Um Governo, qualquer que seja, é em geral visto a partir de fora. E é avaliado sobretudo pela dor que nos causa em virtude das medidas que toma e das que não toma. Aquilo em que nos serve tende a passar despercebido (como os dentes que não nos doem). Daí, formamos uma ideia da política e dos políticos como atividade e como pessoas pouco ou nada recomendáveis. Vistos de fora, repita-se, a partir das dores da vida. Mas, como sempre acontece, a política não é o que parece vista de fora.
O livro “Um Poder Diferente”, de Jacinda Ardern (Casa das Letras, 439 pp.), que ficou conhecida como primeira-ministra da Nova Zelândia (2017-2023), permite-nos entrar e olhar a política a partir de dentro na atividade do Parlamento e do Governo. Do seu país, é claro, mas, sem dúvida, em boa medida também do nosso.
Vemo-la crescer, a formar o seu quadro de valores, e pelos olhos dela somos levados ao interior da atividade partidária e assistir ao seu trabalho como deputada e depois como primeira-ministra.
Há que registar que a autora é militante do Partido Trabalhista, o que implica um alinhamento ideológico e partidário. Mas não há razão para supor que os políticos de outros partidos e ideologias sejam menos trabalhadores, menos comprometidos e menos sérios, embora a isso sejamos tentados pela nossa subjetividade e eventual falta de sentido crítico.

Talvez haja, porém, alguma verdade nessa nossa perspetiva de classificação da política e dos políticos. E é justamente por isso que Jacinda Ardern aponta para um exercício “diferente” do Poder. Qual a diferença? Uma “liderança empática”, uma política como “meio para mudar tanto a vida de uma pessoa como a de centenas de milhares”, um trabalho intenso por um “mundo melhor”.
E é aqui que devemos abrir o leque e perceber que outras opções ideológicas também querem um mundo melhor, embora com outras perspetivas do que é bom e melhor.
Sim, mas sabemos, basta olhar em volta, como há muitos exercícios políticos em que não temos como aplicar tais adjetivos. Se a política fosse isso, não teríamos o mundo como ele se encontra, à beira do colapso, certo? E também ali vemos, por dentro e de fora, a política de baixo nível, do insulto à agressão gratuita, num percurso que está a tornar-se global. O que dá ao livro um suplemento de atualidade.
Vale a pena ler a narrativa que J. Ardern nos propõe, para decidirmos até onde lhe fazemos companhia nas suas apreciações e onde começamos talvez a distanciar-nos. No que diz respeito à grande Política, a arte nobre de criar comunidade e gerir estruturas e processos. Não apenas no Poder central ou local, mas também nos lugares de Poder à frente de uma escola ou um hospital, uma associação ou uma empresa, atrás de um balcão ou ao lado de uma pessoa que precisa seja do que for.
Porque, se a política é a gestão da Polis, em qualquer lugar, da base ao topo, todos temos um papel político a desempenhar, mesmo que não como políticos em sentido profissional.
No caso português, a verdade é que o país nem se compara por exemplo com o que era há 50 anos. E só a cegueira ideológica pode congeminar que está tudo pior.
Não, a política não é apenas gestão de conjuntura a pensar em “nós” próprios. Não é fácil, neste contexto particular e em situações extremas como a Covid e um atentado terrorista. Mas Jacinda Ardern procura manter firme o seu propósito: “Prefiro ser criticada a deixar de ser humana”. Por isso alguém a definiu com o termo “bondade”.
Vale a pena terminar com a pergunta que ela própria nos deixa: “Acha que os políticos podem ser bondosos?”.
José Alves Jana é doutorado em filosofia, professor aposentado, voluntário e dirigente associativo. Contacto: jalvesjana@gmail.com










