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Construir fraternidade é uma heresia?

| 13/03/2021

“Qualquer verdadeira religião é sempre um caminho para ligar as pessoas entre si e com o divino” (Catedral de N.ª S.ra da Salvação, Bagdad. Foto captada da transmissão vídeo do Vatican Media.)

 

Por muita falta de nobreza de carácter que alguém tenha nunca poderá considerar que possam ser contranatura todos os esforços que se façam por uma maior humanização do mundo. Poderão não dar um passo nesse sentido e até mesmo criar dificuldades para que se alcance esse desígnio, mas, bem no seu âmago, sabem que viver em harmonia é um bem em si mesmo.

Para quem se diz cristão, o contribuir para que a Humanidade se vá tornando como o seu Criador a pensou e que, por Jesus Cristo, foi muito bem definida, através do seu testemunho e ensinamentos, não basta que reine a amizade social, mas que ela evolua para a fraternidade. Tudo fazer para que todos sejamos irmãos. Assim, só se pode dizer seguidor de Jesus Cristo quem se esforçar, sinceramente, por amar os outros (cfr. João 13, 35) e só assim sabe que terá garantida a vida em Deus na medida em que os amar como irmãos e, se os odiar, é um assassino. (cfr. 1 João 3, 14).

Quem acompanhou a viagem apostólica do Papa Francisco ao Iraque não consegue negar que todas as suas palavras e gestos respiravam amor fraterno pelos seus irmãos, cristãos sofridos, e pelos de outras religiões, particularmente os islamitas. O Papa cumpriu uma obrigação decorrente do mandato que recebeu ao aceitar a missão de confirmar os seus irmãos na fé (cfr. Lucas 22, 32). É, por isso, inqualificável que possa haver algum católico que o critique. Não ficou bem à Igreja Católica que o seu líder sentisse necessidade de justificar a sua opção por ir ao encontro de cristãos perseguidos para os animar na fé e lhes agradecer o seu testemunho de martírio e lançar os alicerces de pontes para a pacificação entre religiões. Qualquer verdadeira religião é sempre um caminho para ligar as pessoas entre si e com o divino “re-ligare” na sua etimologia latina. São os fundamentalismos, mais ou menos agressivos, que as desfiguram.

Quem está bem-intencionado, reconhece que esta peregrinação do Papa foi uma opção muito complexa pelos riscos possíveis que, a vários níveis, Francisco e a Igreja Católica em geral corriam. O corajoso Bispo de Roma disse aos jornalistas, no seu regresso, que “estas decisões são tomadas em oração, em diálogo, pedindo conselho, em reflexão, não são caprichos. E é a linha que o Concílio nos ensinou”.

Mais que o Vaticano II, é a própria Palavra Revelada de que retirei duas citações, acima referidas – entre muitas outras mais – que exigem estas atitudes, mas é verdade que são várias as orientações dos Padres Conciliares no mesmo sentido. Realço apenas uma das muitas que consta na Declaração Dignitatis humanae sobre a Liberdade Religiosa que afirma ser “patente que todos os povos se unem cada vez mais, que os homens de diferentes culturas e religiões estabelecem entre si relações mais estreitas, que, finalmente, aumenta a consciência da responsabilidade própria de cada um. (…) Queira Deus, Pai de todos os homens, que a família humana, beneficiando da salvaguarda da liberdade religiosa na sociedade, seja conduzida pela graça de Cristo e pela força do Espírito Santo à sublime e perene ‘liberdade da glória dos Filhos de Deus’. (Romanos 8, 21).” (DH, 15).

Esta intensa peregrinação de um “penitente” é mais uma clara evidência de que Francisco é um dom da graça salvífica que Deus está a derramar sobre o mundo, através da Igreja. É uma oportunidade que nos está a ser concedida para que ela responda às necessidades concretas do mundo atual. Por isso, não são compreensíveis determinadas críticas maledicentes, a “maioríssima” delas, vinda de dentro da própria Igreja. Que tem dito e feito o Papa que não possamos encontrar a sua fonte na Sagrada Escritura e no Magistério oficial da Igreja?

Com isto, não quero defender que se calem os que, porventura, tenham outros modos de pensar. O saudoso e grande bispo português, João Alves, uma vez disse-me: “Rapaz, só critica a Igreja quem a ama. A indiferença é-lhe mais prejudicial.” Jamais esqueci esta afirmação. Também Jesus criticou os chefes da sua religião e os que a praticavam com hipocrisia. Bem diferente é a crítica caluniosa, maledicente e destrutiva. Essa só corrói pessoas e instituições. Provoca mágoas e desânimos.

O mundo está numa encruzilhada. A Igreja tem uma missão a cumprir na proposição de caminhos novos e tem um Papa que é o maior líder deste tempo. Deus espera que estejamos à altura do mandato que nos legou.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

 

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