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3 Milhões de Nós 2025 (1)
O 3 Milhões de Nós levou ao palco da Aula Magna "uma pequena amostra do mundo em que vivemos e dos seus desafios". Foto © Paulo Alexandre

Testemunho

Depois do 3 Milhões de Nós, uma pergunta: “E tu, o que vais fazer com o teu tempo?”

| 28/03/2025

A 4ª edição do 3 Milhões de Nós reuniu no passado sábado, 22 de março, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, mais de 1.400 jovens. A iniciativa, organizada pela Associação Futuro Solidário, da Família Missionária Católica Verbum Dei, realiza-se de dois em dois anos e pretende ser um dia de formações, debates e partilhas sobre questões relevantes para os jovens. O texto que a seguir se reproduz é o balanço do que aconteceu ao longo desta 4ª edição, feito no final por Tiago Pinto Coelho, um dos apresentadores e coordenadores do evento.

 

“É muito mais o que nos une, do que o que nos separa.”
Rui Veloso

Quando somos capazes de tirar os olhos do nosso umbigo e de os pôr na construção partilhada deste mundo em que vivemos, fica evidente que é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.

Estamos a terminar um dia longo, intenso e desafiante. Um dia em que escolhemos parar para refletir, ouvir e partilhar, mas sobretudo, um dia em que escolhemos olhar o futuro com esperança. Foi um dia cheio. E deste dia cheio, saem quatro grandes perguntas que cada um leva consigo para continuar o trabalho que aqui começámos hoje.

1. Começámos o dia a olhar para o nosso retrato, para a nossa Identidade. Vimos quem somos enquanto geração, enquanto sociedade, quem seguimos e o que nos caracteriza. E houve uma pergunta que ficou, deixada pela Kika Araújo: Como é que te defines? Saber quem sou e o que tenho para dar é o primeiro passo para poder agarrar este que é o meu tempo.

2. Olhámos depois para o caminho que vamos fazendo na procura de um sentido e de um propósito maior para a nossa vida. Falámos da importância das pausas, da vulnerabilidade e das nossas fragilidades, do silêncio, daquilo que trazemos e vivemos por dentro, e da nossa espiritualidade. Foi ficando a ideia de que o sentido e o propósito maior da minha vida, vou-o
encontrando na medida em que sou capaz de entrar nesse espaço interior. E a pergunta que saía era simples: afinal de contas, o que é que te move? O que é que te faz levantar todos os dias?

3. Da parte da tarde foi tempo de olhar para o Mundo! Para o incrível, mas estranho e complexo mundo em que vivemos. E a pergunta que veio à superfície foi muito clara: qual é o teu lugar neste mundo? O que é que podes acrescentar a esta construção partilhada?

4. Terminamos a olhar para os extremos e para a urgência de construir pontes! Vimos há pouco como é fácil erguer muros, como tantas vezes o fazemos quase sem querer. Mas também vimos como é poderoso quando escolhemos derrubá-los.

Tiago Pinto Coelho apresentou o 3 Milhões de Nós 2025. Foto Paulo Alexandre

Tiago Pinto Coelho foi um dos apresentadores do 3 Milhões de Nós 2025. Foto © Paulo Alexandre

Hoje, trouxemos ao palco uma pequena amostra do mundo em que vivemos e dos seus desafios. E apesar do mundo em que vivemos ser um sítio incrível, a verdade é que as coisas nem sempre parecem animadoras, e há dias em que até parece que não há nada de bom a acontecer… mas será verdade?

É verdade que as notícias trazem mais preocupação do que esperança, que a falta de bom senso chega a ser gritante e que a falta de capacidade de gerar consensos a que vamos assistindo por estes dias é assustadora. Mas ainda assim, continuamos a acreditar que vale a pena olhar para tudo isto com um olhar de esperança. É, aliás, por isso, que continuamos a acreditar na importância de um dia como este! Mais ainda, acreditamos que cultivar e manter um olhar de esperança sobre aquilo que vivemos pode ser altamente transformador. Para mim, e para quem tenho à minha volta!

