
José Alberto Lopes Costa. Foto: Direitos reservados
Era a última das suas “missões e paixões”: nos estabelecimentos prisionais de Lisboa e de Monsanto, José Alberto Lopes Costa ouvia histórias pesadas de violência, dava aulas para ajudar a reconstruir vidas. “E Deus sabe quantas sementes de bem, de esperança, ele colocou no coração daqueles homens numa situação difícil”, disse acerca dele e do seu papel de capelão prisional o cardeal Tolentino Mendonça, na homilia da missa celebrada ao final da tarde desta segunda-feira, 24 de Outubro. O diácono católico José Alberto Lopes Costa morreu neste domingo à noite em Lisboa. Tinha 72 anos. O funeral realiza-se nesta terça-feira: eucaristia de exéquias às 11h, de novo na Capela do Rato, após o que seguirá para o Cemitério dos Olivais.
O próprio recordava recentemente como ficara marcado pelas histórias de violência e sofrimento que ouvia a tantos reclusos, que lhe pediam para os escutar. E como estava disponível, apesar de trabalhar na prisão de máxima segurança do país, para escutar os detidos. E eles reconheciam-lhe o gesto, ansiando pelas suas visitas.
Nascido a 18 de Janeiro de 1950, na freguesia de Santos-o-Velho, em Lisboa, onde sempre viveu, Lopes Costa tinha sido ordenado diácono há apenas três anos, em Junho de 2019, depois do convite inicial feito precisamente pelo então capelão da Capela do Rato, José Tolentino Mendonça. Ordenado pelo cardeal-patriarca, foi Manuel Clemente que presidiu à missa de segunda-feira.
Num texto evocativo do seu trajecto pessoal e publicado na página da Capela do Rato, a sua esposa, Rita Ramalho Ortigão, recorda o percurso académico que passou pelo Liceu Camões, licenciatura no ISEG (Instituto Superior Economia e Gestão e doutoramento na Universidade da Estremadura (Espanha).
Com dois filhos e seis netos, teve uma vida profissional “intensa”, descreve ainda a sua companheira de 44 anos – casaram em Junho de 1978, na Capela do Rato, onde se tinham conhecido. Trabalhou em diferentes empresas, mas manteve, a par disso, actividade docente no ensino superior. “Viveu e trabalhou dando o máximo, sempre com boa disposição e alegria, traços da sua personalidade que o distinguiam.”
O cardeal Tolentino confirmou: “Por estas portas, ao longo dos anos, [José Alberto] viu entrar e acolheu tantas mulheres e tantos homens que nem tinham a ousadia de pedir nada”, afirmou. E, recordando o trecho do evangelho que acabara de ser lido, em que se conta como Jesus fez uma cura no sábado, coisa que era proibida, acrescentou: “A lei está ao serviço da salvação dos homens; isso é uma experiência concreta que, de uma forma muito simples o acolhimento, a inclusão, o abraço a todos permite, e que o José Alberto tinha como carisma natural.”
“Alegre, generoso, enérgico, decidido, pragmático, com tempo para tudo e para todos, e para aquele abraço e presença discreta que a amizade gratuita sabe cuidar e celebrar”, corrobora ainda um texto na página da Capela do Rato.
O seu percurso espiritual começou na paróquia do Sagrado Coração de Jesus e passou pelas Conferências de S. Vicente de Paulo no tempo da universidade. “Era o tempo do Papa João XXIII, figura que muito admirava, o lançamento do Concílio Vaticano II que acompanhou desde o seu início com muito interesse, as colónias de férias em S. Martinho”, recorda ainda o texto da sua mulher, já referido.
Aproximou-se depois da Capela do Rato, falava com entusiasmo “do padre Alberto Neto, do seu carisma e de muitas pessoas que por ali foram passando”, incluindo os vários capelães que se foram sucedendo. Ali acompanhou grupos de preparação para o crisma, de liturgia e vários serviços da comunidade.
Foi uma “ponte”, um “construtor de comunidade”, disse o cardeal Tolentino, na homilia. “Em cada pessoa que acolheu, mostrou a beleza concreta da Igreja” e como Deus se poderia imitar “na relação uns com os outros”. Foi, concluiu, um pai na comunidade, exercendo “a paternidade espiritual” e tocando a todos que com ele se cruzaram.









