
É conhecida a piada: o futebol é um desporto de cavalheiros jogado por brutos, ao passo que o rugby é um desporto de brutos jogado por cavalheiros.
Foi numa tarde de sábado, há mais de cinco décadas, que dei comigo a assistir a um jogo de rugby comentado pelo saudoso Cordeiro do Vale. E logo percebi que me convinha mais do que o futebol. Não era apenas mais disciplinado e complexo. As inúmeras interrupções e o intenso diálogo entre árbitro e jogadores permitiam concebê-lo como parte de uma conversação regulada, de que um dos ingredientes, como por acaso, era a disputa de uma bola cuja forma oval acrescentava incerteza à incerteza, por muitos celebrada como a virtude por excelência dos desportos com bola.
Outras virtudes se lhe acrescentavam: o público cantava, celebrava a jogada de excepção, mas não procurava distrair o jogador que preparava a tentativa de conversão do ensaio ou o pontapé de penalidade, não insultava, não invadia o campo, celebrava o jogo mais do que a equipa e não havia hostilidade entre adeptos de formações diferentes – enfim, não se fazia tudo aquilo que de mais negativo nos tínhamos acostumado a ver nos relvados do futebol por essa Europa e tinha, então, expressão maior entre os hooligans do Reino Unido e países limítrofes.
Até hoje, os cerca de dois meses em que se disputa o torneio das cinco nações ou, desde o início do século, das seis nações têm sido o período do ano em que me sinto mais fã de um desporto de massas, especialmente porque, como dizia alguém a propósito do futebol americano, parece ter sido concebido para ser visto pela televisão (no caso vertente, o tempo, os lugares e os preços não permitem outra abordagem). Claro que o carácter irrepetível da vida vivida não se compadece com a repetição da jogada, com a circulação em câmara lenta, com o detalhe microscópio, que o momento em que tudo se consuma é inapagável, mas quantas vezes nos surpreende distraídos, nos faz lamentar a infeliz companhia do sujeito que não pára de saltar ao nosso lado, porque ainda não se deu conta de que podemos todos seguir um jogo de rugby – não outro qualquer – bem sentados e bem atentos, visto que se o futebol é o lugar do irracional (é o que sustentam, sem prova, intelectuais de muitos calibres), o rugby concebeu-se para ser pensado e agido, mas não um em vez do outro.
Posto isto, e do fundo da minha admiração por Gareth Edwards, John Williams e a magnífica equipa do País de Gales que segui, encantado como um galês, nos anos 70, quero passar a uma recente excepção futebolística.
Todos nos lembramos do estado miserável em que dirigentes desportivos dos maiores clubes do futebol português têm deixado os clubes que dirigem – e não me refiro ao deve-e-haver contabilístico ou a condutas do foro criminal da terra do colarinho branco. Falo, isso sim, da miséria moral que conduziu a coisas tão aberrantes como a invasão de um recinto de treino, conduzida por membros de claque protegida, ou as agressões a sócios reunidos em assembleia deliberativa, para não falar dos negócios com bilhetes e das interfaces com a criminalidade grande e pequena e os mandantes das pequenas formações de extrema-direita que se alimentam de, e estimulam, todas as formas de violência de massa. E o caso é que o que começa na bola não fica na bola. Transborda.
Transborda para as outras modalidades e patamares etários. Transborda para o desporto amador e os chamados escalões de formação. É todo um clima avesso à civilidade, ao respeito, cheio de orgulho e violência, de ira e frustração mal dominada, de exemplos frustres de ‘espírito competitivo’ sem a mais leve sombra de respeito pelo companheiro, os adversários, os treinadores, alimentado e sustentado por inúmeros pais e mães de cristinaninhos/inhas, quetazinhos/inhas, erickzinhos/inhas em potência. Pais e mães que correm para a escola ao menor sinal de exercício da autoridade legítima sobre os distintos rebentos, mas não se coíbem de insultar o treinador da filha, o pai do coleguinha que substitui o excelentíssimo pimpolho seu descendente, ou mesmo de aplicar salutar estalada a eito, que são sempre as melhores: não escolhem, não discriminam. E como é de pequenino que se torce o pepino, assim também o pré-adolescente fica a saber uma coisa: valente é o que agride e insulta, que aqui ninguém se fica e o meu pai é maior que o teu.

Voltando ao rugby, um título, Lois e moeurs du rugby [Leis e costumes do rugby] [1] e dois autores prestigiosos, Jean Lacouture, o jornalista e prolixo biógrafo, e Fabien Galthié, o celebrado treinador da actual equipa francesa, aí estão a celebrar o jogo da bola oval, explorando os dois planos: de um lado, a lei (hoje são 21 leis), as regras constringentes que fazem a infra estrutura jurídica do jogo, aquilo sem o que rugby seria outra coisa; do outro – moeurs, costumes, mas também uma certa ordem moral, de mos, mores (latim) – o que, inscrito numa tradição, constitui o pano de fundo da acção que concretiza a regra, o fair-play, a disposição celebratória e festiva, a ponderação do risco, a cortesia obrigatória dentro e fora de campo, a serena obediência, sem o que não há sociedade, muito menos civilização.
É por isso que, embora a profissionalização e a entrada de novas equipas e povos (não esquecer os povos e os costumes dos ditos) no universo do rugby de alta competição tenham vindo, pouco a pouco, a contribuir para uma, ainda suportável, alteração de costumes, fruto da ausência de tradição, o contraste com o chamado desporto-rei, continua vivíssimo.
Mas não desesperemos. Os últimos anos mostraram como é possível transformar o urro em celebração, a promessa de violência em aplauso, a alegria e a tristeza passageiras, sempre passageiras, em bonomia e palavras contidas e sábias, sobretudo porque serenas e capazes de dar ao futebol o que é do jogo, sem transformar o espectáculo em tragédia e as ruas em campo de batalha. E isso fê-lo com uma enorme sabedoria e talento o hoje treinador do Manchester. Com o apoio de uma direcção capaz, Ruben Amorim contribuiu muito mais para pacificar a sociedade portuguesa – tão fustigada por homens-bomba que explodem em todos os lugares por dá-cá-aquela-palha – do que toda uma classe de educadores sociais recrutados entre as mais diversas profissões, sempre dispostos a explicar mas incapazes de conter ou simplesmente enfrentar abertamente as incivilidades, a delinquência e o crime que se disfarçam de amor à camisola.
De um que ama o rugby sem alarde para outro que conhece o futebol e os homens como poucos, muitas felicidades, caro Amorim!
[1] O livro foi editado pela Dalloz, casa especializada em livros jurídicos, em formato de bolso, por ocasião do campeonato do mundo de 2007, realizado em França.
João Santos é professor









