Jaime Ortega (1936-2019): Morreu o cardeal que tomou nota do programa do novo Papa

| 28 Jul 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

O cardeal Jaime Ortega, em 2015, poucos meses antes de abandonar o cargo de arcebispo de Havana. Foto © U.S. Department of State from United States/Wikimedia Commons

Graças a ele, ficaram a conhecer-se, em Março de 2013, as linhas programáticas do então recém-eleito Papa Francisco para a renovação de que o catolicismo necessitava. Foi Jaime Ortega Alamino, à época arcebispo de Havana (Cuba), que depois das reuniões pré-conclave, divulgou as ideias do seu colega Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires. O cardeal Ortega morreu sexta-feira em Havana, com 82 anos, depois de uma luta longa contra um cancro e de ter deixado o cargo de arcebispo da capital cubana em 2016, que ocupou durante 35 anos.

 

Nas notas do conclave, Bergoglio dava conta do essencial do que viria a ser o programa do actual pontificado. As periferias geográficas e existenciais, a Igreja que deve sair de si mesma, a recusa da auto-referencialidade e do narcisismo teológico, a sugestão de um papa que aparecesse como um homem contemplativo e que ajudasse a “Igreja a sair de si para as periferias existenciais [e a] a ser mãe fecunda que vive da ‘doce e reconfortante alegria de evangelizar’”.

Jaime Ortega ficou conhecido pela sua capacidade de diálogo com Fidel Castro e o seu irmão e sucessor Raul Castro, ao mesmo tempo que defendia a liberdade religiosa e promovia a ideia de uma Igreja atenta aos mais pobres – que, em Cuba, são muitas pessoas. A convite de Maria Barroso Soares e da Fundação pro Dignitate, esteve em Lisboa, em Novembro de 2001, quase quatro anos depois da primeira visita de um Papa a Cuba – João Paulo II, em Janeiro de 1998.

Duas décadas antes, em 1966-67, apenas dois anos depois de ser ordenado padre, Jaime Ortega passara oito meses detido num campo de trabalho do regime. Sobre essa prova, disse em 2014 que tinha sido “uma experiência de vida única para um padre”, que o levara a sentir-se “no meio do povo”. Foi nomeado bispo em 1978, arcebispo de Havana em 1981 e cardeal em 1994. Já nessa qualidade, viria depois a receber em Havana também os três papas – depois de Wojtyla em 1998, Bento XVI em 2012 e Francisco, em 2015 e 2016.

 

“Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba.”

À chegada a Havana, João Paulo II apelara: “Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba.” Na sua passagem por Portugal, Jaime Ortega comentava, na entrevista que então lhe fiz para o Público, que o Papa se referira a algo mais que as meras relações comerciais e diplomáticas: “Queria expressar uma abertura ao mundo de hoje, com perigos como os que a globalização pode tirar aos países a nível cultural, mas onde há também um intercâmbio extraordinário de informação, ideias e pensamentos. (…) Neste aspecto, a minha opinião pessoal é que ainda não houve essa abertura de Cuba ao mundo.”

Jaime Ortega era um diplomata, que não provocava ondas de choque públicas – preferiu, por exemplo, não responder a uma das perguntas, sobre os presos políticos do regime. Mas, ao mesmo tempo, abriu canais de diálogo com o regime liderado pelo Partido Comunista Cubano, assumindo-se como voz dos católicos e dos marginalizados ou perseguidos do regime, na luta pela liberdade.

Na nota em que anuncia a morte do seu antecessor, o actual arcebispo de Havana, Juan de la Caridad García Rodríguez, diz que ficam na memória as suas “qualidades pessoais e o seu infatigável zelo pastoral”. E acrescenta: “Começando a sentir-se a sua ausência física, recordam-se, com afeto agradecido, as suas qualidades pessoais e o seu infatigável zelo pastoral.”

O cardeal Ortega insistiu várias vezes no fim do bloqueio dos Estados Unidos a Cuba, que ele considerava que não resolvia problema algum e só agravava as já difíceis condições de vida do povo cubano. João Paulo II e os seus dois sucessores também repetiram esse pedido várias vezes. E em 2014, quando o então Presidente Barack Obama abriu essa possibilidade, o Papa Francisco escreveu a ambos os presidentes – Raul Castro e Obama – pedindo a ambos que conversassem. O cardeal Ortega foi o portador de ambas e os dois países abriram uma via de diálogo.

“Foi uma maneira de os pôr em contacto”, afirmou o cardeal, como recorda o Crux, citado no texto já citado da Pastoral da Cultura. “Foi o desejo do Santo Padre. As pessoas têm de comunicar entre si. Ele não foi um mediador entre duas nações ou dois governos, mas queria colocar os dois presidentes em contacto.”

