
Foto (conta de Twitter @vamelina): Victoria Amelina na biblioteca de Kherson com as janelas partidas devido aos bombardeamentos no inverno.
O título do livro, não editado em Portugal, é Invasion: Ukrainian Poems about the War. Um dos poemas ucranianos sobre a guerra incluído nessa antologia publicada no ano passado tem sido amplamente referido em publicações internacionais nos primeiros dias de Julho. Intitula-se “Sirenes” e tem seis versos. O primeiro situa o título, indicando que, em todo o país, se escutam sirenes de ataque aéreo. Os versos seguintes referem que todos parecem ser arrastados para uma execução e, todavia, acrescenta-se, apenas uma pessoa é alvejada. O último verso diz: “Desta vez não tu; tudo desimpedido”. A autora do texto é Victoria Amelina e, desta vez, a pessoa assassinada foi ela.
As tropas russas bombardearam Kramatorsk no dia 27 de Junho. Um míssil atingiu a pizzaria onde a escritora estava a jantar. Victoria Amelina não resistiu aos ferimentos provocados pelo ataque. Morreu no dia 1 de Julho. Tinha 37 anos.
Múltiplos testemunhos têm dado conta da excepcionalidade da autora. Olga Amarís, a sua tradutora para espanhol, referiu ao jornal digital El Diario que era excepcional a escritora ter decidido, “muito conscientemente, permanecer num país em guerra para resgatar testemunhos de vozes que, sem a sua, estariam perdidas para sempre”. Victoria Amelina “era uma mulher luminosa em tempos de escuridão”, assinalou ainda a tradutora. “Diante da adversidade, não fugiu da circunstância, mas nela mergulhou por inteiro, entendendo que vida sem liberdade não é vida. E que a liberdade do indivíduo não se compreende sem a liberdade da comunidade em que vive”.
Agora, com a morte de Victoria Amelina, “morreram todos os livros que estavam chamados a ser escritos”. Victoria Amelina e os livros foram as vítimas dos crimes contra civis e da destruição do legado cultural perpetrado pelas tropas russas que minuciosamente repertoriava para que não caíssem no esquecimento, constata a tradutora, assinalando que “é nossa obrigação, como cidadãos desta parte do mundo que se considera em paz, recordar este assassinato, este atentado brutal contra a humanidade e contra a cultura, para que não caia no silêncio”.
Victoria Amelina temia que a guerra acabasse por suscitar indiferença, que as pessoas se cansassem e se acostumassem à vasta tragédia que tem lugar na Ucrânia. Impedir o esquecimento, eis o que mobilizou a sua energia. Foi ela que descobriu e promoveu a publicação dos diários que o poeta Volodimir Vakulenko (1972-2022) conseguiu esconder antes de as tropas russas o torturarem, assassinarem e enterrarem numa vala comum.
Um dia antes de morrer – e a escritora morreu no dia do aniversário de Volodimir Vakulenko – Victoria Amelina tinha levado o escritor colombiano Héctor Abad Faciolince a visitar a casa do poeta assassinado. “A companhia da Victoria Amelina foi fundamental para conhecer os horrores da guerra e as atrocidades cometidas pelo Exército russo, tanto nas primeiras semanas da invasão como no ano transcorrido desde então”, testemunhou Héctor Abad Faciolince. Num inesquecível texto publicado na imprensa internacional [1] e, entre nós, no Público de quarta-feira, o escritor recorda os dias que passou na Ucrânia com outros compatriotas. O primeiro parágrafo do testemunho é particularmente impressionante e nele se menciona um míssil balístico Iskander. Dizendo nada saber de armas – e confessando: “Poderia dizer que sou o cúmulo do pacifista: um cobarde” – explica que, se o refere, tal se deve a uma razão trágica: “Foi um Iskander russo o míssil que matou à minha frente a escritora Victoria Amelina”. Por isso se sentiu na obrigação de averiguar algo mais: “Este brinquedo russo, para começar, custa uns três milhões de dólares, pesa quatro toneladas e meia, pode ser lançado a 500 quilómetros de distância, viaja a velocidades supersónicas (mais de dois mil metros por segundo), e é tal a sua precisão que a sua margem de erro em relação ao alvo não supera os cinco metros, em média”. Foi “esta arma de extrema precisão” que rebentou a uns dez metros dos comensais.
Depois de desmentir as sucessivas versões oficiais russas que, primeiro, negaram a autoria do ataque à pizzaria e, depois, o justificaram de diversos modos, Héctor Abad Faciolince interroga-se sobre as verdadeiras razões do bombardeamento. “Por quê tanta sevícia, tanta despesa e tanta pontaria para atacar um simples restaurante?” O escritor responde recordando o que noutra ocasião Victoria Amelina lhe tinha dito: “Como escarmento e castigo para uma população que não quer ser russa nem recebeu os russos de braços abertos”.
Héctor Abad Faciolince escreveu que há um crime de guerra que Victoria Amelina já não vai poder documentar: “o que cometeram com ela”. O escritor colombiano incumbiu-se de o testemunhar.
“Victoria Amelina, um refúgio no céu”. El País, 4 Julho de 2023.









