
Um antigo mangal perto de Labuan Bajo (ilha das Flores, Indonésia), com lixo e um pequeno cais para turistas. Foto: Direitos reservados
“Até há cerca de duas décadas, só tínhamos de nos afastar alguns metros da costa para encher os nossos barcos”, conta Saing Basri, pescador da ilha indonésia das Flores, a propósito do seu trabalho. A captura incluía uma variedade de peixes, lulas e camarões. Mas actualmente, a vida de Saing e dos pescadores da ilha tem-se tornado cada vez mais difícil devido às mudanças climáticas e à consequente redução nas capturas de peixe.
Numa reportagem publicada pela UCANews, Saing Basri, 48 anos, recorda com nostalgia esse tempo da pesca abundante e fácil, com barcos quase sempre carregados. Mas também lembra como essa relação com o mar, que vai além da actividade económica, se traduzia numa dimensão cultural e espiritual, que tinha tradução em rituais anuais de agradecimento ao mar.
A vida da comunidade piscatória, maioritariamente católica nas Flores, está muito ligada ao mar, conta a reportagem. E todos os anos, em Maio, no início da época alta da pesca, havia um ritual de oferecer ovos de galinha e folhas de bétel. “É uma forma de agradecimento ao universo, que nos dá a vida”, explica Basri.
“Os agricultores das zonas montanhosas visitam o mercado de Labuan Bajo todas as quartas-feiras para vender os seus produtos e comprar marisco aos pescadores. Estes penduravam o pescado em frente das suas casas para as pessoas das montanhas o poderem ver e comprar, lembra. “Agora são apenas recordações, porque as condições climatéricas extremas mudaram tudo.”
A estação seca, entre Abril e Setembro, antes calma e ideal para a pesca, tem sido agora marcada por chuvas intensas, ventos fortes e ondas altas, que dificultam o trabalho no mar. Amigo de Saing Basri, o também pescador Abdul Salang, que antes pescava até uma tonelada de cavala em poucos dias, diz que hoje mal consegue dez peixes em alguns dias.
Também a chegada de pescadores de outras regiões, como Sulawesi, com equipamentos mais sofisticados, tem exacerbado a competição pela pesca, tornando a situação ainda mais difícil.
Alta taxa de pobreza

Pescadores a vender peixe em Labuan Bajo (ilha das Flores, Indonésia). Foto: Direitos reservados.
Esses problemas reflectem a realidade de cerca de 2,4 milhões de pescadores no país, muitos dos quais dependem da pesca tradicional para o sustento – a Indonésia tem 17.504 ilhas e 108.000 quilómetros de costa.
A emergência climática é um factor decisivo desta situação, pois o aumento da temperatura do mar tem provocado danos graves aos recifes de coral e às florestas de mangue, os habitats de muitas espécies de peixe.
Os dados, recorda ainda a UCANews, dizem que há uma queda significativa no número de pescadores na Indonésia, com uma redução de 15% nos últimos dez anos. A taxa de pobreza nas comunidades pesqueiras continua alta, com cerca de 25% da população vivendo abaixo da linha da pobreza, bem acima da média nacional. A diminuição das capturas e as condições climáticas adversas também têm afectado a economia nacional, já que a pesca é responsável por uma contribuição significativa para o Produto Interno Bruto da Indonésia e para a segurança alimentar do país.
O Governo e várias organizações locais têm tentado ajudar os pescadores, através de acções de formação para adaptação às novas condições: aplicações com as previsões meteorológicas e parcerias com empresários para a venda de peixe são algumas das mudanças. Mas, apesar disso, muitos continuam a abandonar a profissão devido à falta de alternativas viáveis. Umar Ilias Husen, por exemplo, transformou o seu barco numa atracção turística no Parque Nacional de Komodo, mas também aí há as dificuldades de um mercado competitivo e de uma procura irregular desses serviços.









