Luís Moita: a relação, o humanismo, a promessa a Abraão, o desejo e um livro

| 21 Jul 19 | Destaques, Newsletter, Sociedade, Sociedade - homepage, Últimas

Luís Moita no uso da palavra; na mesa, Brígida Brito, que fez a saudação inicial. Fotos © Departamento de Comunicação da UAL

 

E se invertermos a lógica do eu + tu = nós? Luís Moita, professor da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), fez a pergunta no início da sua “última lição”. Tratou-se, à beira de completar 80 anos, de um “momento simbólico”, como o designou, já que continuará a dar esporadicamente algumas aulas e a acompanhar projectos de investigação. E desvendou aquele que seria o tema do “livro razoável” que gostaria de escrever.

A sessão no átrio da UAL, versou sobre “o conceito de relação” e decorreu perante várias centenas de convidados, amigos e outras pessoas da academia, da política e da cultura. Entre eles, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, a presidente do Conselho Nacional de Educação, Maria Emília Brederode Santos e os deputados José Manuel Pureza e Helena Roseta, alguns dos presentes que o académico fez questão de saudar, apesar de preferir conseguir dirigir-se “individualmente” a cada pessoa.

“Até posso inverter a lógica: o nós é igual ao eu + tu. Há uma anterioridade do plural sobre o singular: antes de sermos indivíduos, somos participantes de uma comunidade que nos faz ser nós próprios”, disse Luís Moita, dirigindo-se aos que o escutavam. “A minha convicção é sobretudo esta: que nós existimos uns por causa dos outros. É o tecido das nossas relações que nos constitui como pessoas.”

Na sua intervenção dia 11 de Julho, feita de forma descontraída e deslocando-se na frente da plateia, como se de uma aula se tratasse, o antigo vice-reitor da UAL fez um percurso por várias áreas do saber e do pensamento: “A ideia de relação é um conceito chave, que pode atravessar todos os nossos campos de saber, desde as partículas subatómicas ao sistema internacional e à humanidade no seu conjunto.” E retirou dessa afirmação a sua “moral da história: a realidade é relacional, o frágil dá consistência aquilo que parece forte”.

O académico recordou os lugares por onde passou: Externato Ramalho Ortigão, nas Caldas da Rainha, Seminário Maior dos Olivais, Instituto Superior de Serviço Social, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, ISCTE, Instituto de Altos Estudos da Força Aérea, Instituto de Estudos Superiores Militares (agora Instituto Universitário Militar) e UAL, onde lecciona desde 1988. Também, e esporadicamente, Barcelona, Madrid, Génova, Turim, Roma, Buenos Aires, São Paulo, Luanda e Díli. “Quando me tratam por professor, não reconheço um título, mas uma identidade”, afirmou.

Foi esse também o perfil que a antiga aluna de Luís Moita e agora docente da UAL e membro da direcção do Observare – Observatório de Relações Exteriores, Brígida Brito, recordou na sua intervenção inicial: a característica que melhor define o seu ex-professor é o “humanismo”, disse, pela sua “grande capacidade de aceitação e tolerância”. E acrescentou: “Todos o respeitamos pelo seu carácter, pela forma ímpar de entender a pedagogia, pelo trabalho académico e científico que tem vindo a desenvolver e através do qual nos ensinou que o caminho se faz caminhando.”

Brígida Brito recordou a “extrema capacidade” de Luís Moita para “ouvir e compreender, negociar e ceder”, bem como o seu “enorme sorriso” quando chegava a cada aula, “cumprimentando com grande cordialidade e uma atitude informal e leve” que “cativou de imediato” os alunos.

 

“Se alguma vez escrevesse um livro…”

Uma última lição ao ar livre, no átrio de entrada da Universidade Autónoma, em pleno centro de Lisboa. Foto © Departamento de Comunicação da UAL

“A seriedade desta convicção é a grande questão da ética, da nossa responsabilidade moral: assumirmos e levarmos a sério esta cumplicidade, a reciprocidade relacional que une os nossos destinos”, diria momentos depois o professor, quase que dialogando com o que dele dissera a antiga aluna.

