Será no próximo sábado, dia 4 de Outubro, que quem mora no Norte do país é convidado a juntar-se à equipa de Redacção do 7MARGENS para o segundo encontro de leitores e colaboradores do jornal. O encontro realiza-se a partir do meio-dia no Espaço da Porta, da comunidade dos Padres Redentoristas (Rua da Firmeza, 163), onde já fomos acolhidos no ano passado.
Tal como aconteceu no encontro de Lisboa, do passado dia 20 de Setembro, o debate inicial será sobre o tema da esperança, a partir de um texto que a realizadora Graça Castanheira escreveu no passado dia 8 de Junho no Público: “A esperança, ao contrário do imobilismo da queixa, da crítica e do desalento, é (afinal) uma forma de activismo.”
Havendo já leitores inscritos, queremos que haja a maior participação possível nesta iniciativa que o 7MARGENS organiza presencialmente pelo terceiro ano consecutivo, sempre em edição dupla – em Lisboa e no Norte do país. Quem está interessado(a) em participar – e esperamos que sejam muitas pessoas – pedimos que envie uma mensagem para setemargens@setemargens.com, indicando o nome.
Os leitores têm sido, desde o primeiro momento, um património fundamental deste projecto: foram eles que ajudaram a pensar e construir o 7MARGENS e têm sido os(as) leitores(as) a suportá-lo financeiramente na sua quase totalidade. Por isso gostaríamos muito de ter a participação do maior número possível de pessoas.
No artigo referido, a cineasta questiona o facto de alguém que “alimenta uma esperança terrena não concretizada” ser visto muitas vezes “como imprudente” e confrontado “com o seu insucesso”. E recorre a Søren Kierkegaard, o filósofo dinamarquês cristão, considerado o primeiro existencialista, para sugerir que “ter esperança é comportarmo-nos como se aquilo que desejamos que aconteça tivesse uma boa hipótese de acontecer – com a esperança alarga-se o passo e somos ousados”.
O texto – que reproduzimos, com autorização da autora, no final desta notícia – será assim uma forma de iluminar a reflexão sobre estes tempos sombrios que vivemos, atravessados por guerras, emergência climática, crescimentos da xenofobia e ódio à diferença, bem como pelo crescimento do desrespeito dos direitos humanos.
Prioridades para 2026

Alguns dos participantes no encontro do 7MARGENS no Porto, em Outubro do ano passado: sábado voltaremos ao Espaço da Porta, dos Padres Redentoristas. Foto © António Marujo
Como já referimos em anterior notícia, não pretendemos, desse modo, convidar à despreocupação ingénua mas, antes, assumir o enorme desafio à capacidade de habitar naquilo em que se acredita e defender a possibilidade de construir uma realidade diferente para melhor – precisamente na linha do que sugere Graça Castanheira.
Como ficou dito, o encontro inicia-se às 12h00 e terminará pouco depois das 17h00. Por volta das 13h30 partilharemos o almoço com o que cada um(a) trouxer – de preferência, alimentos que não exijam louça ou talheres.
Antes de almoço, haverá a reflexão partilhada sobre o tema da esperança. Depois da refeição, o centro do debate será um olhar crítico sobre o percurso recente do 7MARGENS. Em análise estarão os avanços conseguidos nas notícias, opiniões e reportagens publicadas ao longo do último ano, bem como as ausências e carências mais significativas de conteúdos e iniciativas que poderiam projectar o jornal junto de outros públicos e tornar a sua leitura mais interessante para todos.
Neste âmbito, haverá também notícias e ocasião para sugestões sobre os três círculos de discussão formados por leitores do 7MARGENS (não-violência, democracia e sínodo) e ainda sobre a iniciativa de dar voz às crianças, desenvolvida pela primeira vez no passado dia 1 de Junho, e à qual pretendemos dar regularidade. As prioridades para 2026 e o próximo futuro estarão também no centro do debate.
