
O monge Carlos Maria Antunes vive no Mosteiro Cisterciense de Santa Maria do Sobrado, depois de década e meia como padre numa paróquia da diocese de Santarém. Possivelmente esta migração estará associada à condição de pessoas que vivem a busca permanente e poderá ser a raiz do seu novo livro Oh noite que guiaste!(1).
Talvez tenhamos de separar as águas quanto aos sentidos da palavra “busca”; ou evidenciar a contradição das buscas pessoais e societais que caraterizam o tempo presente, geralmente associadas ao bem-estar e muito pouco ao estar bem.
A busca de Carlos Maria está, decerto, noutra dimensão do Ser, num caminho interior pelas veredas e margens do seu âmago, naquele pequeno/grande lugar onde Deus estará sentado na beira do caminho, na sua eterna atitude de espera por cada pessoa.
Não será por acaso que Carlos Maria apela à palavra de Thomas Merton e de S. Bernardo de Claraval, ou que o título nos encaminha para S. Juan de la Cruz.Entramos na noite, na busca quando a noite nos toca mais do que “la alborada”.
Todavia, se quisermos, podemos seguir pelo lado da poesia, com a palavra, o pensamento e a inquietação de Daniel Faria, Sophia Andresen, Florbela Espanca e muitos outros e outras que levaram a sua busca ao extremo de si.
Cometerei a ousadia de trazer aqui José Mário Branco:
“E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar?
Partir e aí nessa viagem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar…”
Talvez que a improbabilidade de ser feliz, sentida por J.M. Branco, rime com “la inhospitalidad” de Frei Carlos Maria.
Não sabemos, mas talvez que, ao arrepio do tempo presente, Carlos Maria apele, nas palavras que não escreve, ao esforço intrínseco que cada pessoa deve/deverá fazer para se encontrar a si mesmo, no seu âmago. Teremos a noite como bordão de peregrino para tactear os escolhos e os meandros das curvas, empurrando-nos para a luz interior. Será por acaso que a Ressurreição aconteceu no momento “noite”?
Este caminho que Carlos Maria nos propõe, esta busca da verdade em si mesmo, tendo a noite como fio de Ariane, levar-nos-á à possibilidade da contemplação, tendo como condição imprescindível e imperiosa a necessidade de dar tempo ao tempo. Ou de dar tempo à luz. Afinal vemos tanto na noite escura como no dia claro. Apenas nos faltará a luz… Ou o engano de fugirmos a sete pés dos encontros connosco mesmos (e vivam os antidepressivos !!!…).
Vamos usar essa noite mística que Frei Carlos Maria nos oferece para as nossas interrogações interiores ? Talvez por aí, aprendamos a gostar das nossas cicatrizes, a tocar-lhes, a aceitar as nossas vulnerabilidades para que seja a noite a dar sentido à madrugada.
Encontrar o Sagrado em nós?
Sim, para Frei Carlos Maria é possível e necessário.
Ousemos transgredir!
Os Evangelhos estão repletos de atos de transgressão, de momentos em que se desafiaram as leis e os dogmas, levando a processos de salvação. Atos de transgressão que se originaram a partir de situações-limite…
Por tudo isto, urge arriscar a noite que guia Carlos Maria, mas de luzes apagadas, silenciosa, pela escuta do coração, inclinando esse terceiro ouvido que bem pouco usamos…
Talvez que Carlos Maria também nos queira dizer que a nossa presença/ação neste mundo tonto e desordenado é diretamente proporcional ao modo como habitamos o nosso coração. Ou que tenhamos de cuidar da qualidade do nosso espaço interior, cuidar do modo como nos habitamos porque isso levar-nos-á à maior atenção e cuidado pelo outro.
Júlio Ricardo é professor do 1º ciclo e faz parte da Fraternidade de Leigos do Mosteiro de Armenteira.
NR. O 7MARGENS já havia publicado um texto de Teresa Vasconcelos sobre sobre o mesmo livro
Título: Oh noite que guiaste!
Da inospitalidade ao encontro
Autor: Carlos Maria Antunes
Editora: Paulinas
A edição castelhana é da Editorial SalTerrae.










