Para “separar o joio do trigo” e “levar a sério as críticas e a desconfiança” de alguns setores eclesiais sobre a sinodalidade, o cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, interveio para clarificar o que não é aceitável e o que é desejável nesse modo de ser Igreja, tão querido do Papa Francisco e que Leão XIV pretende prosseguir.
A intervenção do prefeito foi feita no último dia 6 de setembro, no quadro do Curso de Formação para Bispos Recém-Nomeados, que decorreu em Roma até à última quinta-feira, dia 11.
Justificando a necessidade dessa clarificação, o cardeal Fernández recordou que muitos leigos “acolheram com entusiasmo a proposta da sinodalidade como um caminho de participação, um ‘caminhar juntos’, onde os leigos têm mais voz”. Porém, acrescentou, “muitos padres estão a sentir dúvidas, questionamentos, desinteresse e rejeição à proposta” e alguns grupos identificam mesmo “más intenções por detrás desse processo sinodal, rejeitando-o categoricamente”. Importa, por isso, considerar as objeções e distorções.
Sinodalidade: por que não?
As “propostas” que, segundo o responsável da Cúria Romana, “distorcem a verdadeira sinodalidade” podem sintetizar-se em sete pontos, que aqui resumimos:
1) Sinodalidade doutrinária
A sinodalidade não é “uma espécie de mecanismo rápido para modificar a doutrina moral e sacramental da Igreja”, como pretendem “certos grupos minoritários e ideologicamente motivados”. “Mesmo quando a Igreja muda certas coisas, geralmente espera-se que isso não seja capricho de alguns, mas que seja baseado em uma reflexão sólida”.
2) Sinodalidade como uma democracia elitista
Outra forma de interpretar mal a sinodalidade é, para Victor Manuel Fernández, “tentar substituir a monarquia clerical por uma oligarquia leiga”. Em alguns lugares, explica ele, “há grupos de leigos que querem impor o seu estilo e escolhas a todos os outros leigos. Se o padre ou bispo não faz o que eles querem, dizem que o clero é contra a sinodalidade”.
3) Sinodalidade como braço da hierarquia
Hoje já não se diz que os leigos são “os braços” da hierarquia. No entanto, essa ideia ressurge de forma subtil, segundo aquele responsável. “Oferece-se uma pseudo-participação”, através de consultas e sínteses bem controladas, “mas na realidade é preciso fazer o que a hierarquia diz”, segundo os interesses do bispo ou de certos padres. Acresce que, aqui e ali, os próprios leigos dizem que o padre é que sabe.

Grupos de trabalho na segunda sessão da Assembleia Sinodal do Sínodo sobre Sinodalidade. Foto © Vatican Media.
4) Sinodalidade endogâmica
Noutros casos, há a participação de um grupo de leigos e de vários movimentos que já constituem a vida normal da Igreja local, mas falta outros leigos comprometidos na comunidade e outras realidades locais. É uma sinodalidade fechada sobre si, que “não aprendeu a envolver-se com a sociedade”.
5) Sinodalidade metodológica
Uma outra distorção da sinodalidade, consiste em confundir sinodalidade com metodologia – reuniões, esquemas, análises e discussões intermináveis. A apreensão do sentir do povo de Deus é mais exigente. A questão é: como podemos ativar canais de escuta e participação que possam ser acolhidos por círculos mais amplos do povo de Deus, ou pelo menos por círculos mais amplos? Isso requer abertura e proximidade.
6) A sinodalidade como fardo inútil, uma aparência a ser mostrada
Há outra forma de sinodalidade que é feita “para cumprir um dever”, sem mudar nada, sem decisões concretas que façam sentir que se está a avançar e a melhorar a ação pastoral propriamente dita. É por isso que alguns preferem assembleias a longos sínodos, porque sentem que elas roubam tempo à pastoral ordinária.
7) Homogeneização universal
Por fim, outra forma distorcida de sinodalidade é impor uma forma universal de sinodalidade que ignora as diferenças e especificidades locais. A sinodalidade autêntica implica respeito pelas Igrejas locais, livre de imposições superiores e deve deixar a cada lugar grande liberdade para encontrar seus próprios caminhos de sinodalidade. Mas sem substituir a centralização romana por outras formas de centralização nacionais ou locais, que também podem tornar-se opressivas.
Por que a Igreja Católica diz “Sim” à sinodalidade

