AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Pormenor da capa de uma das edições do livro em espanhol.

Livro de Jorge Gálan

Mártires da UCA: A Fé na Razão

| 26/05/2025

 

Em 2019, quando eu estava a trabalhar em Londres, ganhei o hábito de fazer o giro às livrarias que existem no centro da cidade, o que me levou a acumular no meu pequeno apartamento um número talvez pouco razoável de livros (veja-se muitos, e empilhados no chão porque estantes eram um desperdício de dinheiro que podia ser gasto em livros).

Foi assim que esbarrei com o November de Jorge Galán, numa livraria independente perto do British Museum. November na tradução inglesa, Noviembre no original espanhol, e seria Novembro em português caso o livro fosse traduzido. Li o prefácio na livraria antes de o comprar. Nele, o padre Ignacio Ellacuría, um dos mártires da Universidade Centro-Americana (UCA) [ver 7MARGENS], morto, sabe-se agora, pelo exército de El Salvador, acorda no seu quarto na residência partilhada com mais seis padres jesuítas. Ouve barulho lá fora, pensa com tristeza nos companheiros que vivem com ele e que não têm nada a ver com isto, levanta-se, passa a mão no cabelo, põe o roupão e sai. No corredor, perguntam-lhe o que se está a passar e ele diz: “Não se preocupem.” Para que serve preocuparem-se se não há nada que possam fazer?

Minutos depois, Ellacuría e os seus companheiros, Ignacio Martín-Baró, Segundo Montes, Juan Ramón Moreno, Amando López, e Joaquín López y López foram assassinados. Com eles foram mortas duas mulheres que se escondiam na UCA devido aos confrontos entre a guerrilha revolucionária (Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional – FMLN) e o exército. Elba e Celina Ramos, mãe e filha. Estamos a 16 de Novembro de 1989.

Ellacuría não é a personagem principal deste livro, situado entre o romance e o jornalismo. Essa honra cabe a José Maria Tojeira, na altura provincial dos jesuítas na América Central, que tenta por meio de muitas ofuscações, mentiras, ameaças e violência, descobrir quem esteve por detrás do ataque à UCA. A outra personagem vital é Lucia Cerna, a única testemunha do ataque, que sabia que os jesuítas e as duas mulheres tinham sido mortos pelo exército e não pela FMLN, como o Governo salvadorenho afirmou inicialmente. Lucia foge para os Estados Unidos com a família, onde é intimidada pelo FBI. O batalhão envolvido no ataque à UCA tinha sido, afinal de contas, treinado pelas forças armadas norte-americanas.

Tal como Lucia, Jorge Galán também vive no exílio, obrigado a sair de El Salvador devido às ameaças de morte que se seguiram à publicação de Novembro. Galán faz uma corajosa tentativa de explicar o que Tojeira sabia, mas cujas provas concretas lhe escapavam: sim, foi o exército, com a conivência de altas patentes e com a alegada autorização do Governo da altura, presidido por Alfredo Cristiani (hoje em paradeiro incerto, mas com um mandado de captura por suspeita do seu envolvimento no massacre da UCA). Galán tenta também perceber porque estes homens, particularmente Ellacuría, que podiam ter sido professores em qualquer prestigiada universidade do mundo, decidiram ficar e morrer em El Salvador.

Ellacuría ensombra, então, este livro. Era ele o principal alvo. Os outros morreram para que não houvesse testemunhas. Ellacuría era uma figura mediática, ferozmente inteligente e articulado, que estava, no momento do seu assassinato, a tentar estabelecer negociações de paz entre o Governo e a FMLN. Ellacuría era também famoso por ser um importante teólogo da Teologia da Libertação. O seu compromisso era com o “povo crucificado” da América Latina, isto é, com os explorados, os pobres, os indígenas, os desaparecidos, os massacrados por décadas de violência estatal.

É também na Teologia da Libertação que se encontra o motivo pelo qual Ellacuría não abandona El Salvador. A sua Fé exigia-lhe a coragem para impulsionar negociações de paz, para se sentar com fascistas que o queriam morto, e a capacidade para pensar um futuro diferente. Para os seus detractores em El Salvador, Ellacuría era um marxista, um “agitador basco”. Estavam errados; Ellacuría era somente um homem com uma desmedida fé na razão. Numa entrevista citada no livro, Ellacuría diz que era possível que o matassem, mas agora que o conflito estava perto de uma resolução pacífica, “seria irracional fazê-lo, eu não acredito que o façam.” Ele acreditava que o diálogo, a negociação – a razão – podiam acabar com anos de guerra civil para assim abrirem caminho a uma sociedade mais igualitária e justa.

No prefácio já mencionado, ao ser encaminhado para o exterior onde o vão matar, um dos padres diz aos seus assassinos, “isto é uma injustiça”. É certo. As injustiças são sempre desprovidas de razão. A justiça é sempre razoável. Pela razão de Ellacuría, pelos seus companheiros, por Elba e Celina Ramos, e pela escrita lúcida de Jorge Galán, este livro devia ser traduzido e lido uma e outra vez.

 

Noviembre
Autor: Jorge Galán
Editora:Tusquets Editores, 2016; 280 páginas.

 

Daniela Azevedo estudou História e Humanidades Digitais. Pode ser encontrada na página librarianofburgos no Instagram.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This