AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

CEC

Conselho das Igrejas da Europa em Talin

Cristãos podem ser “perigosos para as ditaduras e necessários para as democracias”

| 16/06/2023

CEC

“A verdadeira fraternidade deve ser um sentimento entre iguais: pressupõe igualdade. A verdadeira fraternidade não tem por objetivo explorar ou prejudicar” Foto © Albin Hillert / CEC

 

A líder do movimento democrático da Bielorrúsia, Sviatlana Tsikhanouskaya, acaba de denunciar a repressão governamental contra as comunidades religiosas no seu país, cujos líderes religiosos, segundo as suas palavras, “se opuseram corajosamente à violência do Estado e ao terror desencadeado contra os… cidadãos”.

Aquela dirigente, Sviatlana Tsikhanouskaya, que se tornou um símbolo da luta pacífica pela democracia e da forte liderança feminina, foi uma das conferencistas no primeiro dia de trabalhos da assembleia geral do Conselho Europeu das Igrejas, que decorre desde quinta-feira, 15, em Talin, capital da Estónia, com participação de representantes de igrejas cristãs portuguesas.

Tsikhanouskaya começou por referir-se, no seu discurso, ao “pesadelo” que se abateu na manhã de 24 de maio de 2022, com a “agressão em grande escala contra a nação ucraniana” por parte da federação Russa, que bombardeando e invadiu também a partir do território da Bielorrússia.

“Um dos aspetos mais surreais desta invasão foi o facto de ter sido de ter sido alegadamente levada a cabo em nome da fraternidade”, afirmou. “A ideia das três ‘nações fraternas’ recebeu um golpe mortal daqueles que a promoveram”, acrescentou ainda.

Em seu entender, “a verdadeira fraternidade deve ser um sentimento entre iguais: pressupõe igualdade. A verdadeira fraternidade não tem por objetivo explorar ou prejudicar. A verdadeira fraternidade não é abusiva, procura o empowerment [emancipação] e não o domínio”, explicou a dirigente, para deixar esta interrogação: “Poderá esta verdadeira fraternidade existir no mundo atual?”.

A líder democrata referiu-se à luta pela liberdade que se tem travado na Bielorrússia, lembrando em especial a revolta das mulheres vestidas de branco, em 2020, que a filósofa Olga Shparaga designou por “revolução com face feminina”. Recordou que mais de duas centenas de mulheres se encontram presas por se insurgirem contra a tirania e muitas delas são cristãs, disse.

Nesse contexto, referiu o testemunho de Vitold Ashurak, um católico de Lida, que foi o autor de um slogan de grande impacto que dizia “um bielorrusso é bielorrusso para outro bielorrusso”. O regime de Lukashenko prendeu-o em setembro de 2020, no momento em que regressava de uma oração, com um terço na mão.

“O terço, a oração e a fé foram as suas únicas armas contra a violência do Estado”, observou, contando que morreu na prisão em 2021, tendo o dia da sua morte sido adotado como o dia da solidariedade com os presos políticos da Bielorrússia”.

Na Europa de hoje, as comunidades religiosas e as pessoas de fé “podem desempenhar um papel significativo na promoção da paz na sociedade, mantendo a esperança sob o jugo da tirania e contribuindo para a transformação democrática”, afirmou Sviatlana Tsikhanouskaya. “As pessoas cuja fé lhes ensina a não matar, a não roubar, a não prestar falso testemunho, que honram Deus mais do que os líderes políticos, cuja força moral é reforçada pela sua crença – são extremamente perigosas para as ditaduras e extremamente necessárias nas democracias”, concluiu.

 

Hartmut Rosa: “Temos de criar um mundo de ressonância”

“Quando uma sociedade é forçada a crescer permanentemente, a acelerar, mas perde o sentido do movimento para a frente, então está numa crise. E a questão interessante que se coloca é: será que uma sociedade assim precisa efetivamente de uma instituição como a Igreja?” Foto © Albin Hillert / CEC

 

Outro conferencista da parte inicial da assembleia da CEI foi o professor e sociólogo Hartmut Rosa, que falou sobre o tema “Ser europeu – uma avaliação sociológica em 2023 e mais além “.

