uma expressão de Hannah Arendt sobre João XXIII, Javier Cercas escreve que “Bergoglio é apenas um homem normal e corrente. Esse é, digo já, o segredo de Bergoglio. E isso é o que o converte de verdade em um cristão sentado na cadeira de S. Pedro”.

Para o escritor, a principal qualidade de um líder, conforme escreveu Platão, consiste em não querer ser líder e “pelo menos no caso de Bergoglio assim foi”. Em vez de um soberano, um pastor. No prólogo da obra de Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin, Francisco recorda que, há 24 anos, quando interrogado sobre o perfil do Papa que iria suceder a João Paulo II, respondeu “sem hesitar: um Pastor”. Dizendo que era difícil imaginar, naquele momento, que doze anos mais tarde se converteria nesse Pastor, Francisco explica a noção que tem da missão. Pastor é “aquele que deve estar à cabeça do povo para indicar o caminho; no meio do povo, para viver as suas experiências; atrás do povo, para ajudar os retardatários; e, por vezes, para respeitar a sua intuição na busca dos melhores pastos”.

 

Estar inquieto, estar tranquilo

Papa Francisco

Pormenor da capa do Livro Esperança. A Autobiografia

O Pastor prolonga a entrevista iniciada em El Jesuita, o primeiro livro sobre Jorge Mario Bergoglio publicado em Portugal a seguir à eleição de Francisco, com o título Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio (8). As conversas com o Papa são precedidas de um cuidadoso enquadramento dos temas a abordar em cada um dos 19 capítulos sobre os momentos fortes do pontificado. O último é sobre a esperança. São sobre ela e a felicidade as derradeiras perguntas e as derradeiras respostas. “Mesmo em termos humanos, não religiosos, a esperança é fundamental para moldar a nossa vida”, defende o Papa, que termina com um incentivo: “Tenhamos em conta que, como reza o ditado popular, ‘enquanto há vida, há esperança’, mas também o contrário: ‘Enquanto há esperança, há vida’”.

Não se estranhará, portanto, que Esperança seja o título da autobiografia de Francisco, publicada no início deste ano (9). Em epígrafe, surge, eloquente, uma citação do poeta Rainer Maria Rilke: “O futuro entra em nós, para transformar-se em nós, muito antes de acontecer”. “Nós, cristãos, devemos saber que a esperança não ilude nem desilude: tudo nasce para florir numa eterna primavera. No final, diremos apenas: não recordo nada em que Tu não estejas”.

Escreve Francisco que “os cristãos não são os do ‘grande futuro atrás das costas’; a sua nostalgia do futuro é trepidante: ‘com saudades do futuro’, como diz Pessoa no seu Livro do Desassossego; e nisto pode encontrar correspondência na frase do escritor francês Julien Green: ‘Enquanto for inquieto, posso estar tranquilo’”.

Admirável Francisco.

 

 

(1) Lisboa: Planeta, 2018
(2) Lisboa: Farol, 2022
(3) Benedetta Capelli/Mariangela Jaguraba – Dicionário Bergoglio: as palavras-chave de um pontificado. Vatican News, 18 de Fevereiro de 2021
(4) Prior Velho: Paulinas, 2023
(5) Amadora: Vogais, 2020
(6) De Austen Ivereigh, as Paulinas publicaram em Março Em primeiro lugar pertencer a Deus. Exercícios Espirituais com o Papa Francisco
(7) Barcelona: Penguin Random House, 2025

(8) Prior Velho: Paulinas, 2013
(9) Lisboa: Nascente, 2025

 

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