
Os interessados em conhecer ou rever o que foi dito no debate poderão assistir ao vídeo, que já se encontra disponível no Youtube. Foto: Direitos reservados.
O Documento final do Sínodo, intitulado “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão”, e as perspetivas que abre sobre o futuro da Igreja Católica, nomeadamente em Portugal, motivaram perto de 150 pessoas que se juntaram ao serão, no último dia 14, através da Internet. O debate, promovido pelo 7MARGENS, permitiu realçar alguns caminhos que foram abertos, faltando agora a sua concretização.
Os teólogos Cristina Inogés Sanz e João Duque e a jornalista enviada especial do 7MARGENS ao Sínodo, Clara Raimundo, foram os motivadores e animadores da sessão, com curtas mas densas intervenções que suscitaram uma conversa que se estendeu por bem mais de uma hora. Os interessados em conhecer ou rever o que lá foi dito poderão assistir ao vídeo, que já se encontra disponível no Youtube.
Cristina Inogés: “Precisamos de líderes para fazer arrancar as reformas”
A primeira intervenção coube a Cristina Inogés, que foi membro de pleno direito do Sínodo, por convite do Papa Francisco. Ela começou por reconhecer que o conteúdo do Documento final poderá ter provocado em algumas pessoas um sabor agridoce. Em todo o caso, alertou que o documento deste ano, que considerou melhor do que o que saiu da primeira sessão, é “um documento aberto, para que sirva a toda a Igreja”, que deixa uma certa liberdade e que requer agora o esforço de o “adaptar a cada realidade”. Mas, fez notar, dá-nos “elementos mais do que suficientes para poder trabalhar e poder começar a dar uma nova forma a esta Igreja que temos”.
Focou de seguida alguns temas que considerou muito importante terem ficado plasmados no texto final. Desde logo, enfatizou o da transparência e prestação de contas, que considerou “vital para uma Igreja sinodal” e que é necessário começar a passar à fase de concretização no terreno.
Outro destaque da teóloga vai para a situação das mulheres na Igreja, que surge enunciada no nº 60 do texto final. Porém, pela quantidade de votos contra que o ponto teve, revela que continua a “haver muito que mudar na Igreja”. Essa mudança, mais do que questão de luta ou de poder, passa pelo convencimento e por “uma exigência de autêntica conversão por parte de alguns”, acrescentou.
O facto de o documento se ter tornado magistério eclesial ao ser assumido tal e qual pelo Papa é também para esta delegada sinodal um ponto a favor de Francisco, uma vez que “mostra, uma vez mais, a coerência deste homem que deu a palavra ao povo de Deus e deixou que o documento elaborado por esse povo de Deus se converta em magistério eclesial”.
Cristina Inogés salientou, a seguir, que não podemos esquecer que hoje na Igreja Católica convivem “dois modos distintos de ser Igreja: um, totalmente tridentino, e outro que procura romper caminho a partir do Vaticano II. Essa situação é inevitável que gere fricções, já que são “duas formas de compreender e de viver a Igreja que são um pouco como a água e o azeite”.
Por isso, observou, “temos, um grande trabalho diante de nós, um grande trabalho a nível de pequenas comunidades, e um trabalho da comunidade no seu todo, que comece a marcar as linhas [de orientação]”. “Neste momento necessitamos de líderes que ajudem a que este processo arranque de uma maneira prática nas dioceses, nas comunidades, nas instituições da vida religiosa”, disse a teóloga, reconhecendo, embora, que não vai ser fácil encontrar esses líderes.
João Duque: Transparência, liderança e tomada de decisão, pontos bem definidos

João Manuel Duque fotografado em 8 de Julho de 2019, no Centro regional de Braga da UCP. O teólogo considera que o Documento final espelha todo o processo sinodal. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.
João Duque, que é professor catedrático da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, interveio tomando como referência central o Documento final, que ele vê, em última instância, também como “espelho de todo o processo sinodal”, destacando a sua parte terceira. Esta refere-se a matérias com incidências no direito canónico, que terão impacto no “funcionamento quotidiano das comunidades eclesiais a todos os níveis desde as comunidades eventualmente paroquiais ou até sub-paroquiais, às dioceses, conferências episcopais, regiões eventualmente até continentais”.
Esta é, segundo o teólogo, a parte do documento “mais detalhada e eventualmente a que mais avançou relativamente ao conjunto dos temas do sínodo”. Tem a ver com o que ele designou genericamente por “poder, no sentido neutro ou positivo do termo”, relacionado com “o governo das diversas instituições eclesiais, com a tomada de decisão, com os processos de liderança”, matérias em que, de facto, “se é muito explícito nas indicações para eventuais alterações significativas, sobretudo onde elas não são tão praticadas assim, numa liderança muito partilhada nas comunidades eclesiais”.
João Duque observa que, em trabalhos anteriores que escreveu sobre o Caminho Sinodal da Igreja da Alemanha, a reflexão sobre o exercício da liderança e do poder na igreja “é uma das partes mais interessantes e mais bem conseguidas”, sugerindo que poderão ter sido de alguma inspiração neste Sínodo sobre a Sinodalidade. “É, de facto, a parte que eu apreciei mais”, resume o professor da Universidade Católica.
Indo mais longe, Duque recorda o que aconteceu com alguns textos do Concílio Vaticano II, para sugerir que, além de mais interessante e mais bem conseguida, esta parte do Documento final pode vir a ser também aquela que poderá vir a ter “aplicação mais imediata, se, de facto, as lideranças eclesiais – ou eventualmente se o povo de Deus o exigir – … derem continuidade imediata a esses processos de sinodalidade em todas as comunidades paroquiais. Isso passa evidentemente por uma articulação que inclui a prestação de contas e mecanismos de controle”.