Nos últimos tempos, durante o processo de preparação deste dia, vieram-me à cabeça duas histórias, que partilho porque podem ajudar a dar o mote com que queremos sair daqui.

A primeira história diz respeito a um pequeno episódio que tenho vivido com o meu filho mais velho, que tem dois anos. Ele está numa creche que fica num segundo andar, e desde que ele começou a andar que quis passar a descer pelas escadas, a pé. Ele tem 50 centímetros e o degrau tem 30…o degrau é meio filho, e por isso umas escadas que se descem num minuto, passámos a descê-las em dez! Mas ele lá vai, todo desengonçado, e desde esse primeiro dia que chegava ao topo da escada, olhava lá para baixo, dava-me a mão, agarrava o corrimão, descia o primeiro degrau, parava, olhava para baixo, olhava para mim, sorria e dizia: “Está quase!”. Este “está quase”, que se repete dia após dia no início daquela descida – que para ele é dificil! – passou a ser, para mim, um lembrete de que não há caminho tão longo que não possa ser feito passo a passo. E que é sempre possível encarar aquilo que tenho pela frente com um olhar de esperança.

A segunda imagem – história – que trago, talvez já a conheçam. É a história de Yusra Mardini, uma nadadora de competição síria que fugiu da guerra. Com apenas 17 anos, para fugir da Síria, ela e a irmã meteram-se num bote para atravessar o mar Mediterrâneo. O bote era desenhado para 6 pessoas, mas nesse dia levava 18. A meio da travessia, o motor avaria e o bote começa a afundar. Praticamente ninguém sabia nadar, todos entraram em pânico e a Yusra, nesse momento, atirou-se à água e nadou, a empurrar o barco. Ao ver Yusra, a sua irmã e mais duas pessoas saltaram para a água e começaram a empurrar o bote a nado. Durante horas. Nadaram durante mais de três horas e conseguiram chegar à Grécia, todos sãos e salvos. Passaram dez anos e a Yusra teve entretanto duas participações nos Jogos Olímpicos.

“A verdade é que as coisas nem sempre parecem animadoras, e há dias em que até parece que não há nada de bom a acontecer.” Foto © Paulo Alexandre

Trouxe estas histórias porque elas deixam claros dois pontos, que podem ser o mote com que saímos daqui hoje: em primeiro lugar, que olhar aquilo que vivemos com um olhar de Esperança pode ser o que me faz identificar o tempo em que sou chamado a dar aquilo que tenho! Pode ser o que me faz descobrir as possibilidades…porque a vida não se improvisa! O que salvou a vida daquelas 18 pessoas foi o facto daquela miúda de 17 anos ter percebido que, sabendo nadar, era o tempo dela de dar o que tinha… que o pouco que podia dar, podia fazer a diferença. O pouco de cada um, somado ao pouco de muitos, pode transformar a nossa realidade. Nem que seja apenas à nossa volta. Não conheço a Yusra, mas tenho a certeza de que só uma pessoa que cultiva e mantém um olhar de Esperança sobre a vida consegue reagir como ela reagiu naquele momento.

Em segundo lugar, que todos sem exceção, independentemente do que trazemos e da circunstância em que vivemos, podemos ser sinal de Esperança para quem anda à nossa volta… e isso também pode transformar! A Yusra sozinha não teria salvo aquelas 18 pessoas. Mas porque foi sinal de esperança, houve outras 3 que se juntaram a ela para possibilitar que aquele milagre acontecesse.

Chegamos ao fim deste dia.

“Não nos cabe decidir o tempo em que vivemos. Só temos que decidir o que fazer com o tempo que nos é dado viver.”
Gandalf

E depois disto tudo, só fica uma última pergunta: E tu? O que vais fazer com o teu tempo?

 

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