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Juan Arias. Foto DR

1932 - 2024

Juan Arias, o vaticanista que acreditava no “outro Deus”

Juan Arias. Foto DR

Juan Arias entrou no diário espanhol El País em 1977, tendo sido correspondente em Roma e no Vaticano, criador do suplemento cultural Babelia e provedor do leitor. Foto: Direitos reservados

Jornalista, vaticanista, colunista e escritor, Juan Arias Martínez morreu na sexta-feira, dia 22, na sua casa, em Saquarema, Brasil, aos 92 anos, em consequência de uma insuficiência renal, noticiou o jornal El País, citando a mulher, a poeta Roseana Murray. O diário Folha de S. Paulo considerou-o como “o jornalista espanhol que conhecia a alma brasileira”.

Juan Arias entrou no diário espanhol El País em 1977, tendo sido correspondente em Roma e no Vaticano, criador do suplemento cultural Babelia e provedor do leitor. Em 1999, foi viver para o Brasil, onde, além de correspondente, teve um papel incontornável na edição digital do jornal em língua portuguesa. Juan Arias era agora cronista.

Tem inúmeras obras publicadas, sendo uma delas o resultado de uma conversa com José Saramago – José Saramago. O Amor Possível (D. Quixote, 2000). Um outro diálogo, com o filósofo Fernando Savater, também deu origem a um livro. Foi, todavia, aos temas religiosos que o ex-presbítero dedicou mais atenção. Juan Arias escreveu sobre Jesus, Maria, Maria Madalena e Rita de Cássia. As Paulinas editaram-lhe em 2011, com ilustração de Helena Alexandrino, Uma Carta para Deus (de um menino curioso).

Juan Arias foi, em Portugal, para alguns, sobretudo, o autor de O Deus em quem não creio, uma obra marcante, publicada há cerca de cinco décadas em Portugal pela Editorial Perpétuo Socorro.

Antes de aparecer em livro, O Deus em quem não creio, foi publicado no vespertino madrileno Pueblo, para o qual fez a cobertura do Concílio Vaticano II

Apresentando o que o autor considerou como “99 imagens falsas de Deus”, o livro, surgido nos “tempos duros da ditadura franquista”, escandalizou, tendo o então arcebispo de Madrid Casimiro Morcillo González repreendido o autor.

Décadas mais tarde, Juan Arias reconheceria que “as coisas mudaram bastante”, acredita “que continua viva em tantos corações a esperança em um Deus que não condene, um Deus da compaixão entendida etimologicamente: o Deus que sofre com o ser humano; o Deus do perdão, o Deus que ama nosso barro, nossas misérias, como as mães. O Deus que se interessa por nosso planeta Terra, por todos os deserdados do mundo; por todos os humilhados; por todos os diferentes”.

“Não é Deus quem está em crise”, escreve Juan Arias, considerando que o problema “são essas falsas imagens de Deus que temos misturado com nossa visão estreita do mistério, do divino, de uma fé estéril, incapaz já de mover montanhas”.

Afirmando a “sublimidade do amor”, Juan Arias crê que ao nosso mundo moderno falta essa possibilidade de “descansar na praia amável de um Deus diferente ao que sempre lhes tem sido apresentado”.

Quando pressentia que o fim estava a chegar, Juan Arias disse a Antonio Jiménez Barca, “com a lucidez, a sabedoria e a paciência de sempre, que não tinha direito de se queixar, porque tinha levado uma vida muito longa e muito feliz”.

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O Deus em que não creio
Juan Arias

Eu nunca acreditarei em:
Um Deus que “surpreenda” o homem em um pecado por fraqueza.
Um Deus que condene a matéria.
Um Deus que ame a dor.
Um Deus que acenda luz vermelha contra as alegrias humanas.
Um Deus mágico e feiticeiro.
Um Deus que se faça temer ou que não se deixe tratar por tu.
Um Deus que se torne monopólio de uma igreja, de uma raça, de uma cultura ou de uma casta.
Um Deus que se diverte, condenando.
Um Deus que “manda” para o inferno.
Um Deus incapaz de perdoar o que os homens condenam.
Um Deus incapaz de compreender que as crianças têm o direito de brincar e são esquecidas.
Um Deus que exija do homem que, para crer, renuncie a ser homem.
Um Deus a quem não temam os ricos a cuja porta jazem a fome e a miséria.
Um Deus ao qual adoram os que vão à Missa, mas continuam roubando e caluniando.
Um Deus que não saiba descobrir algo de sua bondade, de sua essência, lá onde vibre um amor, por mais equivocado que seja.
Um Deus que condene a sexualidade.
Um Deus para quem fosse o mesmo pecado comprazer-se com a vista de umas pernas bonitas e caluniar, roubar o próximo ou abusar do poder para prosperar.
Um Deus morfina para a reforma da Terra e somente esperança para a vida futura.
Um Deus dos que creem que amam Deus porque não amam ninguém.
Um Deus que aprove a guerra.
Um Deus daqueles que desejam que o padre abençoe com água-benta os sepulcros caiados de seus negócios desonestos.
Um Deus que negue ao homem a liberdade de pecar.
Um Deus a quem falte perdão para algum pecado.
Um Deus que aceitasse e concordasse com tudo o que os padres falam dele.
Um Deus que ponha a lei acima da consciência.
Um Deus que prefira a pureza ao amor.
Um Deus que não possa ser percebido nos olhos de uma criança ou de uma mulher bonita ou de uma mãe que chora.
Um Deus que se case com a política.
Um Deus que aniquilasse para sempre nossa carne em lugar de ressuscitá-la.
Um Deus que aceitasse por amigo quem passasse pela Terra sem ter feito ninguém feliz.
Um Deus que, ao abraçar o ser humano aqui na Terra, não soubesse lhe comunicar o gosto e a felicidade de todos os amores humanos juntos.
Um Deus que não se tivesse feito verdadeiramente homem com todas as suas consequências.
Um Deus no qual eu não possa esperar contra toda esperança. (…)
Sim, o meu Deus é… o outro Deus.

 

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