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Padre Jardim Gonçalves, Papa Francisco

Evocação

Jardim Gonçalves, apóstolo da comunicação

Ordenado presbítero aos 24 anos de idade, Jardim Gonçalves inicia a realização de um sonho: dar-se à Igreja através dos outros, e com os outros, com todos quantos com ele se cruzem nos caminhos da vida, fazer Igreja. [Ver 7MARGENS]

De pequenino já dizia, em casa, querer ser padre. Perto do final da vida, entristecia-se se alguém o pudesse ver, ou recordar ter sido visto, noutra condição sem reconhecerem aquela.

Os primeiros quatro anos de padre são decisivos para as opções pastorais que irá abraçar.

No Machico, apercebeu-se das condições de vida da população, das famílias e dos jovens, diametralmente opostas aos níveis de conforto a que estava habituado na cidade do Funchal.

Mas seria quando o bispo lhe pediu para dinamizar a Ação Católica no meio rural, durante múltiplas deambulações pela ilha, em contacto com a juventude agrária feminina, que o padre Jardim sente a profunda interpelação de algo ser necessário fazer, em favor da promoção social de jovens rurais, cuja pobreza extrema aprisionara ao mundo da ignorância, sem norte, vidas vazias de horizontes, sem qualquer réstia de esperança.

A meu ver, é esta experiência interpeladora, radical, que irá influenciar decisivamente a vida do padre Jardim.

Recolhe informação sobre as condições de vida de jovens no meio rural da Madeira. Uma realidade inimaginável ao menino de boas famílias, habituado ao conforto da casa dos pais, na cidade do Funchal.

A descoberta de elevados níveis de pobreza em que viviam os jovens rurais madeirenses, o atraso social e económico em que se encontravam, no final da década de 1950, abalou o jovem padre. Era como se do fundo da alma, lhe ressoasse o grito estridente: o que vais fazer por esta gente?

Dá-se o caso de, logo a seguir, tomar assento, em Lourdes, no congresso do Movimento Internacional da Juventude Católica Rural, que teve por tema: “A Fome no Mundo nos seus múltiplos aspetos”.

A participação dinâmica nesse fórum, pontuada pelo conhecimento da pobreza que levara da Madeira, o entusiasmo que o galvanizava para provocar mudança, não passou desapercebida aos olhos de superiores e chegou mesmo aos ouvidos do cardeal Cerejeira, que decidiu puxar para Lisboa o padre Jardim Gonçalves, a quem confiará novas missões no Continente.

Sem ainda ter completado cinco anos de ordenação sacerdotal, novos mundos se abrem ao jovem padre madeirense, cujos destinos deixariam de ser aqueles que, muito provavelmente o confinariam aos limites diocesanos do Funchal, de pároco de aldeia e pouco mais.

Transfere-se para Lisboa, acomoda-se na casa diocesana da Rua do Vale do Pereiro e passa a residir com padres responsáveis pelo acompanhamento de vários ramos da Ação Católica, próximos do cardeal Cerejeira, entre eles, o padre António Ribeiro, mais tarde 15.º patriarca de Lisboa.

Um artigo do padre Jardim no DN de 7 de dezembro de 1985, incluído num inquérito sobre os 20 anos do Concílio.

Do relacionamento com esses “hóspedes ilustres”, novos colegas, confronta-se com diferentes dimensões de cultura e saber, algumas, para si inacessíveis no Funchal: música, cinema, teatro, literatura, ciências sociais, teologia. Passa a frequentar também esses ambientes onde se sente à vontade. Cultiva o gosto e estudo de todas essas áreas.

Mais: o bichinho do jornalista, que transporta dentro de si, ajudá-lo-á a manter-se sempre muito bem informado.

Segue, com grande entusiasmo, os trabalhos do Concílio Vaticano II. Fonte a que sempre recorrerá para aplicar, na vida pessoal, princípios e valores conciliares, que o transfiguram no empenho de comunicar aos outros aquilo que os padres conciliares estabeleceram.

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.”

O primeiro período do Proémio da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, sobre A Igreja no Mudo Atual, é o lema da sua vida.

Deixa-se maravilhar pelos “sinais dos tempos”, transporta consigo a Gaudim et Spes sem alarde de conhecimento enciclopédico, nada disso, mas como nascente onde encarna a vida. É essa a fonte a que recorre como alimento pessoal, e partilha na assistência dedicada a operários e trabalhadores.

É assim que, as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias, das classes trabalhadoras passam a ser, também, as mesmas alegrias e as esperanças, as mesmas tristezas e angústias do padre Jardim Gonçalves.

Desde que o cardeal Cerejeira o puxara para Lisboa e lhe pedira que se ocupasse de movimentos da Ação Católica, entre quatro décadas, durante seis anos deteve-se na paróquia de Alfornelos (1984-1990). Coincidindo com metade do tempo deste período, ainda integrou a equipa do Boletim Diocesano Pastoral. Este é o tempo do reencontro do padre Jardim Gonçalves com o cardeal-patriarca D. António Ribeiro, conhecidos desde as vivências na Casa da Rua Vale do Pereiro.

Encontrei o padre Jardim Gonçalves já ele percorrera caminho longo, experiências iluminadas por causas a que se dedicou e o preenchiam, na alegria das luzes da cidade, aqui e além pontuadas por sombras e alguma solidão.

Em 1998, quando D. José Policarpo iniciou o pontificado como 16.º patriarca de Lisboa, o padre Jardim Gonçalves continuava ligado à Oikos, que dez anos antes ajudara a fundar.

