Mais para lá da música: Gen Verde inicia em Braga digressão portuguesa

| 27 Abr 19

Fotografias © Gen Verde

A segunda música é como que um emblema do disco e da banda: vinte jovens mulheres em palco, oriundas de 15 nacionalidades diferentes (a que se juntam 150 jovens para cantar, dançar, fazer teatro e tocar percussão, depois de prepararem essa participação numa oficina de quatro dias) só poderiam fazer esta música assim: Terra de Paz/A Nossa Terra Comum é o título, nas versões castelhana e inglesa.

O tema foi composto pela norte-americana Nancy Uelmen e pela mexicana Jamaica C. Lyra, que integram o Gen Verde, grupo musical internacional composto apenas por mulheres, do Movimento dos Focolares. “Ao escrevermos juntas esta canção, inspirada também nos nossos amigos que nos dois lados da fronteira do México e EUA procuram caminhar em paz todos os dias, queríamos compartilhar a nossa experiência de como as coisas podem ser diferentes. Esperamos que esta música seja mais um passo nesta jornada em direcção à compreensão recíproca.”

A música começa por uma afirmação lapalissiana: “Aqui no deserto, de cada lado da fronteira, acordamos com a mesma beleza das montanhas” e com “o mesmo rio que corre”… O vídeo seguinte, gravado no GenFest de Julho do ano passado, em Manila, Filipinas (o GenFest é um festival que reúne membros dos Focolares de uma região ou país), e aqui pode ouvir-se e ver a execução da música ao vivo:

Neste sábado à noite, o Gen Verde inicia uma nova digressão em Portugal, no Altice Forum, em Braga, às 21h, para apresentar o último disco From the Inside Outside  (De dentro para fora). Seguem-se Santa Maria da Feira (Europarque, 4 de Maio), Fátima (Centro Pastoral Paulo VI, 10 de Maio), Manique do Estoril (Colégio Salesiano, 17 de Maio), Évora (Arena, 25 de Maio) e Faro (Teatro das Figuras, 30 de Maio).

 

Oficina criativa com 150 jovens artistas

Os concertos, no entanto, são apenas a face mais visível da digressão: nos dias que precedem o espectáculo, as vinte artistas da banda fazem uma oficina criativa com cerca de centena e meia de jovens das escolas de cada região onde se apresentam em palco. Dança, teatro, percussão e canto são as áreas de trabalho desses dias, que culminam com a apresentação conjunta em palco (em Faro, será apenas a banda a apresentar-se).

Por detrás do trabalho artístico, há outros objectivos, como explica António Oliveira, dos Focolares, que acompanha a digressão do Gen Verde: ajudar os mais novos a descobrir-se melhor no seu interior, potenciando a sua auto-estima e consolidando competência sociais. Ao mesmo tempo, trabalha-se o reconhecimento da “violência nas relações diárias, em fenómenos como o bullying, o mobbing, a marginalização, o medo e a intolerância”, procurando treinar as reacções conscientes “contra todas as formas de exclusão social, procurando, em alternativa, desenvolver atitudes de cidadania, solidariedade, para resolver os conflitos que se enfrentam diariamente”.

A música é, aqui, o pretexto, o factor de unidade de vários outros elementos e o veículo para as mensagens que os focolares pretendem passar: além da questão das migrações e dos refugiados a que alude a faixa já citado, as canções deste novo projecto falam do racismo, do bullying, do perdão, da desesperança ou das dependências a que tantas pessoas se entregam. A música, que entra rapidamente no ouvido, alia o pop-rock, o electrónico ou o pop coreano ou os ritmos latinos, traduzindo nas melodias várias das origens geográficas da banda.

 

“Uma injecção de esperança”

Foto extraída de um vídeo do Gen Verde

 

Cantadas nas cinco línguas faladas no grupo – inglês, espanhol, italiano, português e coreano –, as músicas recolhem a experiência do disco e da digressão anteriores (On the Other Side) e do contacto com os jovens de de muitos países asiáticos e europeus: “Ficaram no nosso coração as suas belezas e os seus talentos, mas também as suas vulnerabilidades: os medos do futuro, dependências e inseguranças, a falta de autoestima. Na realidade, hoje todos nós precisamos de uma injecção de esperança. Assim, desta vez, quisemos concentrar-nos na descoberta da força que cada pessoa traz consigo, no grande potencial que cada um de nós possui para acender a luz que traz dentro de si e sair de nós mesmos para fora, para construir a paz”, diz Nancy Uelmen, numa entrevista a propósito do disco.

O Gen Verde começou na década de 1960, com uma bateria verde oferecida por Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, para que através da música as jovens pudessem partilhar experiências e reconstruir vidas por vezes desestruturadas. O percurso da banda em mais de 50 anos é de renovação permanente – quer das artistas que a integram, quer da música que compõe e gravam, que responde aos estilos de cada momento e também às intuições musicais das suas integrantes. Tal como acontece com a banda “irmã”, o Gen Rosso, composta por músicos homens.

Criado em 1943 em Trento (Itália) por um grupo de jovens católicas (entre as quais a fundadora Chiara Lubich), que se dedicaram a apoiar vítimas da guerra, o movimento dos Focolares centra-se na promoção das ideias do diálogo e da comunhão. Daí o seu carácter ecuménico e inter-religioso que, apesar da matriz católica, permite que nele se integrem cristãos de outras confissões e, mesmo, crentes de diferentes religiões. Presente em quase todo o mundo, o movimento chegou a Portugal em 1966.

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