1.
A propósito do “Grupo de Estudo da Ordenação de Mulheres ao Diaconado”, da Igreja Católica Romana, tem sido dito que na Comunhão Anglicana existem numerosos clérigos que decidiram ingressar na Igreja Católica, motivados por essa ordenação e apontando mesmo o grupo Gafcon (Global Anglican Future Conference) como um dos que, por causa de tal questão (ordenação de mulheres), decidiu constituir-se em grupo anglicano fora da Comunhão Anglicana. Por não ser assim, repomos: primeiro, o Gafcon reúne anglicanos de várias partes do mundo e, em muitos dos seus membros, há abertura para a ordenação de mulheres ao diaconado e ao presbiterado.
A prática, no entanto, varia consoante a província anglicana: algumas permitem e ordenam mulheres presbíteras, mas não bispas, enquanto outras mantêm apenas homens nesta função. Assim, não existe uma posição única obrigatória para todos os membros do Gafcon, mas a causa pela constituição do Gafcon é outra: o posicionamento favorável, de Igrejas da Comunhão Anglicana, à ordenação e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ou seja, embora exista uma pluralidade na Comunhão Anglicana no respeitante a muitos assuntos, alguns anglicanos decidiram não compactuar com o casamento de homossexuais ou a sua ordenação. Em Portugal, a Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), no seu último Sínodo e no tocante à ordenação de mulheres, assumiu não ter nada a opor à ordenação de bispas, dado que anteriormente só mencionava diaconisas e presbíteras. Que se conheça, existiu um presbítero casado – já falecido – que integrou a Igreja Católica, permanecendo presbítero (reverendo Saúl de Sousa), tendo sido, assim, o primeiro pároco casado da Igreja Católica em Portugal. Existiu sim, um presbítero – o reverendo Arnaldo Sousa Agostinho –, que discordando da ordenação de mulheres, deixou a Igreja Lusitana, e foi reordenado na Igreja Católica Romana. Não há mais quaisquer discordâncias. Esta introdução é para que exista um diálogo consistente e baseado em verdade.
2.
O senhor bispo do Porto, D. Manuel Linda, achou por bem – e ainda bem! –, convocar um Sínodo Diocesano, em que todas as questões deverão ser debatidas, refletidas, escutadas e abertas aos tempos de hoje, onde o Espírito do Senhor sempre sopra e, principalmente, no Povo de Deus e naquele que crê não ser de Deus. Convocou-o ouvindo as estruturas de corresponsabilidade, ou seja, as comissões pastorais das paróquias – embora, nem todas as tenham –, as comissões fabriqueiras, as vigararias, outras comissões que trabalham junto ao bispo, a Comissão Pastoral Diocesana e outras que são tantas, que não vou numerar.
A questão mais pertinente é como vai este Sínodo ser composto; sabemos que será, como os especialistas dizem, “em estilo sinodal”, ou seja, por reflexão de grupos; mas não quem vai ser convocado: se são “os do costume” ou se será alargado em atitudes “mais críticas” – mas construtivas –, de tantos e tantas que perderam já a fé na transformação da Igreja Católica, mas não a perderam em Jesus Ressuscitado.
O primeiro documento elaborado pela Comissão Sinodal do Porto, sob a presidência do cónego Joaquim Santos, seria um bom princípio, dado abarcar um sem número de questões que até foram esquecidas. As perguntas que se podem fazer é como vai funcionar, quem são os participantes, vai ou não escutar-se o Povo de Deus das paróquias e os seus movimentos, há ou não abertura para a participação no Sínodo daqueles que não se revêm na Igreja, são ou não convidadas a participar outras religiões cristãs ou não-cristãs? E ateus e agnósticos, serão convidados? Quem é a comissão organizadora do Sínodo? Vão ou não ser refletidas as questões “fraturantes”? Estas e outras perguntas poderão ser dinamizadoras do Sínodo, se for tida em consideração a vontade genuína do Povo de Deus, onde o Espírito nunca falha.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.
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