Guerra

Carta de frei Timothy à família dominicana na Ucrânia

| 19 Mai 2022

Frei Timothy Radcliffe OP. Foto © Agência Ecclesia

Frei Timothy Radcliffe OP. Foto © Agência Ecclesia

 

O antigo mestre geral da Ordem dos Pregadores, o inglês Timothy Radcliffe, escreveu aos seus confrades na Ucrânia por causa da situação que o país vive desde 24 de fevereiro, data da invasão do país pela Rússia. A carta, escrita praticamente após o primeiro mês de guerra, recorda a passagem de Radcliffe pelo país nas visitas feitas quando era o responsável máximo dos frades dominicanos e sublinha o papel dos que estão no meio do sofrimento a manifestar sinais de bem, procurando ver o sentido mais profundo dessa presença. Pela importância do documento, o 7MARGENS publica a seguir o texto na íntegra.

 

Meus queridos irmãos e irmãs em São Domingos,

O nosso irmão Jarosław Krawiec OP, vigário provincial da Ucrânia, pediu-me para escrever uma carta para todos vós. Faço isso com uma profunda consciência que, diga eu o que eu possa dizer, será sempre inadequado! Vós estais confrontados com uma violência brutal e sem sentido que excede qualquer coisa que eu experimentei ou possa imaginar; assim, perdoai a pobreza das minhas palavras.

“Estarei convosco até o fim dos tempos.” (Mateus 28.36)

Milhões têm fugido da Ucrânia e encontraram refúgio em países vizinhos, especialmente na Polónia, que inspirou o mundo pelo seu generoso acolhimento. Graças a Deus que eles encontraram segurança longe do conflito. Mas também agradecemos a Deus por terem permanecido aí tantos irmãos e irmãs ucranianos e polacos, religiosos e leigos, quando isso foi possível. Em todo o mundo, as pessoas lêem as cartas do Frei Jaroslaw, e todos nós ficamos comovidos quando ele escreve: “Decidimos ficar com as pessoas na Ucrânia. Só saímos de Kharkiv quando a cidade, incluindo a área ao redor da nossa casa, começou a ser bombardeada”.

O Senhor Ressuscitado disse aos seus discípulos: “Eis que estou sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mateus 28.20). A vossa presença é um sinal do Senhor que permanece na Ucrânia agora mesmo e para sempre. Às vezes, a coisa mais importante que podemos fazer é simplesmente estar com as pessoas nas horas de necessidade. O Filho do Homem disse: “Eu estava doente e vós me visitastes” (Mateus 25.36).  Rowan Williams, o ex-arcebispo anglicano de Cantuária, disse: “Eu não vou embora”; é uma das coisas mais importantes que podemos ouvir. Como eu gostaria de estar convosco agora. Quando quiserem que eu volte, irei o mais rápido possível!

Tenho lembranças tão felizes das minhas visitas à Ucrânia quando era Mestre da Ordem. Fiquei impressionado com a beleza de Kyiv onde vós fazeis tão bom trabalho ensinando no Instituto Aquinas, pregando e publicando. Lembro-me da cidade movimentada de Fastiv, a igreja coberta de cobre e o nosso modesto convento composto por cabanas de construtores que aparentemente ainda estão hoje em uso e testemunham a preocupação dos frades para a missão em vez do seu próprio conforto! Também me lembro do silêncio de Chortkiv com as suas memórias de dominicanos martirizados pelo NKVD e mais acólitos na igreja do que eu poderia contar! Houve tantas visitas memoráveis – por exemplo, ao palácio do bispo na histórica Zhitomir onde fico triste de ouvir agora que há mísseis a destruir as casas das pessoas. A presença dominicana cresceu muito desde a minha última visita e não posso imaginar como é a vida, para aqueles que vivem hoje em Kharkiv, perto da fronteira russa, que tem sido alvo de tantos ataques de mísseis. Sei que há dominicanos em Khmelnytskyi e Lviv também – que até aos recentes ataques de mísseis pareciam bastante seguros. Onde quer que eu fosse na Ucrânia, era recebido com corações quentes e a hospitalidade eslava tradicional. 

Lembro-me de ver Fastiv quando a igreja ainda estava a ser restaurada e quando a Casa de São Martinho, o orfanato, era ainda um prédio vazio e um sonho na mente do nosso incrível irmão dominicano, Zygmunt Kozar, cujo coração estava sempre aberto aos idosos e aos pobres. Seu sonho agora é uma realidade e é maravilhoso ver o novo papel que a casa de São Martinho está a desempenhar como um posto de paragem para refugiados, alguns dos quais são órfãos a caminho de um lugar mais seguro na Polónia graças aos vossos esforços.