Essa implementação poderá evitar, ou pelo menos limitar eventuais abusos de poder a vários níveis, incluindo poder espiritual, ponto sobre o qual João Duque complementa: “Eu acho que é bom não termos medo da terminologia do poder porque o exercício do poder acontece dentro da Igreja e quando se transfere para o nível do poder espiritual pode-se tornar extremamente delicado e extremamente perigoso e, portanto, esse aspeto penso que é sumamente importante”.
Na sua intervenção, o académico juntou ainda três pontos. O primeiro é a necessidade de, nestas coisas da governança, do exercício do poder e dos processos de tomada de decisão, a Igreja estar aberta a aprendizagens já feitas em instituições civis, com as quais muitos membros da Igreja já contactam, na sua vida quotidiana.
O segundo ponto, pouco abordado no documento sinodal, é a necessidade de as comunidades eclesiais e as respetivas lideranças aprenderem a lidar e a conviver de forma não só pacífica, mas também sadia com o dissenso. Esta pode ser uma matéria porventura difícil numa cultura eclesial que tende a acentuar o consenso, o qual se torna por vezes difícil em sociedades plurais, em que são comuns posicionamentos e perspetivas diferentes e mesmo desacordos.
O terceiro e último ponto diz respeito aos temas concretos – alguns polémicos – que não foram abordados nem decididos no âmbito do Sínodo, mas que ficaram lançados e vão ser trabalhados e, acredita o teólogo, “grande parte deles não vão parar”. Nesta linha, sublinhou a questão de fundo das mulheres, a par da (e ligada à) questão das lideranças e da decisão na Igreja, que “é das mais significativas no próprio processo sinodal”. Reconheceu alguns passos já dados, ainda que insuficientes e pouco significativos, se comparados com o normal das nossas sociedades. Por isso há, segundo observou, muito a fazer e a muitos níveis. E não deixou de se congratular com o facto de se ter deixado de acentuar a divisão e a diferença de papeis do homem e da mulher, como acontecia no Instrumentum Laboris, para passar a colocar todos e todas num plano de igualdade.
Clara Raimundo: a repórter na aula sinodal e num improvável encontro de rua

Da experiência que viveu em Roma, Clara Raimundo sublinhou dois momentos. O primeiro foi a possibilidade que foi aberta aos jornalistas de entrarem na aula sinodal no último dia, em que foram feitas as votações ponto a ponto do Documento final. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS
A jornalista Clara Raimundo interveio de seguida para justificar que, sendo o 7MARGENS um jornal independente de confissões religiosas, não pode esquecer, na sua cobertura do fenómeno religioso, o peso do catolicismo em Portugal. Neste âmbito, destaca-se a importância do Sínodo sobre a Sinodalidade, lançado pelo Papa em 2021, a começar pela maior auscultação de sempre dos membros da Igreja, que foi feita na primeira etapa do processo, e que tinha um horizonte que ia para lá das suas fronteiras. Isso justifica, segundo disse, a aposta em ter uma enviada especial pelo menos numa parte dos trabalhos sinodais, tendo mesmo sido o único meio de comunicação social a fazê-lo, para além da Agência Ecclesia.
Numa outra perspetiva, a jornalista vê “uma relação estreita entre o jornalismo e a sinodalidade”, que se manifesta no facto de o “caminhar juntos” que define o processo sinodal dificilmente poder ser feito sem os meios de comunicação social e sem o que designou por “jornalismo construtivo”. Recordou, a propósito, a expressão utilizada por um leitor para quem o 7MARGENS é diariamente “um bordão para o caminho”.
Clara Raimundo lembrou também que este jornal tem dedicado uma atenção especial ao Sínodo, tendo começado por lançar um inquérito de expectativas, ainda antes de o processo sinodal arrancar. “Publicámos mais de 390 peças sobre este tópico e, relendo alguns desses materiais, pode concluir-se que muito do que fomos publicando não está longe de pontos do Documento final do Sínodo”, enfatizou.
Da experiência que viveu em Roma, Clara Raimundo sublinhou dois momentos. O primeiro foi a possibilidade que foi aberta aos jornalistas de entrarem na aula sinodal no último dia, em que foram feitas as votações ponto a ponto do Documento final. Foi logo de manhã, antes de começar a oração da manhã e os jornalistas puderam testemunhar o ambiente socio-emocionalmente intenso de quem já aproveitava os últimos minutos juntos, depois de quase um mês de convivência diária entre delegados tão diversos entre si. Outro momento especial da repórter foi o encontro fortuito de rua que lhe aconteceu ter com o bispo de Matagalpa, na Nicarágua, Rolando Alvarez, que tinha estado preso no seu país e que, com as diligências do Vaticano, tinha sido acolhido em Roma. O Papa fez questão de o convidar para esta segunda sessão do Sínodo, mas, em Roma vive como que condenado ao silêncio sobre o que se passa no seu país, pelos riscos que intervenções e entrevistas nos média podem acarretar para pessoas concretas no seu país. Mas, se não podia entrevistá-lo, o que poderia fazer, então, perguntou-lhe Clara. Que poderá fazer o 7MARGENS? A resposta veio de imediato: “Aquilo que têm estado a fazer: continuar a falar sobre o que se passa. Talvez só um milagre ajude a resolver a situação no país, mas a denúncia é a única coisa que faz tremer o chão debaixo dos pés de quem manda”.
O debate alargado focou problemáticas diversas: a aceitação da presença de mulheres na assembleia sinodal; as condições para a participação dos leigos nas estruturas da Igreja; a importância da conversão e mudança de mentalidades, incluindo por parte do clero, entre vários outros aspetos. O visionamento do vídeo registado na sessão poderá ajudar a uma perspetiva mais aproximada de outros aspetos debatidos.









