
O padre Francesco Patton, custódio da Terra Santa, observa uma estátua de cristo vandalizada, durante a via sacra realizada em Jerusalém a 24 de março de 2023. Foto © Custódia da Terra Santa
Cuspidelas, violência física, danos em propriedades e cemitérios, e interrupção de celebrações religiosas são alguns dos ataques contra cristãos que sofreram um “aumento preocupante” na Terra Santa ao longo do ano de 2023. O alerta é da Fundação Ajuda À Igreja que Sofre (AIS), depois de serem conhecidas as conclusões de um relatório do Centro Rossing para a Educação e o Diálogo, com sede em Jerusalém, intitulado “Ataques aos Cristãos em Israel e Jerusalém Oriental”.
Segundo o relatório, houve 90 ataques registados em 2023. Os dados mostram um aumento notável nos casos de cuspidelas (30 queixas), assédio físico e verbal (11), bem como dos ataques a propriedades cristãs (32). Mas os casos registados são apenas “a ponta do icebergue”, porque muitas vezes as vítimas não os denunciam ou não têm como prová-los.
“Infelizmente, o assédio por cuspidelas faz parte da minha vida diária. Se saio do meu mosteiro, isso faz parte da minha realidade”, afirma o abade Nikodemus Schnabel, da abadia beneditina da Dormição, em Jerusalém Oriental, citado pela Fundação AIS.
Este tipo de ataques é, na maioria das vezes, perpetrado por membros da comunidade judaica ultra-ortodoxa. “É um pequeno grupo, a que chamo os hooligans da religião. Claro que há muitos judeus que são pessoas maravilhosas, que nos apoiam e estão muito felizes por estarmos aqui, mas a triste realidade é que temos este fenómeno e não é raro. Enquanto mosteiro, também sofremos ataques incendiários, graffiti de ódio e janelas partidas, e a situação está a crescer cada vez mais”, assinala Schnabel.
Hana Bendcowsky, diretora de projetos do Centro Rossing para a Educação e o Diálogo, agrupa os problemas enfrentados pelos cristãos na região nas categorias de “pressão” e “destruição”, termos utilizados pelos observadores dos direitos humanos.
“A ‘pressão’ afasta os membros da comunidade, são incidentes como cuspir nos padres ou dizer a uma religiosa para tirar a cruz quando vai ao hospital. A comunidade está abalada e sente-se desconfortável. Sentem que ninguém os quer – os leigos não sentem isto tanto como os clérigos, mas fazem parte de Israel e deveriam sentir-se confortáveis nesta pátria, e nós devemos certificar-nos de que assim é”, sublinha Hana Bendcowsky.
Já na categoria de “destruição”, incluem-se “incidentes como o ataque à Igreja da Flagelação, onde uma estátua foi desfeita com um martelo”, exemplifica.
Estes ataques violentos são, na sua maioria, levados a cabo por jovens judeus ultra-ortodoxos marginalizados com opiniões nacionalistas radicais, acrescenta Bendcowsky, sublinhando, no entanto, que “mesmo entre os ultra-ortodoxos, este tipo de comportamento não é normativo, a maioria não entraria numa igreja e partiria uma imagem de Jesus”.
A responsável do centro Rossing assinala ainda que, ao contrário dos incidentes fisicamente violentos acima referidos, os casos de cuspidelas ou de assédio verbal são levados a cabo por “membros da comunidade ultra-ortodoxa, homens e mulheres, jovens e idosos. Podem ser os vossos vizinhos, podem vê-los a brincar com os vossos filhos”.
O abade Nikodemus Schnabel considera, por isso, necessário “educar as pessoas – não temos de gostar das outras pessoas, mas não é preciso cuspir-lhes quando as vemos na rua. A Igreja tem a força para dizer que consegue aguentar-se, pois está cá há 2000 anos, e diz que consegue sobreviver, mas estes acontecimentos podem afastar os leigos e levá-los a partir”.
Essa é, de resto, uma das recomendações do relatório, que apresenta uma série de propostas concretas, incluindo “reforçar a intervenção policial, aumentar a presença de agentes de segurança em áreas críticas e promover a consciencialização sobre ataques a cristãos; oferecer formação sobre o cristianismo aos membros da polícia local, do município e de outras autoridades relevantes; melhorar os currículos sobre o cristianismo no sistema público de ensino; condenações mais fortes das autoridades e lideranças religiosas judaicas; e encorajar as comunidades cristãs a denunciar [os ataques]”.










