Tudo começou com uma inspiração, despertada pelo Papa Francisco, naquele dia 26 de dezembro de 2024, quando abriu uma Porta Santa na prisão de Rebibbia, em Roma. Desse gesto e dessa porta nasceu um projeto para a criação de outras dez portas – em oito estabelecimentos prisionais italianos e em dois portugueses – num trabalho que unirá reclusos e artistas de diferentes áreas. Intitulado “As Portas da Esperança”, o projeto foi apresentado esta quarta-feira, 8 de outubro, pelo cardeal Tolentino Mendonça, e quer chegar ao mundo inteiro.
Recordando que a “abertura de portas” na Igreja era uma prioridade para o Papa Francisco e assinalando que continua a sê-lo para Leão XIV, o cardeal português e prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação explicou que este é um projeto que se insere na “pedagogia da esperança”. “Queremos contribuir para despertar de forma positiva a consciência da nossa responsabilidade comum como guardiões da esperança”, disse ele aos jornalistas, numa conferência de imprensa transmitida online a partir do Vaticano. O objetivo da iniciativa, explicou, é “fazer da esperança não apenas um ideal abstrato mas traduzi-la num caminho pedagógico acessível”.
Caminho esse que passará pela criação de dez obras que representem portas, projetadas por artistas de renome em parceria com reclusos, e que serão instaladas junto aos estabelecimentos prisionais. As obras não ficarão, assim, confinadas às instituições, mas estarão localizadas do lado de fora, visíveis e acessíveis ao público, para que se tornem “verdadeiros limiares entre o passado e o êxodo, entre o erro e a mudança, entre o isolamento e o regresso à comunidade”, acrescentou o presidente do Departamento de Administração Penitenciária de Itália, Stefano de Michele.
Até porque as portas são “abertas em ambas as direções”, assinalou por seu lado o padre Davide Milani, secretário-geral da Fundação Pontifícia Gravissimum Educationis (que pertence ao Dicastério para a Cultura). Elas “permitem a passagem da beleza da comunidade prisional para a sociedade e vice-versa”.
A Ministra da Justiça de Portugal, Rita Júdice, juntou-se à conferência remotamente para anunciar quais os dois estabelecimentos prisionais nacionais onde estão já a decorrer residências artísticas para a criação de “portas da esperança”: o Estabelecimento Prisional de Leiria, onde o moçambicano Ilídio Candja e um grupo de jovens reclusos estão a criar uma obra permanente para ficar no exterior da prisão e ainda um segundo projeto que será oferecido a uma instituição universitária; e o Estabelecimento Prisional de Tires, em que a portuguesa Fernanda Fragateiro está a desenvolver, juntamente com as reclusas mães, uma intervenção artística destinada a humanizar e enriquecer o espaço onde vivem com os seus filhos até aos três anos.
Rita Júdice anunciou ainda que os primeiros resultados destas iniciativas nacionais serão apresentados já no próximo dia 28 de novembro, data aguardada “com muita expectativa”.
Em Itália, participarão no projeto as prisões de Veneza, Milão, Roma, Nápoles, Lecce, Reggio Calabria, Palermo e Brescia. Duas das instalações — as de Milão e Lecce — serão concluídas até dezembro, a tempo do encerramento do Ano Jubilar.
Uma regra unirá todas as obras, acrescentou ainda o curador do projeto, Davide Rampello : o uso dos três materiais que evocam a Cruz de Cristo — madeira, metal e pedra — isoladamente ou em combinação, para evocar Jesus como sendo, ele próprio, “a porta”.
Tolentino Mendonça frisou, no entanto, que este é um projeto que “quer tocar o coração e a consciência” não apenas de católicos, mas de todos, em particular “das pessoas que estão fora das prisões, da sociedade civil”, e manifestou a intenção de estendê-lo ao maior número de países possível, numa colaboração entre a Igreja, as autoridades penitenciárias e os meios de comunicação, de modo a transformá-lo num espaço de debate civil e cultural.
Com esse objetivo, estão também já a ser preparados um filme e um livro que contarão a história das residências artísticas, acompanhando desde as discussões de ideias até aos avanços e recuos nos estaleiros das obras.
Até porque a medida do sucesso desta iniciativa não será apenas a inauguração das portas, à medida que estas forem sendo concluídas. Será, como disse o cardeal Tolentino, a decisão que cada vez mais pessoas forem tomando de se tornarem “guardiãs da esperança”. Porque… de que vale abrir uma porta, se não houver ninguém à espera do outro lado?







