O conhecido teólogo da “Teologia da Libertação”, Leonardo Boff, considerou que Francisco “não é um nome, mas um projeto de Igreja”, Igreja cristã profundamente ligada a Jesus Cristo, mas que recebeu o alento de todo o ser de Francisco, que gostava de ser tratado por “bispo de Roma”, num ineditismo que coloca em causa a “infabilidade papal” – nunca usada por ele, diga-se -, colocando-o ao serviço do povo de Deus e de todos e todas os caminhantes deste Universo. Recorda Boff, que aliás foi um dos contactados por Francisco para o texto da encíclica Laudato Si, que “Surpreendentemente apresenta-se, primeiro como bispo local, de Roma. Depois como Papa para animar a Igreja universal e, como enfatizou, não com o direito canónico, mas com o amor.” e que “escolheu o nome Francisco porque São Francisco de Assis é o “exemplo por excelência do cuidado e por uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade (Laudato Sì,n.10) ele chamava todos os seres com o doce nome de irmão e de irmã. Não quis morar num palácio pontifício, mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Comia na fila como todos os demais e, com humor comentava: assim é mais difícil que me envenenem.”

Foto: Bruno Alencastro. Aula pública em defesa da democracia com Leonardo Boff, Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul / Wikimedia Commons
Lembra que: “Pela primeira vez na história do papado, o Papa Francisco recebeu, por várias vezes, os movimentos sociais mundiais. Via neles a esperança de um futuro para a Terra, porque a tratam com cuidado, cultivam a agroecologia, vivem uma democracia participativa. Repetiu-lhes muitas vezes o direito que lhes é negado, os famosos três Ts: Terra, Teto e Trabalho. Devem começar de lá onde estão: na região, pois aí se pode construir uma comunidade sustentável. Com isso legitimou todo um movimento mundial, o bio regionalismo, como forma de superação da exploração e da acumulação de poucos e com mais participação e justiça social para muitos.”
Os “migrantes e o cuidado dos pobres” é centralizado como a sua missão mais importante, não esquecendo o que disse: “vocês europeus estiveram primeiro lá, ocuparam suas terras e riquezas e foram bem recebidos. Agora eles estão aqui e não estão dispostos a recebê-los”. Não esquece que em “solidariedade para com os pobres, [na Argentina] vivia num pequeno apartamento, cozinhava a sua comida, buscava seu jornal. Recusou viver no palácio e usar o carro especial.”
E, afirma, que “neste contexto escreveu duas extraordinárias encíclicas: “Laudato Si`: sobre o cuidado da casa comum” (2015), de uma ecologia integral que implica o meio-ambiente, a política, a economia, a cultura, a vida cotidiana e a espiritualidade ecológica. Na outra, na Fratelli tutti (2020), face à degradação generalizada dos ecossistemas, faz a severa advertência: “estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva” (n.34). Com estes textos, o Papa se coloca na ponta da discussão ecológica mundial que vai além da simples ecologia verde e de outras formas de produção sem nunca questionar o sistema capitalista que, por sua lógica, cria acumulação de um lado às custas da exploração do outro, das grandes maiorias.”
Destas memórias que se tornam ações se o “clericalismo”, e falo em Portugal, deixar transformar a Igreja num local onde todos e todas possam procurar, com tudo o que são, local de felicidade e paz. Francisco isso nos deixou por imperativo, ele continua connosco.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.









