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[À Margem]

Estaremos condenados a não aprender?

| 05/02/2026

Sempre que nos acontece algo trágico ganham visibilidade as nossas fragilidades enquanto país e salta à vista a impreparação, falta de competência e até falta de empatia e bom senso de quem era suposto não ostentar tais lacunas. Se já é problemático o reconhecimento de tais fragilidades, ostentá-las é uma agressão ao sofrimento das vítimas da tragédia. Mas também nós, os cidadãos comuns, nos sentimos um pouco às aranhas perante tais acontecimentos. Somos realmente o país não do fado, mas malfadado! Salva-nos a solidariedade.

Tempestade Kristin

“Sempre que nos acontece algo trágico ganham visibilidade as nossas fragilidades enquanto país e salta à vista a impreparação, falta de competência e até falta de empatia e bom senso de quem era suposto não ostentar tais lacunas.” Foto: Efeitos da tempestade “Kristin”. © site MeteoRed Portugal

Atentemos, em primeiro lugar, nas fragilidades do coletivo enquanto país. Ficou visível a falta de planeamento, a descoordenação entre entidades, as debilidades de infraestruturas cruciais (água, eletricidade, comunicações) e a ausência de resposta a algo que, por mais imprevisível, já era esperado. A dificuldade em perceber a gravidade da situação (em 68 concelhos dos 278 do continente foi decretado, pelo menos até dia 8 de fevereiro, o estado de calamidade, o que corresponde a cerca de 25% do território continental), retardou as respostas do poder central. A situação é também resultado da estratégia ao longo dos anos dos defensores de “menos Estado” que assim conseguiram ir esvaziando a Administração central de competências tão necessárias em situações de crise. Sobretudo para aconselharem quem tem de tomar decisões.

O caso do elevador da Glória, em Lisboa, ilustra bem o que acabo de escrever. Mas é também resultado de uma prática instalada de aversão ao planeamento. Aliás, a sua falta resulta, em parte, da primeira fragilidade assinalada. Quando não há planeamento, improvisa-se, o que habitualmente dá mau resultado. A ausência de resposta imediata resulta desse improviso ou, melhor dizendo, da inexistência de um plano testado para este tipo de situações. Tendo em conta as supostas aprendizagens com o apagão não se percebe, por exemplo, a ausência de um plano de comunicação, desde as primeiras horas, através da rádio e das entidades de proximidade como sejam juntas de freguesia e forças de segurança locais. Nesta situação seria tão mais importante, uma vez que houve pessoas completamente isoladas e sós, abandonadas à sua sorte.

Ricardo Trigo, professor de Climatologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e especialista em fenómenos extremos climáticos, disse ao Azul do jornal Público ‘(…) falhou a comunicação, falhou a preparação e falharam infraestruturas que “não podem falhar”. “Os bombeiros ficarem sem telhado é ridículo. O SIRESP [Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal] falhar é ridículo’

Há um longo caminho a percorrer sobretudo quando se sabe (ou teimam em negar?) que estes fenómenos extremos, tal como as ondas de calor, serão cada vez mais frequentes e mais violentos. Aliás, os especialistas alertam para o facto de, já nesta próxima década, sermos expostos a fenómenos de calor extremo. As alterações climáticas estão aí e de nada adianta negá-las ou fingir que os alertas são um exagero, porque quando chegar o momento, e ele está próximo, a natureza será indiferente às nossas questiúnculas, indecisões ou impreparação. Por exemplo, na nossa costa “Algumas praias no litoral Centro e Norte recuaram 30 metros em dois anos”.  O que deveria ser um desígnio nacional (ou global) que a todos devia mobilizar, é visto por alguns como uma questão ideológica. Veja-se a propósito a proposta da Iniciativa Liberal para alterar a Lei de Bases do Clima e em que se propõe eliminar o reconhecimento legal da emergência climática e retirar da lei muitas das proibições. A urgência obriga-nos a arrepiar caminho e a construir alguns compromissos que nos salvem do horror.

