O Papa vai proclamar como doutor da Igreja John Henry Newman (1801-1890), cardeal inglês convertido do Anglicanismo, considerado como uma referência da vida eclesial no século XIX. É um dos grandes pensadores modernos do cristianismo, descreve a agência Vatican News, que foi protagonista de um caminho espiritual e humano que marcou a Igreja e o ecumenismo no século em que viveu.
Segundo a agência do Vaticano, o cardeal Newman foi autor de reflexões e textos que demonstram como viver a fé é um diálogo quotidiano “de coração a coração” com Cristo. Uma vida dedicada com energia e paixão pelo Evangelho – que culminou em 2019 com sua canonização – e que, em breve, fará de John Henry Newman a proclamação de Doutor da Igreja.
Segundo a Agência Ecclesia, a decisão foi anunciada pela Santa Sé, após uma audiência de Leão XIV ao cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. “O Santo Padre confirmou o parecer favorável da sessão plenária dos cardeais e bispos, membros do Dicastério para as Causas dos Santos, sobre o título de doutor da Igreja universal que será em breve conferido a São John Henry Newman, cardeal da Santa Igreja Romana”, indica comunicado divulgado.
Um doutor é alguém reconhecido pela Igreja Católica como exemplo de “santidade de vida, ortodoxia doutrinal e ciência sagrada”. O título foi atribuído a Santo António de Lisboa pelo Papa Pio XII, em 1946.
John Henry Newman foi canonizado pelo Papa Francisco a 13 de outubro de 2019, na Praça de São Pedro.
A biografia oficial publicada nessa celebração sublinhava os “importantes contributos” do santo inglês para a “vida intelectual da Igreja, tanto como anglicana quanto católica”. “Ele continua a ser uma das maiores influências no desenvolvimento do pensamento teológico católico e é considerado profético, especialmente no que diz respeito ao tema da formação adequada da consciência”, pode ler-se.
O futuro doutor da Igreja foi beatificado por Bento XVI a 19 de setembro de 2010, em Birmingham (Reino Unido); a sua festa litúrgica celebra-se anualmente a 9 de outubro, data que assinala a conversão do anglicanismo ao catolicismo, em 1845.
Forte influência na vida e pensamento de Joseph Ratzinger, Newman é reconhecido como um escritor, pregador e teólogo, a que James Joyce apelidava o “maior dos escritores ingleses em prosa”.
Nascido em Londres a 21 de fevereiro de 1801 e falecido a 11 de agosto de 1890, John Henry Newman foi uma das figuras principais do Movimento de Oxford, que procurava aproximar das suas raízes a Igreja Anglicana da Inglaterra, na qual era clérigo.
Em 1845, no seu Ensaio sobre o desenvolvimento do dogma, Newman “destilou o percurso espiritual que havia produzido nele a Luz que tanto buscava”, como descreve a Vatican News: “A de que a Igreja católica do seu tempo era a mesma que vinha do coração de Cristo, a Igreja dos mártires e dos antigos Padres, que, como uma árvore, cresceu e se desenvolveu ao longo da história. Ele pediu então para se tornar católico, o que fez em 8 de outubro de 1845”. Mais tarde, escreveria, que aquele momento tinha sido “como entrar num porto após uma viagem tempestuosa”.
Após a sua conversão foi ordenado padre católico em Roma, no ano de 1847, e encorajado pelo Papa Pio IX regressou à Inglaterra, onde fundou o oratório de S. Filipe Néri.
Escritor prolífico, como recordava o Vaticano na biografia oficial da beatificação, Newman abordou diversas matérias com destaque para a relação entre fé e razão, a natureza da consciência e o desenvolvimento da doutrina cristã, obras que lhe valeram grande reconhecimento do mundo católico e que influenciaram mesmo o Concílio Vaticano II, nos anos 60 do século XX.
Em 1879, com 78 anos de idade, foi criado cardeal por Leão XIII. Agora é Leão XIV quem o faz doutor da Igreja.
A sua autobiografia espiritual Apologia pro vita sua (1864) é vista por muitos como a maior obra do género desde as Confissões, de Santo Agostinho.