Luís Moita responderia, aliás, sempre a propósito da relação, que também ele foi “aprendendo muito na actividade docente: passei pela história e pela filosofia, pela teologia e pela ética, pela epistemologia e pela sociologia, trabalhei sobre o sagrado e o profano, o civil e o militar, o individual e o colectivo”. Aprendeu ainda “muita coisa sobre o nosso corpo como lugar da interacção que nos é permitida, o nosso olhar recíproco provavelmente como o mais rudimentar modo de relação mútua”. E indicou: “Se alguma vez conseguisse escrever um livro razoável, seria sobre o tema do olhar humano, a sua enorme capacidade de expressão…”

Outra descoberta “luminosa” foi a da necessidade de “remontar da ética da obrigação para a ética do desejo – palavra mágica, bem mais importante que o vínculo ou a obrigação perante uma norma”. Desejo que, recordou, está plasmada também na tradição judaico-cristã: “Antes da lei atribuída a Moisés, que impõe a obrigação face ao mandamento, há a promessa feita a Abraão, que desencadeia a esperança; o binómio promessa-esperança é anterior ao binómio norma-obrigação.”

“Deus é também na sua essência relacional”, acrescentou, ainda sobre o modo como o conceito de relação pode ser lido na tradição cristã, já que a noção de Trindade supõe que “cada uma das entidades que compõem o nosso Deus só o é em relação”.

De resto, na viagem por alguns diferentes campos do saber e das ideias, referiu que as sociedades pré-industriais estão baseadas numa relação de parentesco alargada, “que se projecta no próprio processo produtivo”; que para Karl Marx as relações sociais de produção são “a estrutura basilar das nossas sociedades”; que as sociedades contemporâneas se caracterizam pela ideia da rede; e que a própria física quântica acaba por mostrar que “a matéria é relacional”.

 

“Uma coisa frágil…”

“Pensar é interiorizar uma linguagem de partilha, um código de significados que nos é comum”, definiu o professor da Autónoma, para perguntar: “O que é primeiro: a essência ou a relação? E se a relação fosse anterior à própria substância, se fosse a relação que desse consistência às coisas na sua própria natureza?”

“A relação é sempre uma coisa frágil, é um vaivém, é um fluxo”, respondeu. “Pode-se perder, pode-se degradar e, não obstante a sua fragilidade, é ela que dá consistência às coisas e, portanto, a nós próprios, como seres que vivemos em relação. À conta de estabelecermos relação entre nós, estamo-nos a construir.”

Claro que, admitiu, há o reverso de toda esta medalha, “que é a possibilidade de nos destruirmos, terrível e inquietante para os nosso destinos. A propósito citou dois textos de Jean-Paul Sartre, quando coloca as personagens da sua peça Huis Clos(“À porta fechada”) a perceberem que, enquanto esperam sem se saber bem o quê, o seu castigo é estarem juntos uns com os outros, com a conclusão dessa frase “terrível e perturbadora: o inferno são os outros”.

O também antigo dirigente (entre 1974 e 1989) do Cidac (organização não-governamental de cooperação para o desenvolvimento) referiu ainda o campo das relações internacionais, “onde subitamente o perímetro da situação se alarga” à humanidade inteira, passando ao “registo duro, do poder, do uso da violência”. O actual sistema de relações internacionais manifesta “tão grandes distorções, tantas descontinuidades na relação, que é difícil sermos conformistas em relação a ele”, disse, concretizando com as “dissociações entre o económico e o social, entre a justiça e a liberdade, entre a humanidade e a bio-esfera, aquela que de momento parece ser a mais dramática”.

“O tratamento do processo de todas as relações internacionais, não é pensável se não for um processo de humanização, onde nos construímos reciprocamente e tentar não nos destruirmos uns aos outros, agora em grande escala”, concluiu.

Melhor: a conclusão seria em forma de agradecimento, ainda e sempre sobre a relação: “Vou terminar com um obrigado, que não é só um remate, é uma expressão da minha gratidão pelos que me ouvem, porque esta minha convicção de que se existo agora como pessoa e não como ser inanimado, é porque vocês escutam, com cordialidade e com interacção, mesmo que pareça passiva. Mas eu sei que não está a ser, e por isso concluo, agora com outra densidade, dizendo: obrigado!”

 

(Os 39 minutos do áudio completo da sessão podem ser ouvidos ou descarregados em podcast neste endereço da página da UAL na internet.)

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