Esta tempestade também nos mostrou como políticos e decisores com responsabilidade ignoram princípios éticos básicos e, em nome de interesses pessoais ou partidários ou ainda por falhos em princípios, estão dispostos a ultrapassar a linha vermelha do aceitável e da decência. Fiquei chocado, incomodado e até envergonhado com a falta de sensibilidade de alguns membros do governo, começando pelo Primeiro-Ministro. Como pode alguém nesse cargo dizer uma frase como: “Aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”, parecendo responsabilizar os próprios por tamanho infortúnio. E não foi de improviso, pois o texto estava escrito e foi lido. Não foi infeliz como alguns referiram, mas revelador de uma enorme insensibilidade ao sofrimento alheio.

O já conhecido rei da mentira e das encenações, André Ventura, deslocou-se ao terreno com toda a sua parafernália propagandística para depois colocar nas redes, levando umas garrafitas de água e uma lata não sei de quê para ajudar as populações dizendo para as câmaras televisivas “que se lixem as eleições, agora é preciso ajudar”. Vindo desta personagem farto em crueldade, mas sem um pingo de humanidade já nada nos surpreende. O que nos surpreende e nos devia envergonhar é que membros do governo utilizem as mesmas técnicas e estratégias.

O vídeo divulgado nas primeiras horas pelo ministro da Presidência Leitão Amaro, fingindo um trabalho árduo, é exemplo de como há políticos para quem o sofrimento dos outros serve de instrumento à autopromoção. Outro exemplo, ainda mais ridículo, mesmo patético, foi a encenação criada pelo ministro da defesa sobre a presença de tropas no terreno. Estes exemplos ilustram a forma como os decisores olham para o povo que os elegeu e por quem não nutrem grande respeito, nomeadamente em situações de enorme fragilidade e sofrimento.

O responsável da OMS, Mike Ryan, lembrou qu o vírus da poliomielite reapareceu na Palestina ao fim de 25 anos, pedindo que a segurança dos que vão administrar as vacinas seja garantida. Foto © UNRWA.

“A situação é agravada pela proibição da parte de Israel da presença de organizações humanitárias no terreno, sendo as crianças e os idosos as principais vítimas.” Foto © UNRWA.

PS
Não fora a tragédia em Portugal provocada pela tempestade “Kristin”, este texto seria sobre a Cisjordânia, onde diariamente gente pacífica continua a ser atacada por bandidos, já que não existe nome mais apropriado para classificar os membros das milícias de colonos israelitas, com a complacência do exército e apoio do governo. Segundo as Nações Unidas, desde 2023, 1.030 mortes foram confirmadas na Cisjordânia, incluindo 223 crianças. Sejamos claros: sem a Cisjordânia não haverá uma Palestina livre. Em Gaza, o genocídio continua encoberto por uma falsa ideia de cessar-fogo. De acordo com as Forças de Defesa de Israel (IDF) mais de 70 mil palestinianos (71.667segundo o Hamas) morreram ao longo da guerra de Israel e Gaza, entre outubro de 2023 e outubro de 2025. Desde a entrada em vigor do cessar-fogo em outubro do ano passado, 360 (450 segundo o Hamas) palestinianos foram mortos (incluindo sete mulheres e 13 crianças) e 922 ficaram feridos. Aos ataques diários de Israel soma-se uma enorme crise sanitária, nomeadamente a falta de medicamentos essenciais, tratamento de doentes, falta de água potável e de campos sem as condições mínimas de salubridade. A situação é agravada pela proibição da parte de Israel da presença de organizações humanitárias no terreno (ver 7MARGENS), sendo as crianças e os idosos as principais vítimas. E o mundo, nomeadamente a Europa, continua em silêncio e assiste indiferente ao horror e à desumanidade.

 

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