Investigadores da Faculdade de Teologia propõem “palavras para este tempo”

Alfredo Teixeira: “Palavras para este tempo” foi o mote para cada pessoa escolher um texto, construindo uma espécie de polifonia improvisada. Foto © Maria Wilton/Arquivo 7MARGENS
“Esta epidemia que parece tão horrível e funesta põe à prova a justiça de cada um e experimenta o espírito dos homens, verificando se os sãos servem os enfermos, se os parentes se amam verdadeira e sinceramente, se os patrões têm piedade dos servos enfermos, se os médicos não abandonam os doentes que imploram auxílio.” Assim escrevia Cipriano, bispo de Cartago em meados do século III, no seu tratado De mortalitate (A Mortalidade), depois da violenta epidemia que, entre 252-253, assolara a cidade do norte de África, que então integrava o Império Romano.
Este texto é apenas um excerto dos doze já lidos por professores e investigadores da Faculdade de Teologia (FT) na série “Palavras para este tempo”, disponível no canal YouTube da escola da Universidade Católica Portuguesa.
“Ainda antes da Páscoa desafiei um conjunto de colegas para ‘empalavrarmos’ este tempo, a partir de casa”, explica Alfredo Teixeira, da direcção da FT, ao 7MARGENS. “Pedi-lhes que escolhessem uma página de uma obra, que fosse iluminadora para a experiência do tempo que vivemos.”
O amor pela vida e as dores do mundo
Não há qualquer programa para a iniciativa que, à semelhança de outras na área da poesia ou da literatura, propõe que o critério seja a escolha pessoal de cada leitor. “Foi dado o mote e, a partir daí, cada um escolhe o seu texto, construindo uma espécie de polifonia com uma dimensão de improvisação”, para usar uma metáfora musical, área de eleição em que Alfredo Teixeira também se move, já que é compositor.
Por isso se podem encontrar textos da área de trabalho de alguns dos investigadores ou, em outros casos, das suas leituras pessoais. Isidro Lamelas, por exemplo, que selecionou Cipriano, é professor de Patrística, o estudo do pensamento dos teólogos cristãos dos primeiros séculos. Alfredo Teixeira, que trabalha a área da Antropologia, optou por René Girard, autor de Eu vi a Satanás Cair do Céu Como um Raio e as suas reflexões sobre as vítimas.
Na pauta das escolhas feitas até agora escutam-se as vozes do historiador Jean Delumeau, a falar sobre O Medo no Ocidente (“O medo está dentro de nós, acompanha-nos”) ou do pastor protestante Dietrich Bonhoeffer, assassinado pelos nazis (“Encontramo-nos numa situação em que nos vemos obrigados a renunciar em preocupar-nos com o dia de amanhã”, escrevia em Resistência e Submissão). Ou ainda o “amor pela vida” da judia Etty Hillesum, morta em Auschwitz, bem como Simone Weil, Fernando Rey Puente, Carlos Poças Falcão, Philippe Bacq, Emmanuel Levinas, Sebastião Formosinho ou Oliveira Branco.
Ao ritmo de dois por semana (em princípio, terças e quintas), os vídeos continuarão a ser gravados e partilhados até final de Junho, o que permitirá reunir cerca de duas dezenas e meia de textos.
Sobre as “dores do mundo”, escrevia o poeta Friedrich Hölderlin, no poema preferido do Papa Francisco (dito por Cátia Tuna): “Esquecido está já o que a sua vida foi. (…) Fez-se amigo da morte, em nome dos outros; do fundo das dores e do cansaço, regressou triunfante para o pai.”
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