O Papa Francisco num ecrã de participantes da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, durante um momento de oração inicial, antes do início dos debates. Foi Francisco quem iniciou o processo. Foto © António Marujo/7MARGENS
Passando a uma atitude afirmativa de um modo de entender a sinodalidade que “ajude a construir uma Igreja mais vibrante e evangelizadora”, o cardeal prefeito começa por vincar que todos os membros da Igreja devem estar envolvidos na evangelização, “formando assim uma comunhão participativa”.
Em suma, sublinha ele, deve trabalhar-se “para garantir que todo o povo de Deus se sinta não apenas destinatário, mas uma parte ativa da Igreja, onde sua voz seja ouvida. Não se trata de uma elite leiga no poder, uma oligarquia. Trata-se de buscar várias maneiras para que toda a Igreja se sinta verdadeiramente como um povo.”
Por isso se enfatiza que a sinodalidade, implicando uma metodologia, “acima de tudo, é um modo de ser e agir que deve caracterizar toda a Igreja, desde a capela mais remota do interior até à Igreja universal. E consiste em caminhar juntos, dando a todos um lugar para que cada um possa contribuir de diferentes maneiras e todos possam expressar sua opinião sobre as grandes questões da Igreja, ouvindo-se mutuamente”.
“Esta é uma dinâmica de escuta e acompanhamento, que deve caracterizar não apenas a vida de uma diocese em geral, mas também a vida de cada comunidade individualmente”, recorda o responsável.
Sinodalidade e enriquecimento do ministério ordenado
Dado o contexto em que a intervenção foi feita, o cardeal Fernández sublinhou, depois, um aspeto que foi objeto da atenção do falecido Papa Francisco, relativo ao ministério ordenado: aquilo que um padre não pode delegar e é seu poder exclusivo e que é presidir à eucaristia. “Mas outras tarefas – acrescentou – não exigem necessariamente que um padre as desempenhe”, sublinhando que em certos lugares “as mulheres têm uma influência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na liderança das comunidades”.
O enriquecimento do ministério ordenado, presbiteral e episcopal, decorrente do avanço do processo sinodal merece, depois, detalhadas considerações, desaguando numa listagem de seis características de um “ministério sacerdotal sinodal”, devidamente focado no essencial e aberto a outros carismas, a saber:
- Uma vida inteiramente dedicada ao ministério, com o sabor de uma atividade que pode ser preparada e realizada com serenidade, de modo humano e humanizador, já que há outros que se ocupam de muitas coisas que o presbítero não tem necessariamente de fazer.
- Uma maior disponibilidade para viver uma espiritualidade da ação e não se colocar à margem dela: uma espiritualidade que consiste em contemplar com alegria a ação de Deus e a sua beleza no próprio exercício do ministério.

O ministério sacerdotal deve estar focado no desenvolvimento de atitudes mais autênticas e significativas de caridade fraterna, num acolhimento cordial, próximo e aberto, de forma amigável e sem pressa, onde as pessoas se sintam levadas muito a sério. Na imagem, ajuda humanitária em Cabo Delgado, Moçambique. Foto © Comité Internacional da Cruz Vermelha
- O desenvolvimento de atitudes mais autênticas e significativas de caridade fraterna (pastoral), num acolhimento cordial, próximo e aberto, de forma amigável e sem pressa, onde as pessoas se sintam levadas muito a sério.
- Uma experiência mais comunitária de atividade evangelizadora, menos solitária e individualista, liberta do terrível fardo de ter de fazer tudo.
- Maior enriquecimento e alegria através do desenvolvimento dos carismas dos outros e através de uma vida comunitária variada e frutífera que também nutre o padre como cristão.
- O desaparecimento das constantes desculpas de falta de tempo que às vezes justificam o mau desempenho de suas funções específicas (a celebração da eucaristia, o sacramento da reconciliação e a unção dos enfermos), que seriam vividas com profundidade, serenidade e fecundidade.
A intervenção do prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé termina a longa exposição em torno do grande objetivo da sinodalidade: a missão evangelizadora.
“A sinodalidade, se não for missionária, não cumpre a natureza da sinodalidade; é algo completamente diferente. Isso implica colocar tudo ao serviço do projeto de alcançar a vida de cada ser humano com o anúncio central do Evangelho. Para alcançar esse objetivo, é necessário ‘repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos de evangelização das próprias comunidades’ (Evangelii Gaudium, 33). Isso significa encontrar maneiras de garantir que a sinodalidade também seja eficaz, produzindo resultados concretos que alcançamos juntos.”
Para isso, nota o documento, há que “deixar de lado o que não serve diretamente para alcançar a todos com o primeiro anúncio. É por isso que a proximidade misericordiosa, o anúncio pessoal, face a face, é tão importante, em vez de (ou antes de) a preocupação com estruturas, organização, reuniões, discussões, formalidades, etc.” Evidentemente, isso tem consequências práticas e impede que a paróquia “se torne uma estrutura ordenada, separada do povo ou de um grupo de eleitos que cuidam de si mesmos”.
Nota: Dada a extensão do texto do cardeal Fernández, foi feita aqui uma síntese bastante resumida. O texto oficial encontra-se disponível apenas em italiano. Uma tradução não oficial pode ser encontrada aqui.










