360 mil saídas em 2021

Caminho Sinodal não evitou “êxodo dos fiéis” numa Igreja alemã em crise profunda

| 29 Jun 2022

“Os escândalos no seio da Igreja que nos afectam e de que somos responsáveis reflectem-se nos números das saídas da Igreja como a imagem no espelho”, afirmou o presidente da Conferência Episcopal Alemã, o bispo Georg Bätzing (na foto, à direita, com o cardeal Reinhard Marx). Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner

 

Cerca de 360 mil pessoas abandonaram oficialmente a Igreja Católica na Alemanha no ano de 2021. Um número elevado como nunca! Que se passa afinal? Quem são estes baptizados e baptizadas que se dirigem às repartições do registo civil para declarar que querem desligar-se da Igreja que até agora consideravam sua e para a qual contribuíam financeiramente?  Que factores terão levado a dar este passo?

As estatísticas da Conferência Episcopal, publicadas a 27 deste mês, continuam a provocar comentários e reflexões nos meios de comunicação social. Há um acentuar unânime da gravidade da situação que se esconde atrás dos números e um horizonte de futuro sombrio para a Igreja.  É um verdadeiro “êxodo dos fiéis”, titulava um dos mais reconhecidos diários, o Süddeutsche Zeitung.

A maioria dos comentadores concorda com a explicação de que o motivo decisivo que leva as pessoas a voltar as costas à instituição é a imagem “desfigurada” e chocante da Igreja que se tem revelado com a publicação dos escândalos dos abusos sexuais. Durante o ano de 2021 foram publicados os relatórios referentes a várias dioceses, entre elas duas das maiores, Munique e Colónia. E, sobretudo em Colónia, a crise foi gerida de modo desastroso. O papel e a postura do cardeal Rainer Maria Woelki merecem nota negativa. E é assim que a diocese de Colónia foi a mais atingida: mais de 40 mil pessoas a sair da Igreja no ano que passou. Resultado: a crise de Colónia, porque muito mediatizada, ter-se-á ressentido a nível nacional.

O tema dos escândalos da pedofiilia e dos abusos sexuais por parte de membros do clero permanece há vários anos nas primeiras páginas devido à sucessiva e assincrónica publicação dos relatórios dos inquéritos e investigações nas várias dioceses. Foi esta a última razão que levou muitos cristãos a dar este passo, sobretudo quando os laços que os ligavam à Igreja são já por si frágeis, irrelevantes no dia em dia e sem visibilidade social. “Os escândalos no seio da Igreja que nos afectam e de que somos responsáveis reflectem-se nos números das saídas da Igreja como a imagem no espelho”, afirmava o presidente da Conferência Episcopal, o bispo Georg Bätzing, na apresentação das estatísticas anuais, segunda-feira passada, dia 27.

A individualização e o a ausência de compromisso que caracterizam as sociedades actuais são, além disso, marcas de uma situação que a Igreja partilha com todo o tipo de associações. Todas perdem membros. Todas têm dificuldade em recrutar pessoas empenhadas. Todas temem pelo seu futuro.

Alarmante, no dizer do próprio Bätzing, é a verificação de que começam a sair da Igreja cristãos comprometidos, pessoas que até agora tinham presença e empenhamento na vida das comunidades.  Trata-se de pessoas desiludidas com a Igreja, a quem ainda não chegou a “boa notícia” do Caminho Sinodal em curso? Ou serão pessoas que deixaram de acreditar na capacidade de renovação da Igreja e no sucesso do caminho sinodal?

 

Caminho Sinodal: uma Igreja sob pressão
Walter Kasper

O cardeal Walter Kasper tem sido uma das vozes mais críticas do Caminho Sinodal na Alemanha. Foto: CTV/Wikimedia Commons.

A pressão sobre os responsáveis da Igreja alemã, empenhada e comprometida ao mais alto nível com o Caminho sinodal” iniciado há mais de dois anos (2019), aumenta de dia para dia. A ideia do Caminho Sinodal nasceu para dar resposta ao escândalo dos abusos sexuais no interior da Igreja. Os estudos inter-disciplinares que a própria Igreja encomendou a três universidades alemãs mostraram claramente que o problema vai muito para além de falhas individuais nas pessoas da Igreja. O problema é sistémico. E a um problema que abrange todo o “sistema Igreja” há que responder com reformas globais, sistémicas. O trabalho de reflexão está a ser feito. Na última assembleia sinodal foram já votados e aprovados com as necessárias maiorias os primeiros documentos fundamentais. O que não se sabe é se este enorme esforço de reforma vai conseguir travar a erosão em curso na Igreja alemã, que se manifesta por exemplo nos números das saídas.

Alguns começam a interrogar-se mesmo se tudo vai ficar por bons textos teológicos e se os votos de mudança alguma vez poderão ser concretizados. A resistência não se limita à minoria de sete ou oito bispos que se tem feito sentir nas votações da assembleia sinodal, entre os quais alguns “pesos pesados” como o cardeal Woelki. A pressão vem de vários círculos conservadores (como é o caso de um grupo que se designa por “Novo Começo”, Neuer Anfang) e mesmo de bispos estrangeiros. Da Polónia, dos Estados Unidos, dos países escandinavos têm chegado tomadas de posição de bispos que manifestam o seu receio de que o Caminho Sinodal da Igreja Católica na Alemanha conduza a situações de “cisma” ou de “reforma” como nos tempos de Lutero.

O presidente da Conferência Episcopal tem respondido a essas cartas de uma forma serena, tentando explicar o que está em causa quando no Caminho Sinodal se fala de “participação de todos a todos os níveis do poder”, por exemplo, na escolha dos bispos diocesanos, ou da necessidade de levar a sério os sinais dos tempos, como “lugar teológico” em que o Espírito de Deus se manifesta e aponta caminhos. E acrescentando que não há perigo de “cisma” numa Igreja e com bispos que sabem bem até onde vão as suas competências e onde começa a competência da Igreja universal.

Além disso, não deixam de provocar alguma irritação geral críticas ao Caminho Sinodal vindas de pessoas de prestígio como os cardeais Walter Kasper (Alemanha) ou Christoph Schönborn (Austria) como também as palavras do Papa Francisco sobre a suspeita de uma “protestantização” da Igreja Católica alemã, quando num encontro com os directores das revistas jesuitas afirmava que “já há na Alemanha uma boa Igreja Evangélica, não precisamos de uma segunda”…

O catolicismo alemão atravessa realmente tempos difíceis. Tem de enfrentar uma crise profunda em várias frentes:  o confronto e o assumir das consequências dos abusos sexuais cujas dimensões as investigações vêm pondo a descoberto nas diferentes dioceses; a “sangria” que se manifesta na saída em grande número de católicos, sendo os números de 2021 os mais elevados de sempre; a impaciência e “capitulação” de todas e todos aquelas e aqueles para quem todas as reformas vêm tarde demais, se vierem…

A Igreja na Alemanha, com os seus bispos e teólogos, com os representantes e delegados dos movimentos, comunidades e grupos, está perante a questão de ter de enfrentar a crise com uma procura de reformas, teologicamente sérias e pastoralmente corajosas, na concretização dos princípios do II Concílio do Vaticano.  A pressão internacional, de Roma mas não só, e a suspeita com que muitos sectores lançam sobre o processo sinodal não ajudam. Apenas dão força e radicalizam os grupos mais conservadores. Mas o Caminho Sinodal vai continuar e os seus textos e posições podem constituir-se como um bom contributo para o caminho sinodal em curso na Igreja universal.

 

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