“Fazei isso em minha memória”

Todos os dias os vossos irmãos e irmãs em todo o mundo juntam-se convosco enquanto celebrais a eucaristia. Diante da violência louca que está a tentar destruir a vossa bela nação, vós vos lembrais da Última Ceia quando o que parecia estar à frente de Jesus era só violência e destruição. A sua pequena e frágil comunidade estava à beira do colapso e todos os sonhos para o futuro pareciam ter sido destruídos. Naquele momento tão sombrio, Jesus realizou este ato de esperança generosa, entregando-se aos seus amigos e a nós. Cada eucaristia proclama a nossa esperança de que a violência, destruição e morte não terão a última palavra. Quando a sua vida estava prestes a ser tirada à força, ele fez-se um presente. É a esperança e a generosidade eucarística que a Família Dominicana está a viver dia após dia na Ucrânia. Enquanto vós estais vivendo esta Sexta-Feira Santa, o Domingo de Páscoa aproxima-se!

Esta guerra brutal contra civis indefesos em cidades, vilas e até pequenas aldeias da Ucrânia é realmente chocante. Vemos mísseis e projéteis deliberadamente apontados para as casas de pessoas indefesas que não representavam nenhuma ameaça para ninguém. Diante disso, a eucaristia dá-nos esperança de que a paz do Senhor triunfará.

Reunir os fragmentos que sobraram, para que nada seja desperdiçado. (João 6.12)

Todo o mundo dominicano se comoveu com os relatos do Frei Jaroslaw sobre a bondade e compaixão de toda a Família Dominicana neste momento terrível: cuidar de refugiados, visitar os doentes, preparar comida; e a Irmã Anastasia a bater o recorde de viagem de carro para Fastiv com o forno para cozer pão! Acho que o anjo da guarda dela deve ter feito horas extraordinárias! Frei Jaroslaw escreveu: “Estou a conhecer essa nova realidade e estou cada vez mais certo de que durante a guerra, o que é necessário não são apenas soldados, mas também todas as pessoas nos bastidores. Eles entregam comida e medicamentos. E quando necessário, eles retiram as pessoas para lugares seguros. Os motoristas, farmacêuticos, professores, enfermeiros, médicos e tantos outros que não fazem outra coisa senão continuar no dia a dia, são todos um sinal de esperança para nós.

Às vezes, pode-se perguntar se se está a alcançar alguma coisa de bom. Como podem esses pequenos atos ter importância diante do enorme poder destrutivo de mísseis, tanques e aeronaves? Mas o Senhor da colheita garantirá que nenhuma boa ação seja desperdiçada. Como todos os fragmentos foram recolhidos da alimentação dos cinco mil, então nenhum ato de bondade será desperdiçado. Aparecerão frutos que nunca poderemos imaginar.     

Primo Levi, o químico italiano, encontrou Lorenzo no campo de concentração de Auschwitz. Lorenzo dava-lhe parte de sua ração de pão todos os dias. Ele escreveu: “Acredito que foi realmente devido a Lorenzo que estou vivo hoje; não tanto pela sua ajuda material, como por ele me ter lembrado constantemente, pela sua presença, pela sua maneira natural e clara, da importância de ser bom; algo difícil de definir, uma possibilidade remota de bem, mas para a qual valeu a pena sobreviver. Graças ao Lorenzo consegui não esquecer que eu mesmo era um homem.[1]‘ Todo o ato de bondade e compaixão é uma testemunha da possibilidade da bondade, da nossa humanidade, que o mal nunca pode destruir.

“A Verdade vos libertará” (João 8.32)

Costuma-se dizer que “a primeira vítima da guerra é a verdade.” Efetivamente, a violência que está a ser feita contra o vosso lindo país é o fruto envenenado de mentiras. Nós dominicanos, com o nosso lema Veritas e o nosso amor pela verdade, temos um testemunho especial a dar hoje num mundo que muitas vezes não se importa com a verdade. Quando visitei Bagdade durante o sofrimento do povo iraquiano, fiquei comovido ao ver a Academia de Ciências Humanas da cidade, fundada pelos dominicanos em 2012. Por todo o Iraque há escolas administradas pelas nossas irmãs dominicanas, sinais de que os seres humanos só podem florescer se buscarmos a verdade juntos. Cada escola é um sinal da nossa esperança para os nossos filhos e o seu futuro.

