Há que cuidar da economia ensinada nas escolas e universidades católicas, diz Manuela Silva

| 31 Jul 19

Encontro A Economia de Francisco já mobiliza portugueses; reunião preparatória decorre em Setembro, em Florença, com a participação de dois professores universitários

Bairros de lata junto a lixeiras e esgotos, em East Cipinang, Jacarta Indonesia. Foto © Jonathan McIntosh/Wikimedia Commons

 

Há para já dois jovens portugueses com a pré-inscrição feita para o encontro A Economia de Francisco, que se realizará entre 20 e 24 de Março do próximo ano, em Assis: Mariana Morais Sarmento e Tomás Virtuoso. Entretanto, num encontro de preparação em Setembro próximo, em Lopiano (perto de Florença), participam outros dois professores universitários: Américo Mendes, da Católica Porto Business School e Ricardo Zózimo, da Nova School of Business & Economics (ambas as escolas têm, neste momento, nome inglês, apesar de serem escolas de universidades portuguesas).

O objectivo da iniciativa convocada em Maio pelo Papa é promover a reflexão sobre uma “economia atenta à pessoa e ao meio ambiente” e “laboratórios de esperança para criar novas formas de compreender a economia e o progresso, combater a cultura do desperdício, dar voz a quem não tem nenhuma e propor novos estilos de vida”

A economista Manuela Silva, ex-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da Igreja Católica, tinha sido também convidada pelo comité organizador a participar na reunião de Setembro, mas declinou o convite por razões pessoais. De qualquer modo, através do Grupo Economia e Sociedade (GES), que reúne um grupo de investigadores cristãos, colaborou na preparação de um texto que foi já enviado, e que se centra na questão do ensino da economia.

Num texto recente, a propósito do encontro, Manuela Silva escrevia: “Há que cuidar da ‘economia’ que se ensina na Universidade Católica e da orientação que inspira a educação das novas gerações nos colégios católicos ou as aulas de moral católica no ensino oficial.”

Em declarações ao 7MARGENS, a economista acrescenta que seria importante instituições como a Universidade Católica Portuguesa (UCP) aproveitarem o encontro promovido pelo Papa para “rever os seus critérios” e pôr em questão iniciativas como a do “mestrado em marketingde produtos de luxo”.

A ex-presidente da CNJP acrescenta estar preocupada em que os eventuais inscritos idos de Portugal funcionem em “circuito fechado” e que não se ponham em questão os “fundamentos” do modelo económico predominante. E acrescenta que as instituições católicas são, por vezes, “as primeiras a formar gestores para a economia que mata”, numa alusão à expressão do Papa na exortação A Alegria do Evangelho.

Há coisas a mudar, garante o padre José Manuel Pereira de Almeida, vice-reitor da UCP. Dá o exemplo de vários docentes da casa, entre os quais Américo Mendes, ligado à economia social, e outros também preocupados com a reflexão sobre paradigmas económicos alternativos. Durante o Sínodo da Amazónia, que decorrerá em Outubro, em Roma, haverá uma “tenda da casa comum”, com debates e iniciativas diversas, por onde passarão também professores da UCP e outros convidados, acrescenta.

 

Quem é penalizado nas universidades

Numa entrevista ao programa Ecclesia, da RTP2, segunda-feira passada, Américo Mendes, um dos dois participantes do encontro de preparação, que decorre em Setembro, admitiu que “um certo tipo de economia mata” e acrescentou que “um dos males de que sofrem as nossas universidades” – e do qual a UCP “não está isenta” – é ter “quem só ensina ou quem só investiga e que depois não esteja no dia a dia, no sítio onde os problemas existem”. Pior, acrescentou, é que as pessoas que tentam fazer essa triangulação são penalizadas.

Ricardo Zózimo, professor da Nova e que também participará no encontro preparatório de Setembro, diz que o modelo inglês “reconhece estatutariamente” a capacidade que um professor universitário tem de contribuir beneficamente para a sociedade e isso ainda não acontece em Portugal. Mas já há professores, acrescentou, que convidam os alunos a sair da universidade para perceber o que é a realidade, de modo a terem ideias que consigam “mudar os modelos económicos”. A economia deve ser cada vez mais um “espaço de inclusão e de comunidade no sentido integral do termo – com o nosso próximo e com a natureza”, disse ainda Américo Mendes, durante a entrevista.

Os jovens participantes serão escolhidos entre os que enviarem uma pré-inscrição, da qual deve constar um texto sobre as motivações.

A organização do encontro – à frente do qual está Luigino Bruno, economista, membro do movimento dos Focolares e um dos principais teóricos da “economia de comunhão” – escolherá depois os cerca de 500 jovens que irão participar, a partir dessa carta de motivação. Os organizadores, assegura o vice-reitor da UCP, Pereira de Almeida, diz que se pretende uma “boa representação de África, América Latina e Ásia”.

Em Portugal, além de um apelo às várias faculdades e centros de ensino de economia, que tem tido “bom acolhimento”, tem sido feitos também apelos a estudantes e jovens economistas dos países lusófonos a participar, acrescenta ainda ao 7MARGENS.

Na página digital da iniciativa, podem ver-se já alguns dos nomes confirmados para o encontro de Março, entre os quais os dos indianos Amartya Sen, prémio Nobel de Economia em 1998, e Vandana Shiva, Muhammad Yunus, do Bangladesh, também Nobel em 2006, e Jeffrey Sachs, ex-director do Instituto da Terra.

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