Elogio do objector e do refractário, a leste como a oeste

| 30 Set 2022

manifestacao pela paz na ucrania, foto amnistia internacional portugal

“Durante a Quaresma de 1963, Lanza del Vasto quis levar ao conhecimento do Concílio Vaticano II esta ameaça da “Guerra Total”, pedindo que ela fosse meditada à luz da mensagem evangélica e, sobretudo, pedindo a resposta dos cristãos. Fez, para isso, um jejum de quarenta dias. Hoje, a não-violência pede a milhões, a leste e a oeste, cristãos ou não, o mesmo sentido agudo do essencial.” Foto: Pela paz na Ucrânia. © Amnistia Internacional Portugal

 

Escrevo dias depois do alargamento à Rússia da mobilização militar da população civil, que se junta àquela que já vigorava na Ucrânia. Como a Ucrânia é um país ameaçado e invadido e a Rússia mantinha até aqui, a todo o custo, a ilusão de uma “vida normal”, não tínhamos ainda uma perspectiva clara da mobilização total que se aproxima do nosso continente, senão do mundo. Quanto tempo decorrerá até que os nossos países, embora com discursos diversos, se juntem à febre mobilizadora? Vejamos a cronologia: há trinta ou quarenta anos, quase todos os exércitos, a Leste e a Oeste, praticavam a conscrição numa base regular e os efectivos militares eram muito mais numerosos, mesmo na URSS/Rússia. Veio depois um período em que os exércitos se profissionalizaram, ao mesmo tempo que a cultura da paz e da não-violência pareciam entrar por todo o lado numa longa hibernação. Sim, essa desmobilização foi também, paradoxalmente, a desmobilização do campo da resistência à guerra. Agora, as perspectivas são, no imediato, explosivas na Rússia e, a curto ou médio prazo, noutras regiões e países.

O regime personalizado na figura de Putin tinha feito um “contrato” com a população, que aceitou “despolitizar-se”, aceitou fechar os olhos à deriva imperialista, à corrupção e à criação de uma pirâmide de privilégios, em troca de alguma descompressão na sua vida quotidiana (o que tem a sua história longa na Rússia) e, sobretudo, em troca de um descomprometimento moral e físico em assuntos “do poder”, em que se destaca a guerra. O povo russo tornou-se, como desejava o poder, um povo apolítico. Era isso que ainda o distinguia de um regime fascista, que exige sempre a adesão em massa. Mas a mobilização que agora se inicia é o sinal de que a arquitectura da dominação montada pelo poder se tornou inoperante no contexto da guerra. Esta mobilização maciça não é, a meu ver, uma repetição das mobilizações de 1914 e 1940, ou sequer uma resposta às derivas da frente de guerra, mas a necessária passagem da desmobilização à mobilização da população. Isso quer dizer que o poder não quer fazer sozinho a escalada da guerra, antes quer implicar os russos na escalada progressiva em direcção à guerra total, tentando criar um viveiro onde todos, forçados ou voluntários, apoiam a guerra e se apoiam na guerra. Embora o militarismo estivesse bem presente na sociedade russa, esta não é ainda uma sociedade militarizada: trata-se agora de acelerar esse processo, envolvendo os corpos e os espíritos na mobilização (de centenas de milhar, de milhões?); trata-se de reorientar a economia e a indústria para a guerra; trata-se de preparar a sociedade para a ilimitação da agressão.

Sabemos que as mobilizações gerais são indicadoras de outras mobilizações imediatas ou a prazo. Mobilização dos opositores, mobilização dos outros sectores da vida económica e social, das consciências, etc. Em pouco mais de meio ano, o maior país do mundo transformou um assunto regional num jogo de vida ou morte do regime. A desinibição nuclear adquiriu facetas e expressões que eram impensáveis ainda há pouco: muitos esquecem que a Rússia tem sido, à sua escala, um exportador de guerras quase comparável aos EUA. Tudo isso era o negócio dos profissionais e das elites, apoiado na exploração das minorias nacionais e étnicas. Agora, de um dia para o outro, tornou-se o “negócio” do cidadão comum. O contrato tácito, embora usando os véus da propaganda, foi rompido. O trabalho da legitimação da guerra necessita agora de ir muito mais longe.

