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Entre Margens

A regra de ouro

| 29/07/2025

 

Quando há dias li a notícia da oposição de muitas pessoas à construção (já autorizada pelas autoridades competentes) de uma igreja cristã numa localidade da Indonésia, não pude deixar de associar essa notícias às que entre nós relatam a oposição à construção de mesquitas, como a que está projetada para Samora Correia.

Recebo regularmente notícias de perseguições aos cristãos em todo o mundo, que fazem das suas comunidades as que mais sofrem todos os tipos de violações da liberdade religiosa, facto que a muitos responsáveis políticos passa quase despercebido. Denunciam essas perseguições organizações como a católica Fundação Ajuda à Igreja que Sofre e a evangélica Open Doors.

Mas também a muitos desses responsáveis políticos passa despercebida a perseguição que o governo chinês tem movido ao povo uigure, uma perseguição motivada pela adesão desse povo à religião muçulmana.

Vem a propósito destas notícias a evocação da bem conhecida “regra de ouro”, assinalada em quase todas as religiões e verdadeira marca da sabedoria universal: «não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti». Uma regra que Jesus Cristo e os seus Evangelhos (Mt 7, 12 e Lc 6,31) formulam na sua versão positiva: «Faz aos outros o que gostarias que te fizesse, a ti». Aplicada tal regra à questão da liberdade religiosa, diremos: «respeita a liberdade da religião do outro e da sua comunidade como gostarias que respeitassem a liberdade da religião que tu e a tua comunidade professam».

Nesse sentido, afirmou o Papa Francisco na sua encíclica Fratelli tutti (n. 272): «Como cristãos, pedimos que, nos países onde somos minoria, nos seja garantida a liberdade, tal como nós a favorecemos para aqueles que não são cristãos onde eles são minoria».

Devo dizer que a minha experiência de participação na Comissão de Liberdade Religiosa como representante da Igreja Católica permite-me testemunhar que nela se vive essa “regra de ouro”, que cada um dos seus membros representantes de comunidades religiosas valoriza a liberdade da sua comunidade como valoriza a liberdade de outras comunidades religiosas.

Protestos de cristãos na Indonésia. Foto © Site Persecution.org

A propósito da liberdade de construção de mesquitas em países de tradição cristã, há quem invoque o facto de a liberdade de construção de igrejas não ser respeitada em países de tradição islâmica (como a Arábia Saudita). Há quem invoque, por isso, uma condição de reciprocidade. Mas essa condição de reciprocidade seria, na verdade, contrária à “regra de ouro”, a qual rejeita a vingança, leva a não responder ao mal com o mal, mas a responder ao mal com o bem (como exorta São Paulo na sua Carta aos Romanos 12. 21).

Tal não significa ignorar que a perseguição aos cristãos (na Nigéria, na Síria ou em Moçambique) é muitas vezes motivada pela adesão a uma visão intolerante do Islão. No Congresso norte-americano foi recentemente apresentada uma resolução que condena a perseguição aos cristãos precisamente nas zonas onde os muçulmanos são maioria (ver https://adfinternational.org/news/u-s-congress-introduces-resolution-condemning-the-persecution-of-christians).

Essa realidade não pode, porém, levar-nos a atribuir a todos os muçulmanos alguma responsabilidade a esse respeito.  Leva-nos, sim, a apoiar os responsáveis muçulmanos (como os que têm dirigido as comunidades muçulmanas presentes no nosso país) que rejeitam essa visão intolerante do Islão, respeitam a liberdade religiosa de todos e desse modo favorecem a integração dos seus membros imigrantes nas sociedades de acolhimento.

Na verdade, pretender a integração dos imigrantes de religião muçulmana nos países europeus de tradição cristã não pode implicar a pretensão de que reneguem a sua fé, o bem para muitos mais precioso; implica, sim, a pretensão de que respeitam a liberdade religiosa de todos.

Em tempos recuados, foi a liberdade religiosa associada ao relativismo, à ideia de que todas as religiões se equivalem, e a sua rejeição justificada pela defesa dos direitos da verdade contra o erro. Veio, porém, a declaração do Concílio Vaticano II Dignitatis Humanae, sobre liberdade religiosa, salientar, de forma lapidar que «a verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria forca, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte». Afirma também essa declaração que foi essa a postura de Jesus Cristo, dos apóstolos e das primeiras comunidades cristãs. Porque a resposta ao anúncio do amor de Deus deve ser uma resposta de amor e, portanto, uma resposta livre.

É por isso que respeitar a liberdade religiosa de todos e a ela aplicar a “regra de ouro” não sacrifica a verdade e não se confunde com o relativismo.

 

Pedro Vaz Patto é Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz. 

 

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