O patriarca convida-o para ir trabalhar com ele diretamente.  Confia-lhe a chefia do seu Gabinete e a Direção do Departamento de Comunicação e Cultura.

“O patriarca convida-o para ir trabalhar com ele diretamente.  Confia-lhe a chefia do seu Gabinete e a Direção do Departamento de Comunicação e Cultura.” Foto retirada do vídeo de uma entrevista (II Parte) da jornalista Judite de Sousa a D. José Policarpo (1998-05-14)

 

Nessa altura distingui o padre Jardim Gonçalves, discreto e eficiente nos longos corredores de São Vicente de Fora, e logo no primeiro momento me apercebi da dimensão do Homem, da pessoa cativante que me recebia como jornalista.

Olhar vivo, ironia inteligente, pensamento fulgurante, sorriso amável, simplicidade desarmante, tudo isto servido pela mesma pessoa discreta, que se queria apagada. Porque, assim o entendia, apenas e só o patriarca devia brilhar!

Com a ação de uma década, o padre Jardim Gonçalves colocou o Patriarcado de Lisboa no mapa do mundo da comunicação, aberto à cidade dos Homens.

Edificou a estrutura de comunicação do Patriarcado até então inexistente. Promoveu encontros regulares do patriarca com atores representativos de diversos setores da sociedade portuguesa, da política à economia, da cultura, com escritores, artistas, músicos, jornalistas.

Impulsionou diálogos entre crentes e não crentes. Como foram os Diálogos sobre a Fé estabelecidos na forma de cartas trocadas entre D. José Policarpo e Eduardo Prado Coelho, publicadas nas páginas do Diário de Notícias (2003).

Pequenos momentos da vida da diocese, o padre Jardim soube torná-los maiores na forma como os transmitiu à comunicação social; do mesmo modo, as grandes iniciativas do Patriarcado ocuparam o espaço público, tornando a Igreja presente no mundo contemporâneo.

Como exemplo, recordo quatro momentos.

Fomentou ações de formação específicas para melhorar a capacitação de jornalistas sobre temas e realidades da Igreja Católica, que incluíram uma deslocação ao Vaticano (1999, na preparação do Jubileu do ano 2000).

Entre diversos debates e encontros no Patriarcado, no âmbito do diálogo Igreja / Cultura contemporânea, promoveu um seminário sobre Comunicação Social, com a presença de monsenhor John Patrik Foley, na altura, prefeito do Dicastério para a Comunicação, que, expressamente, se deslocou a Lisboa, para estar com jornalistas e atores culturais portugueses (2000).

Soube animar no espaço público a presença do Congresso Internacional sobre a Nova Evangelização (2003).

Empenhou-se na edição de Obras Escolhidas de D. José Policarpo publicadas, em 15 volumes, entre 2003 e 2013.

O pontificado de D. José Policarpo alcançou grande notoriedade entre a opinião pública, evidentemente, devido aos méritos pessoais do cardeal, mas também muito em virtude do trabalho realizado pelo padre Jardim Gonçalves, sobretudo, na promoção que fez da abertura do Patriarcado de Lisboa à sociedade.

O renome do patriarca extravasou fronteiras.

“O pontificado de D. José Policarpo alcançou grande notoriedade entre a opinião pública, evidentemente, devido aos méritos pessoais do cardeal, mas também muito em virtude do trabalho realizado pelo padre Jardim Gonçalves, sobretudo, na promoção que fez da abertura do Patriarcado de Lisboa à sociedade.” Foto © Patriarcado de Lisboa

 

Conta-se a história de que, durante o conclave da eleição do Papa Francisco, o cardeal Policarpo chegou a ser identificado na lista dos papabile, o que terá levado uma equipa da Televisão italiana a deslocar-se a Lisboa, para salvaguardar a possibilidade de entrar em direto do Mosteiro de São Vicente, na eventualidade de o patriarca de Lisboa ser eleito papa.

Tudo isto se deve ao trabalho incansável, extraordinário, notável, sempre discreto de um padre com grande amor à igreja.

Tem nome próprio – Jardim Gonçalves.

Que fez da sua vida um permanente serviço aos outros.

Depois de se reformar, até ao fim da vida, fez questão de continuar a pagar pontualmente as quotas ao Sindicato dos Jornalista.

Os jornalistas reformados ficam dispensados de pagar a quota ao sindicato. Jardim Gonçalves não se dispensou a fazê-lo.

Como algumas vezes me disse: “é preciso continuar a ajudar o sindicato”.

Padre, jornalista, formador de gerações da Acão Católica.

Espírito crítico, gostava sobretudo de dois papas – Paulo VI e, claro, de Francisco.

A ousadia e o risco nunca o desviaram um milímetro da comunhão, do grande amor e fidelidade à Igreja.

Por opção, pessoal, fez-se pobre e assim viveu, procurando sempre, como confidenciava a alguns amigos, “continuar o caminho de ser amigo de Nosso Senhor”.

Quem era, afinal, quem foi o padre Jardim Gonçalves?

Um apóstolo da Comunicação.

 

José António Santos é jornalista. Este texto incorpora o testemunho apresentado pelo autor na sessão evocativa, em 27 de janeiro de 2025, na Casa da Imprensa, em Lisboa.

(Foto de destaque:  Padre Jardim Gonçalves com o Papa Francisco. Foto: Direitos reservados. )

 

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