Alma de pobres (I)

| 28 Set 2022

escadaria do paço episcopal do porto foto FB

Paço Episcopal do Porto. “Fará algum sentido que um pastor viva num palácio, mesmo que a sua vida dentro dele seja mais austera do que a de um monge cartuxo?”. Foto © Paço Episcopal do Porto.

 

Reli neste Verão a novela – e voltei a ver o filme – As Sandálias do Pescador, de Morris West. Farei mais referência ao filme, porque muitas mais pessoas viram o filme e nem tantas leram o livro.

Continua a surpreender-me a actualidade do seu argumento e as semelhanças com o momento que estamos a viver no mundo: um protagonista ucraniano, Kiril; guerras em todo o mundo, com o especial protagonismo da China e da Rússia; fome de milhões de pessoas; incerteza no futuro imediato. Há também semelhanças na Igreja: o medo da mudança e a necessidade dela; um papa vindo do fim do mundo (de outro fim do mundo diferente do protagonista do filme); uma grande herança que não somos capazes de manter e, em alguns casos, a Igreja debatendo-se entre ter-conservar e ser.

 

Crentes e não-crentes

Muitas cenas questionam-me: A escolha que Kirill faz para secretário na pessoa de um sacerdote, David Telemond, que é questionado, e cuja obra teológica está a ser submetida a revisão; a necessidade de contacto humano, normal, que ele mostra ao querer falar com Gelasio, que cuida do seu apartamento pontifício; a sua decisão de ir ao encontro com o mandatário chinês, despojando-se das suas vestes papais, contra os seus cardeais; como ele lida com os ataques do cardeal Leone, tão parecido com o cardeal Ottaviani com João XXIII; mas, sobretudo, a cena que mais me questiona é a final, a cerimónia de coroação com a renúncia da tiara tripla e onde Kiril anuncia a alienação dos bens materiais da Igreja para aliviar a fome do povo chinês. É um gesto que todo o mundo entende, crentes e não-crentes.

Esta última cena, além de continuar a ter impacto em mim, fez-me pensar muito, porque pode ser que, com boas intenções, haja muitas pessoas que se perguntam se não se poderia vender o Vaticano, já que é visto como um sinal de ostentação. O Vaticano não se pode vender porque a história nos demonstra que é necessário que a Igreja tenha um território, por muito pequeno que seja, que salvaguarde a independência do Papa. Outra coisa é aprender a não repetir comportamentos principescos que aí ocorreram ao longo do tempo, e que alguns ainda hoje resistem a largar.

 

Dependências do Vaticano

Hoje em dia, quem for à Praça de São Pedro e queira observar – porque não se trata apenas de ver – poderá comprovar a quantidade de serviços de todo o tipo que foram criados em instalações do Vaticano para os necessitados, independentemente da sua origem ou credo.

Esta mesma preocupação de muitas pessoas em relação ao Vaticano pode ser trasladada para edifícios que nos são mais próximos, por exemplo as nossas catedrais. As nossas catedrais também não se podem vender porque o seu simbolismo – bem explicado – é tão necessário quanto importante, porque são (ou deveriam ser) a casa viva de todos, crentes e não-crentes, na diocese. Quando digo viva, refiro-me a que têm de ter uma projecção social que, precisamente, seja capaz de acolher a sua história e projectá-la na sociedade para além do seu uso para o culto, para que mostrem vida e não sejam apenas um museu.

As igrejas? Ao ritmo a que vamos e com o tempo, é quase certo que teremos de nos desprender de algumas, como já aconteceu em vários países do norte da Europa. Será doloroso, mas serão sempre mais importantes para a Igreja as pedras vivas, isto é, as pessoas, do que as pedras de um património inapropriável.

 

Obra social

No entanto, há de facto algo de que nos poderíamos desprender e que seria um gesto profético de primeira ordem. Nalguns casos, poderíamos desprender-nos literalmente. Noutros, poderíamos dedicar esses edifícios à obra social da Igreja de acordo com as necessidades de cada lugar e, já agora, comunicá-lo bem, com transparência e naturalidade. Refiro-me aos palácios episcopais.

Hoje em dia, na realidade desde há muito tempo, não têm nenhum sentido quando se tenta – mesmo que custe um pouco – que os bispos recuperem o seu perfil de pastores; pois fará algum sentido que um pastor viva num palácio, mesmo que a sua vida dentro dele seja mais austera do que a de um monge cartuxo? É muito complicado fazer com que as pessoas vejam isso, especialmente quando os palácios episcopais parecem arcanos sob sete chaves. O mesmo se poderia dizer de algumas residências de alguns bispos eméritos, mas isso será tema de outro artigo.

 

Sem alforge

Não se trata de demagogia barata, nem de uma reflexão de carácter populista. Trata-se simplesmente de coerência evangélica porque nós seguimos alguém que não tinha onde reclinar a cabeça, que pregamos ser pobre com os pobres, e que nos disse para não levarmos bolsa nem alforge nem calçado, porque não são necessários para evangelizar.

Algumas dioceses, obrigadas a fazer frente a dispendiosas indemnizações por motivos bem conhecidos, levaram os seus bispos a transferir as suas residências para lugares mais ajustados com o evangelho e a desprenderem-se dos palácios, entre outros elementos patrimoniais. Noutras, as situações económicas precárias que estão a atravessar tornam praticamente insustentável a manutenção desses edifícios. Os palácios episcopais são, dentro do rico património da Igreja, os elementos que mais chirriam hoje em dia.

 

Sinal profético

O sinal profético seria inquestionável – como a renúncia da tiara no filme, por parte de Kiril – e seria um gesto que nos ajudaria muito, a todos, a recuperar a alma de pobres que não devíamos ter perdido. Alma de pobres? Sim, porque não se trata somente de ser pobres no sentido bíblico de abertura e disponibilidade a Deus, mas de tocar, sentir a pobreza, de nos desprendermos de um bem que projecta muita sombra sobre a Boa Nova que queremos comunicar.

Compreendo que nem toda a gente irá partilhar esta ideia; contudo, estamos num tempo que nos pede aos gritos por sinais proféticos que nos ajudem a sair de uma inércia que nos sufoca. Mil palavras bem escolhidas podem valer tanto ou mais do que uma imagem; contudo, no mundo em que vivemos, as palavras perderam muito perante as imagens e os gestos adquirem um imenso valor. Podemos falar e falar, explicando que os palácios são fruto de outro tempo; todavia, renunciar a eles seria o testemunho profético da mudança de que tanto precisamos. E o testemunho arrasta.

Talvez fosse interessante começar a pensar nisso.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Este texto é publicado por cedência da autora e da revista espanhola Vida Nueva ao 7MARGENS. Tradução de Júlio Martin.

 

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