O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de Janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de Outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano e ao dia 3 ou 4 de cada mês, uma série de 10 textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Tendo em conta o Jubileu, na Via-Sacra com o Papa nesta Sexta-Feira, em Roma, foram lidos vários escritos de Francisco de Assis.
A hagiografia mais antiga já apresenta Francisco de Assis como “um homem do século vindouro” (1Cel. 82; Leg. Maior 12,8). Oito séculos decorridos, o bispo de Roma, seu homónimo, apresenta, na encíclica Laudato Si’ (LS), de forma explícita, o Santo de Assis como “modelo belo e motivador” para uma ecologia integral, a começar pelo “gracioso cântico que nos recorda que a nossa casa comum pode comparar-se a uma irmã, com quem partilhamos a existência” e “com uma boa mãe” (LS 1), citando, logo a abrir a encíclica, a nona estrofe do Cântico das Criaturas (CC). Desde o próprio título desta revolucionária encíclica, Laudato si´, retirado do Cântico das Criaturas, o Santo de Assis aparece como “patrono” e modelo apreciado também pelos não cristãos: “Creio que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (LS 10).
Lembramos que já na exortação apostólica Evangelium Gaudium, o Papa assumira que, “como São Francisco de Assis, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos” (216). No número 87 da Laudato Si’ é transcrito quase na íntegra (estrofes 1-8) o texto do “gracioso cântico de S. Francisco de Assis” que inspira todo o documento papal.
Esta presença progressiva de Francisco de Assis no magistério papal recente, especialmente incrementada desde o Papa João XXIII, ganhou nova dimensão com o Papa João Paulo II que proclamou o Poverello patrono dos ecologistas (Carta apostólica Inter santos, 29 de novembro de 1979). O anterior bispo de Roma, que quis chamar-se também Francesco, trouxe, porém, uma nova orientação “franciscana” no magistério da Igreja. Basta ler as primeiras páginas da Fratelli Tutti (1-3) e outras intervenções do Papa Francisco para percebermos que esta nova orientação está longe de se restringir às questões ecológicas.
Assim, depois de um longo período em que o racionalismo teológico de S. Agostinho e S. Tomás deixou na sombra a intuição franciscana, devemos ao Papa jesuíta o mérito de reintroduzir a mundivisão franciscana no estilo e na forma mentis da Igreja. Mais do que de uma “novidade”, estamos, contudo, perante uma redescoberta, conforme nos propomos mostrar nos artigos que se seguirão a este.
Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. O próximo texto será publicado dia 3 de maio.