Portanto, é maravilhoso que no meio desta guerra sem sentido, os dominicanos continuem estudando e ensinando. Estive presente na inauguração do Instituto de Estudos Religiosos de São Tomás de Aquino, administrado pelos dominicanos em Kiev nos últimos 30 anos, e que continua o seu trabalho até hoje. Frei Pedro continua a dar palestras online sobre os evangelhos sinópticos. Cada hora de estudo ou ensino é uma proclamação de nossa esperança de que a violência sem sentido não terá a última palavra. A luz resplandece nas trevas e as trevas não a compreenderam. (João 1,5)

Nenhuma cultura de mentiras pode perdurar porque destrói a base da comunidade humana. Frei Pawel Krupa OP apareceu num clip TikTok recentemente. Alguém lhe perguntou: “Tem alguma mensagem para os jovens?” Ele respondeu: “Sabe? Pergunta a um padre e ainda mais especificamente um padre da Igreja Católica: tenho algo para jovens e velhos. Procurem a verdade e a verdade vos libertará…” Em dois ou três dias, houve cinco milhões de visualizações. Agora, o vídeo já tem mais de 10 milhões de visualizações e 1,7 milhões de “gostos”. Muito poucas das pessoas que “gostaram” sabiam que Pawel estava citando Jesus, mas essas palavras evangélicas tocaram numa fome profunda: “Procurem a verdade e a verdade vos libertará.” Agradeço também a Deus por todos os professores e alunos e pelos jornalistas que arriscam as suas vidas para partilhar com o mundo a verdade do vosso sofrimento.

Também nos lembramos dos vossos irmãos e irmãs russos que têm a coragem de protestar contra as mentiras do Kremlin, mesmo sob o risco de prisão. Ficamos tão comovidos com as palavras do católico russo que foram lidas do púlpito em que ele expressa a sua vergonha pelo que o seu país está a fazer. Que expressão de coragem e de esperança!

Então, meus irmãos e irmãs, todos vós são abraçados nas orações e no amor da Família Dominicana em todo o mundo. Damos graças por estardes nesse lugar de loucura, testemunhas visíveis do Cristo que estará connosco até ao fim dos tempos. Damos graças convosco todos os dias na expressão suprema de gratidão, a eucaristia, o sacramento da nossa esperança, que a guerra será derrotada. Damos graças pelos atos de compaixão e bondade que são as sementes da colheita que o Senhor trará. Que a vossa busca dominicana pela verdade seja um sinal de que a cultura das mentiras que está alimentando essa violência não perdurará. Que o Senhor conceda que eu possa estar convosco na Ucrânia o mais rápido possível! E perdoai as minhas palavras tão inadequadas.

Vosso irmão em São Domingos.

Frei Timothy Radcliffe OP
Blackfriars, Oxford, Reino Unido
21 de março de 2022.

pastedGraphic.png

[1] “Sobrevivência em Auschwitz”, The Tablet, 21 de Janeiro de 2006.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

"Nada cristãs"

Ministro russo repudia declarações do Papa

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, descreveu como “nada cristãs” as afirmações do Papa Francisco nas quais denunciou a “crueldade russa”, especialmente a dos chechenos, em relação aos ucranianos. Lavrov falava durante uma conferência de imprensa, esta quinta-feira, 1 de dezembro, e referia-se à entrevista que Francisco deu recentemente à revista America – The Jesuit Review.

À espera

[Os dias da semana]

À espera novidade

Quase todos se apresentam voltados para o sítio onde estão Maria e José, que têm, mais por perto, a companhia de um burro e de uma vaca. Todos esperam. Ao centro, a manjedoura em que, em breve, será colocado o recém-nascido. É tempo agora de preparar a sua chegada, esse imenso acontecimento, afinal de todas as horas.

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas

Novo cargo no Vaticano

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas novidade

O bispo português Carlos Azevedo foi nomeado neste sábado para o lugar de delegado (“número dois”) do Comité Pontifício para as Ciências Históricas, deixando o cargo equivalente que desempenhava no Dicastério para a Cultura e a Educação, da Santa Sé, que há poucas semanas passou a ser dirigido pelo também português cardeal José Tolentino Mendonça.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This