Dentro do país, o cardeal também esteve sempre activo ao pedir liberdade de acção para a Igreja – sobretudo na possibilidade de ensinar, de ter a possibilidade de intervir publicamente e de servir os mais pobres. “Há três liberdades: oração, liberdade profética (educação religiosa) e serviço. Quando temos as três liberdades, temos liberdade de religião”, mas em Cuba “só temos uma”, afirmara, em 1997, recorda ainda o Crux. Uma das consequências dos seus apelos – e da visita de João Paulo II em 1998 foi a possibilidade de os cubanos poderem voltar a celebrar o dia de Natal como feriado.

Ortega exortava ainda os crentes a fazerem encontros de oração nas suas casas, como forma de ultrapassar a proibição de encontros públicos: “Há muros, toda a espécie de muros, más memórias do passado que têm também de ser derrubadas, e é assim que o vamos fazer”, dizia.

 

Reproduz-se a seguir a entrevista de Jaime Ortega ao Público, em Novembro de 2001:

Cuba ainda não se abriu ao mundo

Arcebispo de Havana assinala coincidências entre Papa e Fidel, mas diz que sobre democracia e direitos humanos há diferenças “fundamentais”.

Convidado pela Fundação Pro Dignitate, de Maria Barroso Soares, o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana esteve em Portugal no início da semana. Cauteloso, medindo as palavras, o cardeal Ortega fala nesta entrevista do que tem sido a vida da Igreja em Cuba, depois da visita do Papa ao país, em 1998. E não deixa de criticar o regime liderado por Fidel Castro no que diz respeito ao monopólio do Estado nas áreas sociais.

O cardeal Jaime Ortega, em 2015, com o então secretário de Estado dos EUA, na altura do levantamento do embargo norte-americano a Cuba: o apelo de Ortega e dos vários papas resultou. Foto © U.S. Department of State from United States/Wikimedia Commons

 

P. — O Papa disse em Cuba: “Que Cuba se abra ao mundo e que o mundo se abra a Cuba.” Isto já se concretizou?

JAIME ORTEGA (J.O.) — Logo depois da visita do Papa, houve uma série de visitas de chefes de Estado e de Governo de outros países, estabeleceram-se relações diplomáticas com vários países. Houve uma menção especial desses Estados ao desejo de abrir-se a Cuba, seguindo o convite do Papa.

 

A abertura de Cuba ao mundo é considerada pelo Governo cubano como a possibilidade de estabelecer relações diplomáticas com um grande número de países e de estar presente em acontecimentos internacionais. Tenho a impressão, já o disse, que o Papa queria expressar algo mais que relações comerciais e diplomáticas. Queria expressar uma abertura ao mundo de hoje, com perigos como os que a globalização pode tirar aos países a nível cultural, mas onde há também um intercâmbio extraordinário de informação, ideias e pensamentos.

Não sei, neste aspecto, se se pode dizer que há uma abertura de Cuba ao mundo, ao momento em que vivemos, aproveitando o intercâmbio e a realidade nova do mundo de hoje. Neste aspecto, a minha opinião pessoal é que ainda não houve essa abertura de Cuba ao mundo.

P. — Comentava-se em 1998 que havia uma grande coincidência dos discursos do Papa e do Presidente Fidel sobre a realidade social e económica do mundo. Mas o mesmo não acontecia em relação às questões morais e de regime político. Essas coincidências continuam?

(J.O.— Podia dizer-se que sim, que há essa coincidência na política mundial, no que se refere aos conflitos, à guerra, às dificuldades dos países do Terceiro Mundo, às atitudes do mundo desenvolvido em relação aos países em desenvolvimento… Quanto aos princípios da doutrina social da Igreja, que têm que ver com as formas de governo, com a democratização dos povos, do exercício integral dos direitos humanos, há matizes fundamentais em que o Santo Padre difere da opinião do Governo de Cuba…

 

“Não esperava uma mudança espectacular”

P. — Em 1998, pensava-se que a situação política e a liberdade da Igreja mudaria significativamente. Esperava que a abertura fosse maior?

J.O. — Eu não esperava uma abertura espectacular. Não me parecia que a visita do Papa pudesse trazer, quanto ao comportamento do Estado com a Igreja, grandes aberturas. Quanto ao espírito que a visita do Papa possibilitou, a própria presença pública da Igreja, o apresentar-se perante o mundo e a sociedade cubana como uma Igreja que guardara a sua identidade e estava viva no meio do povo e a confiança que isto gerou nos cubanos em geral e nos cristãos católicos — isso sim, foi uma mudança extraordinária e duradoura. Há um modo novo de o povo em geral considerar o fenómeno religioso.

