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Falar da guerra às crianças

| 03/03/2022

Em 25 de fevereiro de 2022, destroços de um rocket russo junto a um parque infantil, quando decorriam ataques militares a Kiev, na Ucrânia. Foto © UNICEF/Andrii Marienko/UNIAN

Em 25 de fevereiro de 2022, destroços de um rocket russo junto a um parque infantil, quando decorriam ataques militares a Kiev, na Ucrânia. Foto © UNICEF/Andrii Marienko/UNIAN

 

Nos tempos que correm e ainda não refeitos das sequelas da pandemia de covid-19, estamos perante uma situação que muitos julgávamos improvável ou mesmo impossível. A guerra começou porque sim.

Porque alguém decidiu; porque o homem é “assim”; porque há vidas que, para alguns, não valem nada; porque…

Muitas angústias, muitas dúvidas, muitas incertezas. O mundo está em suspenso, a Europa está ameaçada, o povo ucraniano está em profunda aflição e tremendo desespero. Não há outras notícias de relevo que não sejam estas, comoventes e constrangedoras. Agora, mais do que nunca, não há distantes nem longínquos. Estamos próximos de todos pela solidariedade, pela iniciativa, pela força do amor que espera vencer o medo, pela força da paz que espera derrubar a guerra. 

Muito se foi falando da saúde mental das crianças e jovens durante a pandemia. Agora, em tempo de guerra, não se sabe como falar com elas, sobretudo com as mais pequenas. Não se sabe o que dizer, como dizer, quando dizer.

Sem querer encontrar receitas e muito menos propô-las, até porque não as há, atrevo-me a lançar algumas reflexões. É muito importante falar com os mais novos sobre o que está a acontecer. Nada lhes passa despercebido, tal é a forma como os meios de comunicação vão cobrindo os acontecimentos e como as nossas conversas vão invadindo os momentos que passamos juntos. 

Antes de mais, temos de saber quem são essas crianças. Podem ser filhos, netos ou sobrinhos de ucranianos. Podem ser emigrantes desse país. Podem ser portugueses e ter amigos ucranianos na escola ou no desporto. Podem ser filhos de militares, de diplomatas deslocados. Podem ser os nossos filhos, netos, sobrinhos e não ter qualquer ligação com o povo desse país que sofre. Podem ainda ser de tenra idade. Podem ser um pouco mais crescidos ou mesmo adolescentes. A verdade é que todos precisam de encontrar em casa e na escola o conforto, a clarificação e a proteção, como fonte de segurança e de tranquilidade.

Se com os adolescentes que se calam, podemos e devemos “puxar” o tema e trazê-lo à conversa, falando com serenidade e clareza sobre o momento atual, o mundo em que vivemos, a confiança no futuro, a pedagogia da esperança e da boa compreensão, com os mais pequenos a conduta deve ser bem diferente.

Antes de tudo, há que perceber se as crianças estão a par do sofrimento e da violência que nos é transmitida. Uma boa forma de o fazer, caso não tenham falado, é tentar ver se elas mudaram algo na sua habitual maneira de estar e se estão mais caladas ou, aparentemente, mais tristes e mais sozinhas. Perante sinais desta ordem, há que lhes dedicar tempo e presença, a fim de dar espaço para que se sintam tranquilas e possam fazer as perguntas que as inquietam e que, porventura, talvez por medo, têm calado.

Estabelecido o lugar do diálogo, não basta clarificar as suas dúvidas. É fundamental tentar, antes disso, entender o que elas achavam que sabiam, o que já tinham conversado com os seus amiguinhos, o que estes lhes tinham já dito, o que tinham imaginado juntos. Depois, vem a tarefa de as esclarecer, dentro dos conhecimentos de cada um, sem falar demais, e a humildade de não inventar, que é como quem diz, de não mentir, quando não se tem uma resposta concreta. Nenhum pai ou professor é visto como menor por afirmar que vai tentar informar-se e que, quando souber, logo diz. Pelo contrário, assim, sempre será securizante e credível.

As conversas têm de ser feitas em momento adequado e sem interferências. As notícias precisam de ser filtradas e a televisão tem de estar desligada em tempo de falar de temas sérios. Há que encontrar, por outro lado,  programas interessantes ou lúdicos que exponham as crianças a jogos e a conhecimentos motivadores e estimulantes que nada tenham a ver com a guerra. Se, enquanto adultos, estamos tristes, preocupados sem conseguir encobrir e com as emoções à flor da pele, não é a circunstância certa para falar destes temas. Os mais pequenos podem não saber pôr por palavras o que observam de nós, mas são especialmente permeáveis às emoções que, em nós, encontram.  

Não mentir nem fazer promessas vãs é válido para tudo no processo educativo. Nós, adultos, também estamos inseguros. Por isso, se queremos ajudar os mais novos, temos de estar muito bem informados. Saber e conseguir explicar que a guerra não veio do nada, mas que os adultos, por vezes têm cabeças complicadas e se desentendem; saber dizer o que é isso de ter poder e de mandar nos outros por algum tempo; clarificar que a guerra está longe, mas não deixar de mostrar que há pessoas a sofrer e, por isso, aproveitar para alertar para a compaixão e para a solidariedade, se possível, com ações concretas, como reunir roupas ou brinquedos para dar aos meninos que agora não os têm e que no futuro, se todos ajudarmos, vão voltar a ter.

Enfim, precisamos de ser convictos para lhes mostrar que há muitas pessoas no mundo que querem a paz e que tudo farão para a reconquistar, fazendo do planeta um bom lugar para existir. 

Os mais pequenos precisam, enfim, de ver em nós pessoas ponderadas e discretas, mas eficazes, apesar de serenas nas iniciativas. 

Saibamos apoiar, partilhar e agir de forma coordenada e solidária com as estruturas que estão já organizadas e que, no terreno próximo ou distante, chegam onde é fundamental levar o apoio e a confiança em algo melhor para um amanhã que se quer verdadeiramente próximo.         

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

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