Laranjeiras em Atenas

| 14 Abr 19

Há Laranjeiras em Atenas, de Leonor Xavier (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2019) reúne um conjunto diversificado de textos, a um tempo divertidos e sérios, livro de memórias e de viagens, de anotações e comentários… O gosto e a surpresa têm a ver com pequenos pormenores, mas absolutamente marcantes. “Ah, há laranjeiras nas ruas de Atenas. De tronco alto e copa redonda, a cor de laranja a animar-lhes os frutos, talvez secos por dentro e exuberantes por fora, e afirmar a vida, mais ainda em tempo de tantas outras e desvairadas vidas perdidas, na desgraça destes nossos tempos”. Onde está a surpresa? Qual a chave deste delicioso pormenor? “A cabeça da gente é movimentada, o corpo e a alma andam por ela, feitos um só. E generosa é a nossa língua portuguesa no jeito de dizer”. É que em grego, como em diversas línguas do Mediterrâneo oriental, laranja diz-se “portokali”, exatamente porque os portugueses foram os primeiros a trazer no século XVI as laranjas doces da longínqua China…

Leonor Xavier surpreende-nos com este pequeno texto e com o título, para nos levar àquilo que recorda sobre David Mourão-Ferreira, criador da palavra “escreviver”, que vamos encontrando, a cada passo, neste pequeno livro, onde encontramos desde reflexões espirituais a deliciosas receitas culinárias. E Leonor diz-nos: “pois eu assim me sinto, a saborear a invenção e o conceito, a relembrar o meu entusiasmo exclamado em face das laranjeiras de maio em Atenas que agora vejo transformadas em livro”. Na dimensão memorialista, encontro um amigo comum, que tanta saudade nos deixa. Falo de António Alçada Baptista, de quem a autora diz: “no Brasil ele renascia, como se uma outra metade de si tivesse de descobrir. (…) Assim lhe conheci a leveza do espírito, a graça e o humor, a fluência, a habilidade na picardia, o sucesso com as mulheres. O entendimento de um mundo oposto aos rigores europeus da sua matriz intelectual. Dizia que a ida dos portugueses ao Brasil deveria ser gratuita e obrigatória”. E com que gosto Leonor nos faz reencontrar velhos e bons amigos…

Estamos perante um livro pleno de pessoas vivas, próximas, de carne e osso e espírito aberto… Teresa Belo – a sua alegria “era boa de sentir, contagiava o jeito que tinha no claro saber que fazia das complicações simplicidade”. E Ruy Belo, a caminho da Arrábida, diz: “A paisagem está ao meu lado”. Em pano de fundo estão os versos ditos por David, as sequências gregas do padre Manuel Antunes e as “viagens de estudo e criatividade” com Lindley Cintra, a ler poemas de Sebastião da Gama ou trechos de Fernão Lopes, na “glória das palavras pronunciadas”. Ana Vicente “era a expressão de fé que conheci nos seus gestos, no seu recolhimento em modo de espiritualidade pura”. Jorge Salavisa ensinava que “o meu refúgio é a minha casa (…) As casas para mim têm de ser arrumadas, limpas…”. A amizade de Marci Dória era um sinal de serena devoção. Jorge Amado está presente com a sua filha Paloma numa história comovente. Outro amigo comum, Eduardo Prado Coelho, é recordado, e é sobre ele que uma das netas de Leonor invoca Malala: “houve uma altura em que as mulheres ativistas pediam aos homens para defender os seus direitos e lutar por elas. Agora fazemo-lo nós próprias”…

A propósito de uma das pontes Lisboa-Porto do CNC, sobre Álvaro Siza Vieira, é lembrada com grande afeição a capacidade fantástica da Helena Vaz da Silva para fazer da cultura uma realidade viva. Carlos Drummond de Andrade resume o Rio de Janeiro: “amanhece como em qualquer lugar do mundo. Mas parece que as coisas se amaram durante a noite”. E Nélida Piñon lembra que “a morte é simplesmente deixar a sopa esfriar na mesa, cruzar a porta do jardim sem olhar para trás para dizer adeus a quem fica a tomar um caminho que não sabe por onde o leva e do qual nunca mais se retorna”. Ou João Cabral, na magistral “Morte e Vida Severina”, pergunta: “E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa morte foi morrida ou matada?”. E vem à memória Agostinho da Silva – “o Mestre não desistia de sonhar. Propunha e desejava espaços livres e convívio, debate, reflexão sobre as questões mais urgentes, para o entendimento dos caminhos da sociedade”… As memórias multiplicam-se. Quantos amigos, familiares, próximos e distantes… Nas agendas, porém, vamos aumentando o número dos que faltam, e a quem gostaríamos agora de falar, apenas para dizer que existimos. Mas Leonor Xavier não esquece ainda, a propósito de um livro inolvidável de Ondjaki, os transparentes – “os outros, aqueles que em total anonimato se movem nas cidades. Os outros, que quase sempre são tratados como objetos, os fornecedores, os funcionários, as vendedoras das lojas, os que contam água e luz, os da máquina registadora, os carregadores de móveis, os que entram e saem do metro, os que esperam na paragem de autocarro…”.

Mas a obra multiplica-se emreferências.Num exercício espiritual, Leonor lembra, ilustrando um tempo não muito distante: “a Igreja que conheci era austera, imponente, intolerante, radical, ausente presença da palavra de Jesus na prática dos dias. Os rituais eram demorados, as homilias longas, ameaçadoras e declamadas, os adereços aparatosos, os paramentos adornados de damascos, rendas, brocados”. E invoca-se o espírito do Concílio Vaticano II que se foi afirmando, força da pura sabedoria expressa na abertura de espírito do padre Manuel Antunes, entre o génio grego e o génio romano, na manifestação do sentimento místico, da expressão da arte, da espiritualidade e do encontro ente fé e razão. E não se esquecem as lições de História do Cristianismo do padre Honorato Rosa. Na chegada ao Brasil da autora, fervilham a teologia da libertação e a sua crítica, há tensão, crítica serena. E depois desse tempo, invoca-se Frei Bento Domingues, lembra-se o padre José Tolentino Mendonça na missa de Hermínio Monteiro e a sua dedicatória na tese de doutoramento, sobre a mulher pecadora no Evangelho de Lucas – “A todos os que, um dia, choraram aos pés de Jesus”. E entre mil papelinhos a autora descobre esta frase do Papa Francisco: “o mal espalha-se onde faltam cristãos audazes”… De facto, como disse Cervantes, a estrada tem mais a ensinar-nos do que a estalagem. E esta ideia está subjacente ao livro, onde é evidente um diálogo intensíssimo entre a audácia do ser e a permanência do ficar. Daí a epígrafe de Agustina: “a grandeza do mundo não me tolhe, porque maior que tudo é a realidade de um coração que ama e sente”. E Jorge Martins lembra que uma obra de arte “é uma busca que pode ser mística ou artística”, é uma viagem, uma aventura de descoberta – e mesmo que saibamos onde queremos ir, às vezes não conseguimos chegar lá. 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

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