Pensem nas nervuras de uma folha. Não são iguais, mas a partir de uma nervura principal ramificam-se todas as outras para levar a seiva a toda a folha. Também toda a árvore tem um tronco a partir do qual nascem os ramos. Também os rios se ramificam em afluentes a partir de um leito principal. Na natureza são inúmeros os exemplos de sistemas feitos de poucos grandes e muitos pequenos, mostrando como a hierarquia faz parte da evolução. A hierarquia não é má, mas um fenómeno natural que resulta da evolução dos sistemas para facilitar aquilo que por eles flui. É um resultado de uma Lei Construtal formulada por Adrian Bejan, professor da Universidade de Duke no EUA, cujas implicações são mais profundas do que as da engenharia que lhe deu origem. Será um problema quando a hierarquização se torna um construto da sociedade humana ou o seu destino natural?
“Todos, todos, todos.” — a mesma palavra, repetida três vezes pelo Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa que marcou, e marca ainda, o nosso modo de ser Igreja que se orienta para uma vida sinodal. Na sinodalidade caminhamos juntos e, por isso, todos devem experimentar como a sua voz é relevante. Porém, em alguns artigos de opinião sente-se por vezes a tensão entre o movimento sinodal e o movimento hierárquico. Como se um fosse a contradição do outro. Como se a existência de uma hierarquia fosse na Igreja sinal daquilo que o mundo entende como hierarquia onde uns poucos dominam todos os outros. Seria um absurdo se pensássemos assim. Ou será um absurdo se realmente fosse assim.

“Pensem nas nervuras de uma folha. Não são iguais, mas a partir de uma nervura principal ramificam-se todas as outras para levar a seiva a toda a folha.” Foto © Vivaan Trivedii | Unsplash
A hierarquia como construto humano eclesial é um fenómeno natural de serviço, não domínio. Aliás, até os sistemas políticos democráticos são pensados com esta imagem, não fosse a etimologia da palavra ministro do latim minister que significa, literalmente, servo. O “SS” associado ao Papa não significa “Sua Santidade” (ou pelo menos não vejo qualquer sentido nisso), mas Servo dos Servos porque a santidade é um caminho de serviço a Deus que habita no coração do outro. O tronco de uma árvore não existe para dominar os ramos, mas garantir que têm tudo o que precisam para dar muito fruto. Uma Conferência Episcopal poderia ser um órgão de gestão e decisão, mas não é essa a sua natureza, sendo antes uma estrutura de serviço. E qualquer decisão não pretende (ou não devia pretender) impor uma ideia de alguns a todos os outros, mas assegurar o movimento natural da vida sinodal dos vários ramos a partir dos quais nascem frutos espirituais. Porém, parece-me que isso exige de todos uma decisão interior e a clareza de uma imagem.
A decisão interior é a da confiança. Recordo-me de esperar, quando estava (ou estou) em posições de responsabilidade, que as pessoas confiassem nas decisões que tomava porque não o fazia por interesse próprio, mas em resposta ao interesse demonstrado pelo outro. Por outro lado, quando lido com pessoas que têm uma responsabilidade, procuro confiar nas suas escolhas. Quando essas escolhas não ressoam em mim, sinto o dever de dar retorno porque qualquer pessoa em posições de responsabilidade só pode ser um agente se tiver retorno daquilo que faz. E quando faz algo que não corre bem, deve esperar que lhe digam isso e acolher com humildade esse retorno, por muito que isso lhe custe. Engolir o orgulho para o digerir dá saúde e faz sorrir.
Em relação à imagem que gostaria de usar, seria com o propósito de clarificar o que é uma hierarquia natural que tende sempre para poucos servirem muitos. Estamos habituados a visualizar a hierarquia humana como uma pirâmide com o povo na base e uns poucos (que pensamos sortudos) no topo a quem devemos prestar contas e servir. Não é essa a lógica do Evangelho e da hierarquia como construto humano eclesial. A imagem mais próxima da realidade seria a de uma pirâmide invertida, onde os poucos encontram a sua razão de existir no serviço aos muitos que procuram sustentar para manter a base delicadamente equilibrada pela ponta que a suporta. A hierarquia existe para suportar a sinodalidade, não o contrário e quanto mais cedo nos apercebermos disso, mais a vida flui e evolui.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, Fnac). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.
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