
Os sonhos não são uma miragem, mas a efetiva realidade quando queremos. Mensagens que se encontram em cada linha dos livros de Ana Sofia Brito e que só nos faz muito bem ler. Em cada um deles: “A menina dança em Dezembro”, “O Homem do Trator” ou “Em Breve, Meu Amor”, sente-se a fluidez da escrita, da capacidade criativa, cada palavra tem um sentido, cada palavra é um chamamento ao novo. Ao brincar com as palavras Ana Sofia Brito coloca-as como isso, “uma criança que brinca”, onde a brincadeira é o mais sério que existe na vida. E tem razão! Confesso que me senti atraído pelas suas crónicas no 7 Margens e decidi adquirir os seus livros, para ver a sua realização como “artista de rua”. A Sofia é mesmo isso da “rua”, espumando “fogo” nas suas frases, fazendo-nos sentir enamorados com os seus livros. Lêem-se de um folego, porque cada frase é cuidadosamente inspirada e portadora de uma espiritualidade arrasante. Os livros dedicados a membros da sua família e à sua filha Luana, “pelos seus sorrisos”, são histórias reais de poesia ou de uma prosa emaranhada de poesia. As suas palavras têm o som da maresia ao pôr do Sol e a sua arquitetura possui o cheiro dos girassóis como harpas e tamborins no circo onde se move. São mesmo um circo onde os palhaços dizem a verdade, fazendo-nos rir duma realidade nas estreitas vielas do nosso país. A Sofia – que não conheço pessoalmente – é uma artista do circo verdadeiro das palavras, sentindo-as e dando-as ao mundo, nas suas poesias ou nas crónicas onde a poesia pontifica.
No “Homem do Trator”, escreve: “Menina de mãos morenas / deixa-me perguntar / se ainda queres o beijo / que me tentaste roubar / nos tempos em que o desejo / tornava as noites obscenas.” … porque “pasmei-me à porta de casa, quieta com medo de assustar o dia.” ou “quando era jovem, / divertia-me a despertar paixões, / balançava a noite /rebolando aos pés dos amantes.”, ou nos versos de “O país dos outros”: “Gosto de mim no país dos outros / a descobrir novos outonos / nas cores da folhagem. / Eu sonho que o meu país / sabe ser menino feliz / a retribuir esse louvor / por baixo dos céus rasgados / à beira-mar, / essa alegria de feira popular.” Note-se a firmeza das palavras e o seu paladar certo e popular: “ainda queres o beijo”, “roubar”, “noites obscenas”, “com medo de assustar o dia”, “rebolando aos pés dos amantes”, “novos outonos”, “céus rasgados” ou “feira popular”, deguste-se inteiramente o poema e a sua profunda realeza.
A Sofia também conta histórias, as suas crónicas, como no livro “A menina dança em dezembro”. Uma delas chama-se “A mulher no bosque”, onde conta uma história poética, e escreve: “Era tão bonita, a mulher. Feita de poesia. A pele de ouro brilhava-lhe como os diamantes. E tinha os cabelos muito longos, e leves, os cabelos despenteados pelo vento que soprava entre os ramos da figueira” para concluir “A mim, morreram-me os sonhos no abismo da garganta das serpentes. A figueira voltou a ser brava. O meu coração é um figo envenenado e eu…Ah, eu nunca cheguei a ser poeta.”. É linda a história “O menino que roubou o chocolate”, não conto, mas leiam. E no “Em breve, meu amor”, estas palavras: “As tuas pálpebras cerradas devem ser um ecrã de imagens a adivinhar s meus lugares escondidos. E eu, com os olhos postos no horizonte e as mãos quietas a prolongar o tempo da escalada em sufoco, mastigo as pétalas de papoila do meu vestido, para que se me ensanguentem os lábios antes de arriscar o beijo.”
Obrigado, Ana Sofia!
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