Mas a população russa, pelo menos uma parte desta, parece despertar a pretexto desta “mobilização”. É o tempo para apoiar da forma mais veemente possível estes refractários que saem do país, aqueles que aí permanecem, assim como os muitos que poderão vir a desertar das fileiras. Se esta é a maior mobilização desde a Segunda Guerra Mundial, é também a mais generalizada desobediência a ela desde que, durante a Guerra do Vietname, os inúmeros refractários puderam pesar na retirada norte-americana! E o que faz a Europa? Fecha-se na condenação ou no desprezo daqueles que fogem à mobilização, recusa dar-lhes asilo político (porque é disso que se trata), alimenta os seus próprios nacionalismos e, ainda timidamente, vai preparando as suas próprias mobilizações parciais ou gerais. É urgente apoiar os objectores de consciência, os refractários e os desertores de todas as nacionalidades da Rússia, típica mobilização oitocentista, que escolhe primeiro os que estão longe dos centros urbanos e vai apertando os círculos. Mas também é urgente começarmos a discutir quais serão os próximos passos dos objectores “ocidentais”, dos que aqui serão chamados, daqueles que pensam que é possível fazer outra coisa, mesmo se os nossos exércitos dizem ter a justiça do seu lado.

Esta é a guerra que encerra o ciclo das guerras “profissionais”. Os custos da guerra e o seu preço de sangue estão novamente a ser cobrados aos povos. Não nos iludamos com os discursos high-tech, venham eles da boca de Putin ou da dos porta-vozes do Pentágono: os dispositivos guerreiros são feitos para destruir pessoas reais em cada vez maior número. O desprezo pela vida humana no exército russo é real e abjecto. Mas os exércitos ocidentais não poderão projectar indefinidamente uma imagem virtual do seu próprio belicismo.

No actual estado das coisas, perguntar-nos-emos qual será o aspecto de uma mobilização geral a oeste da Ucrânia. Alguns dirão, de imediato, que o Ocidente não precisa (ou não quer) mobilizar-se. Responderei que a resposta está pendente de sabermos se nos encontramos no caminho que leva à Guerra Total, já que ela, necessariamente, convoca a Mobilização Total. Como numa estrada que se vai estreitando até que já não há maneira de dar meia volta, os não-beligerantes podem passar, sem disso se aperceber, o ponto do percurso em que se tornaram beligerantes. Esquecem que as guerras geram dinâmicas que progressivamente deixam de ser controláveis. Nesta situação, e sabendo que não há paz sem justiça, perguntamo-nos o que fazer. A resposta essencial não vem dos Estados, mas das pessoas: cada um deve examinar a situação geral e deve consultar a sua consciência. Os russos – relutantes ou tomados de surpresa, pouco importa – foram agora convocados no seu foro íntimo. Observemo-los sem sobranceria: o seu despertar abrupto pode, em pouco tempo, vir a ser também o nosso. Preparemos desde já o nosso próprio despertar. Este não é o tempo dos cálculos estratégicos. É o tempo de exigir a abolição de todas as armas nucleares.

Durante a Quaresma de 1963, Lanza del Vasto quis levar ao conhecimento do Concílio Vaticano II esta ameaça da “Guerra Total”, pedindo que ela fosse meditada à luz da mensagem evangélica e, sobretudo, pedindo a resposta dos cristãos. Fez, para isso, um jejum de quarenta dias. Hoje, a não-violência pede a milhões, a leste e a oeste, cristãos ou não, o mesmo sentido agudo do essencial.

 

Jorge Leandro Rosa é ensaísta e tradutor, tendo sido professor universitário durante vinte anos. Interessa-se, desde muito jovem, pela prática e a teoria da não-violência. Escreve regularmente sobre a Mudança Climática e o Antropoceno.

 

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