Sobre a esperança
Texto de Graça Castanheira

Fotografia © Joaquim Félix
Uma pessoa que alimenta uma esperança terrena não concretizada é muitas vezes vista como imprudente e é mesmo confrontada com o seu insucesso
Desde a tomada de posse de Trump em Janeiro passado, que amigos e conhecidos me fazem o mesmo tipo de perguntas. Querem saber como andam os meus níveis de esperança, a minha fé na humanidade. A 19 de maio recebi este SMS: “Então, continuas a achar que somos uma espécie com piada?” Tendo a responder com monossílabos, os suficientes para garantir que o meu edifício moral se encontra intacto. Mas vontade de encontrar respostas convincentes não me falta – e aqui se segue uma tentativa.
Tanto a esperança como as perguntas que me fazem foram pensadas por Kierkegaard, já no século XIX. Este filósofo dinamarquês considera que “a vida inteira de uma pessoa deve ser o tempo da esperança”. E define-a como uma relação expectante com a possibilidade do bem e daí não condicionada a qualquer expetativa temporal. Se a esperança pertence às possibilidades infinitas do bem futuro, pertence, por inerência, à ordem do eterno. Kierkegaard também assinala que a esperança é muitas vezes indevidamente cobrada a quem a sente: uma pessoa que alimenta uma esperança terrena não concretizada é muitas vezes vista como imprudente e é mesmo confrontada com o seu insucesso, para assim ficar claro que terá errado. Kierkegaard opõe-se ao exercício desta “sagacidade” que julga a esperança apenas em relação à sua concretização. Em vez disso, propõe que se dê importância ao valor dos fins esperados. Em certa medida, a esperança eterna nunca calcula mal, mesmo e ainda que falhe a concretização do desejado. Por outras palavras: o progresso não é linear e a esperança não tem prazo de validade.
Talvez possa responder aos meus amigos com esta frase, mas acumularam-se tantas razões para a desesperança, desde janeiro até hoje, que não creio que baste – é necessária mais evidência filosófica. Pode valer a pena revisitar a corrente meliorista, central na filosofia pragmatista, que, em pleno século XX, sugere que a vida pode melhorar se o esforço humano for orientado nesse sentido – daí o nome, do latim melior, “melhor”. Os melhoristas acreditam que existe suficiente bondade na vida e nas suas condições, para que, através do pensamento, da inteligência e do esforço sincero, seja possível melhorar o mundo. Assim, o objeto de esperança maior do meliorismo, é, antes de tudo, a democracia, uma vez que esta materializa a ideia de que o progresso político e ético depende do agenciamento, dos valores, ações e comportamentos de cada cidadão.
E para os melhoristas, de forma muito concreta e pragmática, ter esperança é comportarmo-nos como se aquilo que desejamos que aconteça tivesse uma boa hipótese de acontecer – com a esperança alarga-se o passo e somos ousados. Quando, pelo contrário, sentimos receio, encurtamos o passo, protegemo-nos, somos cautos e tolhidos. Há um comportamento, uma prática, que decorre da esperança; há um modo de ser e de agir. É neste sentido que alguns filósofos melhoristas sugerem que existe na esperança a possibilidade de um otimismo militante, que passa por uma dedicação intrínseca de energia às atividades projetivas. A esperança, ao contrário do imobilismo da queixa, da crítica e do desalento, é (afinal) uma forma de ativismo.
A chegada de uma mundividência moderna, que vê a história como contingente e entende o futuro como um espaço para potenciais mudanças, altera o significado da esperança, levando os melhoristas a considerar que, “enquanto forma de antecipação livre e orientada para o futuro, a esperança é o mais humano de todos os afetos”. Subscrevo estas reflexões do meliorismo. Espero que os meus amigos também.
(O artigo de Graça Castanheira é o resumo da palestra “Sobre a esperança”, promovida pela Associação Beatriz Ângelo, sediada na Universidade do Porto.)