Para ele, perante problemas e realidades que são globais, como a crise climática, as formas de desigualdade, as epidemias ou os mercados financeiros, não faz sentido uma Europa fechada em si mesma.

Disse acreditar numa Europa forte, mas não como potência ou arma contra outros. O “nós” é global, “é o planeta em que vivemos” e faz-se de da diversidade, observou.

“Temos de falar uns com os outros, de criar um mundo de ressonância”, disse a dada altura o sociólogo, que é também um dos principais representantes atuais da chamada “teoria crítica”, para quem o conceito de ressonância remete para a capacidade de escutar o outro e de responder, no quadro daquilo que é (“até porque não se pode perder as vozes particulares”), mas em atitude de abertura.

Hartmut Rosa que é especialista da sociologia do tempo e tem trabalhado conceitos como “aceleração” e “escalada”, perguntou, a dada altura do seu discurso, em jeito de desafio:

“Quando uma sociedade é forçada a crescer permanentemente, a acelerar, mas perde o sentido do movimento para a frente, então está numa crise. E a questão interessante que se coloca é: será que uma sociedade assim precisa efetivamente de uma instituição como a Igreja?”

A reflexão sobre esta questão é para ele relevante por se colocar tanto no contexto eclesial como no debate sociológico: “será que precisamos de algo assim ou isto será apenas um anacronismo? Será a Igreja, em última análise, um resquício de outra forma de sociedade e de outra maneira de se relacionar com o mundo?”.

 

“Esta sociedade carece de um coração que escuta”

Hartmut Rosa

Hartmut Rosa propõe a “ideia fundamental” de que esta sociedade “carece maciçamente de um coração que escuta – no plano político e em todos os outros aspetos também.” Foto © Anne Guenther FSU / Institut Français

 

Rosa deu vários exemplos de situações em que as sociedades podem – e em alguns casos já estão a fazê-lo – começar a interrogar(-se) porque é que as religiões pautam a sua vida (por exemplo, a existência de disciplinas escolares de umas religiões e não de outras; a pausa semanal à volta do sábado e domingo, certos feriados religiosos…).

Perante a sensação de anacronismo do facto religioso, que, segundo o sociólogo, muitas vezes já está assumido pelas pessoas crentes, o sociólogo argumenta, não como crente, mas como sociólogo, que “a igreja pode desempenhar um papel muito importante nesta sociedade”, simplesmente porque “ela tem de facto algo a oferecer.

Não por os valores que ela defende são os corretos, explica o conferencista, mas “porque a sociedade moderna – e, portanto, a sociedade europeia – está num impasse vertiginoso e sem fôlego, o que tem um preço bastante elevado”:  “busca desesperadamente uma forma alternativa de se relacionar com o mundo, de estar no mundo. E onde é que esta sociedade pode procurar outras formas de se relacionar com a vida, até com o universo, o cosmos, a natureza? Onde é que pode encontrar esse reservatório alternativo?”, interroga o conferencista.

Hartmut Rosa propõe a “ideia fundamental” de que esta sociedade “carece maciçamente de um coração que escuta – no plano político e em todos os outros aspetos também. (…) Por isso precisamos de ideias, práticas e afins que nos esclareçam sobre o que pode de facto significar ‘ter um coração que escuta’. Podemos encontrar elementos de uma resposta em contextos religiosos”.

Isso, no entanto, não funcionará se as autoridades eclesiásticas e as próprias igrejas continuarem com “um coração surdo, duro e de aço”. Se quiserem “simplesmente proclamar e impor verdades, então falta-lhes um coração que escuta em todos os aspetos”.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.