Mudanças substanciais, de um novo modo de ver as relações entre a Igreja e o Estado, não se produziram. Há fidelidade a uma filosofia de Governo, que considera o Estado como aquele que deve ter a seu cargo todos os problemas do homem. O espiritual considera-se, muitas vezes, sob o ângulo da cultura. Ainda que a cultura seja um fenómeno espiritual, não esgota toda a espiritualidade do homem. Há muitas cautelas por parte do Estado, pensando que quando a Igreja actua no campo social, está fazendo incursões num terreno que não lhe lhe diz respeito. O seu terreno seria mais o do culto, das necessidades religiosas do homem, mas não o da ajuda ao necessitado, da atenção aos desfavorecidos.

Estas concepções quanto ao papel do Estado, que toma todas as iniciativas, não mudou. A Igreja, na sua missão cultual e evangelizadora, tem mais facilidades. Abriram-se casas de missão ou oração nos bairros que não têm igrejas — há centenas de casas assim. A presença da Igreja em espaços públicos [aumentou]: celebrações da missa, procissões em diferentes lugares. O acesso aos meios de comunicação social é muito limitado: houve uma intervenção minha, duas vezes, na rádio, alguns bispos nas dioceses falaram também nas rádios provinciais, mas não há um acesso habitual, com um programa fixo.

P. — Havia outras queixas: acesso ao sistema educativo, autofinanciamento das igrejas, possibilidade de padres estrangeiros trabalharem em Cuba, visitas a presos…

J.O. — A entrada de padres e religiosas em Cuba faz-se com muita lentidão. Demora muito tempo e pouco a pouco vão entrando alguns. Sempre falei da educação e do direito que a Igreja tem a educar aqueles que o desejem, segundo a doutrina cristã. Enquanto não houver uma mudança de atitude em relação ao papel da Igreja na sociedade e ao papel do Estado, não me parece que, mesmo a médio prazo, possa haver acesso da Igreja à educação.

O financiamento da Igreja depende muito das ajudas que recebemos de outros, porque a economia de Cuba, em certos aspectos, desenvolve-se em dólares e as ofertas dos fiéis são em pesos cubanos. Há uma grande necessidade destas ajudas.

 

Peso da santeria foi exagerado pelo turismo

P. — Como pode a Igreja trabalhar num país com o peso que tem a santeria, a religião popular?

J.O. — O peso foi exagerado por uma certa folclorização e propaganda turística de um fenómeno que foi como que universalizado e não está estendido a todas as zonas do país. É um fenómeno inflaccionado com a propaganda do “tipicamente cubano”, como se fosse a grande manifestação da cultura cubana…

P. — Mas a Igreja convive com essa realidade…

J.O. — Isso é um sincretismo religioso. É um modo de conservar crenças que se misturaram com o catolicismo. E a Igreja não recusou nunca essas pessoas, porque todas estão baptizadas, frequentam os nossos templos, oferecem missas pelos defuntos, têm respeito pelos padres, sentem que a Igreja Católica não lhes é alheia. Têm às vezes uma fé mais activa que outros. Nunca os recusámos e temos uma acção pastoral que consiste em tentar purificar essa crença, mas nunca tratando-os como gente estranha ou como outra religião, antes como pessoas que têm uma maneira não perfeita de viver a fé católica. Isto sucede com tantos católicos em tantas partes do mundo…

 

Normalização entre Igreja e Governo ainda não existe

P. — O Estado também reserva para si a possibilidade de ajuda social?

J.O. — Sim, esse é um dos pontos difíceis. Às vezes, há posibilidade de oferecer ajuda, mas tem que ser sempre através de instituições estatais. Se recebemos donativos de alimentos ou leite em pó, devemos fazer com que cheguem a hospitais ou centros assistenciais do Estado, que são para todo o povo. A única coisa que se conseguiu foi que haja acompanhamento desde o envio até que chega ao destino.

O notável é o grande voluntariado que a Cáritas tem, gente que trabalha de forma gratuita, o esforço que as paróquias fazem para sustentar idosos necessitados com o que podem comprar no mercado agro-pecuário, com o que podem doar.

P. — A relação entre os bispos e o Governo é melhor se falamos de relações humanas, mas a nível institucional os bloqueios continuam?

J.O. — Enquanto relação institucional, se olharmos a este período longo de 40 anos, a situação não é agora tão difícil como no passado. Mas apesar da melhoria, nós aspiramos a uma normalização das relações entre a Igreja e o Estado que ainda não se produziu. Normalização quer dizer que haja uma maior fluidez e que os temas de fundo possam ser tratados.

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