O ruído é o primeiro indício, o som persistente de obra: metal contra pedra, vozes que ecoam, pó no ar. A Sagrada Família não é apenas uma basílica; é um estaleiro que se recusa a fechar, como se a ideia de conclusão lhe fosse alheia. Um corpo, mais do que um edifício.
“Não sei se aprovei um louco ou um génio”, terá dito Elies Rogent, em 1878, ao diplomar Antoni Gaudí (1852-1926). A frase atravessou o século e a dúvida deixou de importar. Em 2026, quando se assinala o centenário da sua morte, talvez não se trate já de escolher entre loucura e génio, mas de perceber que ambas as categorias são insuficientes para o que está em causa.
Eu próprio cheguei tarde. Já me tinha “encontrado” com Gaudí, superficialmente. Mas só agora, numa visita recente a Barcelona, o encontro aconteceu. E começou na Casa Vicens. Ali fiquei com a sensação pouco confortável de que tinha sido eu a chegar atrasado a uma longa conversa.

“Há aqui uma coerência involuntária: um edifício que resiste a terminar, como se o próprio projecto recusasse alinhar com calendários humanos.” Foto © La Sagrada Família.
Tentei resgatar o tempo perdido de forma quase caricata. Num alfarrabista, encontrei um álbum novo, dez quilos de Gaudí em papel, uma prova material do espanto. Durante o regresso, temi pela indulgência da companhia low cost. Por algumas horas, Gaudí foi excesso de bagagem. E ocorreu-me que a santidade, tal como o génio, começa muitas vezes por ser um peso que não sabemos onde arrumar.
Chamam-lhe o “arquitecto de Deus”. De tão cómoda, a expressão está gasta. O que significa projectar para Deus? Não se trata, penso, de ilustrar o divino, mas de trabalhar o silêncio, sem garantias, como se o cliente fosse, simultaneamente, absoluto e mudo.
Gaudí dedicou mais de quatro décadas à Sagrada Família, os últimos doze quase em exclusividade. Iniciada em 1882, a obra permanece inacabada, apesar de todas as promessas de calendário, incluindo a de 2026, adiada depois da pandemia. Há aqui uma coerência involuntária: um edifício que resiste a terminar, como se o próprio projecto recusasse alinhar com calendários humanos.
Entretanto, em Abril do ano passado, o Vaticano abriu outro processo. Numa semana que antecede a Páscoa, Papa Francisco reconheceu as “virtudes heróicas” de Gaudí, tornando-o “venerável servo de Deus”. Seguem-se etapas, tribunais, milagres (dois, para ser preciso). Um homem que deixou uma das obras mais singulares da arquitectura ocidental precisa agora de provas adicionais do extraordinário? É uma dúvida que me assalta sempre que a burocracia do sagrado tenta medir o imensurável. Neste passo é-me difícil não evocar o Padre Américo da Obra da Rua.
A Igreja responde com prudência. E talvez faça bem. Porque o que há em Gaudí não é o milagre súbito, mas uma persistência.
Há também o homem, progressivamente reduzido ao essencial; alguém que foi afinando a vida até quase desaparecer dentro da obra. Ao ponto de, sendo leigo, ter sido sepultado na própria Sagrada Família. Como se o lugar que construiu o tivesse, por fim, absorvido.
Num tempo obcecado com o produto final, Gaudí trabalha no inacabado. As suas formas não imitam a natureza; continuam-na. A (sua) luz ilumina, mas transforma. Nada ali parece definitivo.
Cá fora, os selfies acumulam-se. Há uma ironia discreta no quadro: as multidões procuram um monumento e encontram um processo. Se a canonização avançar, teremos um santo amplamente partilhado, comprimido em pixéis, filtrado pela luz do ecrã. Um santo que cabe no bolso, mas que continuará a escapar a qualquer definição.
A santidade, como a arquitectura de Antoni Gaudí, não cabe num espartilho de uma forma acabada. Exige tempo, insiste no intervalo, trabalha com o que falta.
É isto que permanece. A Sagrada Família continua por acabar. A santidade também. E talvez Antoni Gaudí nunca tenha querido outra coisa: não terminar. Construir um espaço onde a pergunta resiste, e onde até o excesso de bagagem, com sorte, encontra lugar.
Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa (Porto)










