Palmilhando a Avenida Sá da Bandeira, em Coimbra, sinto as passadas da história ao percorrer os passeios. Imagino os cheiros que Eça de Queiroz experimentava – talvez bebesse um café no Nicola, ajeitando o monóculo enquanto lia a imprensa nacional da época.
A cidade que deu berço a uma das mais antigas universidades do mundo tem uma aura única. Uma mistura perfeita, quase nostálgica, entre o académico e o boémio. No Mondego, sento-me à beira-rio. Deixo o olhar repousar naquilo que poderia ser a criação divina. Coimbra parece sempre uma cidade adormecida, mas majestosa. Longe do ritmo frenético da capital. Tem uma vibração espiritual intensa, combinando arquitectura milenar com uma ambiência urbana.
No fundo, sente-se neste sítio o correr de séculos de história e de estórias. Julgo que foi esse espírito que inspirou Camões, outrora estudante de Coimbra, a escrever a sua epopeia. A cidade é grande na sua serenidade, tal como Camões foi em vida – grande, mas sem o reconhecimento que hoje lhe atribuímos como poeta incontornável.
Porém, não é só a matéria que nos sensibiliza. A alma das suas gentes sempre me fascinou.
“Andas com o teu casaco vestido? Muito bem”, disse o motorista do Uber, enquanto conversava com um senhor que pedia esmola junto a um semáforo na Baixa da cidade.
“Costumo dar-lhe roupa. Quando passo por aqui, vejo se ele ainda tem o que lhe dei. Já ouvi dizer que podem roubá-lo”, confidenciou-me o motorista.
“Com este frio, é bem necessário”, respondi, numa tentativa discreta de aplaudir a sua atitude.
A visita à antiga capital culminou com o nascimento do filho de um grande amigo. No fundo, ganhei um novo guia para explorar os seus recantos ou para me perder nos seus cafés e restaurantes. As possibilidades são inúmeras. Sentir nos braços um pedaço de vida proveniente de um amigo é mágico. Afinal, acompanhei o percurso do pai, as suas fases, o seu crescimento. Agora, tudo construído e solidificado na forma de uma nova vida. Coimbra e as suas magias, afinal, nunca me deixam de surpreender.

“Imagino os cheiros que Eça de Queiroz experimentava – talvez bebesse um café no Nicola, ajeitando o monóculo enquanto lia a imprensa nacional da época.” Foto: Café Nicola (Rua Ferreira Borges), Coimbra. © Joehawkins / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0,
Pedro Castro Gomes, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, é natural de Lisboa e trabalha como Analista de Media.










