Por onde andas, Miguel?
Miguel Ângelo Jardim, o amigo que perdi neste mês de Fevereiro, era um homem singular. Todos somos singulares, mas muitos temem a singularidade que os habita porque sabem que ela os reconduz ao «só», raiz da sua existência. Não era o caso do Miguel, que estava em permanente contacto com a radicalidade viva que o habitava. Homem singular, mas não «solitário», a sua disponibilidade para o diálogo era sempre surpreendente e transportava-nos na sua vivacidade inteligente e espontânea.
O Miguel era habitado por um aparente paradoxo: embora considerasse com paixão tudo o que cruzava o seu caminho, em nada se detinha. Não era, creio, uma forma de instabilidade psicológica, embora tal pudesse parecer. Era preciso conhecê-lo bem para aceitar que este argonauta estava destinado a logo prosseguir viagem, não uma dessas “viagens” modernas encerradas na sua estanqueidade, mas a viagem porosa da errância, feita de sucessivos contactos, de peripécias e de inusitadas formas de exposição à impermanência.
Nascido em Moçambique em 1959, passou a infância e a adolescência em Quelimane, sempre orientado para o Índico. Falava-me amiúde das tradições literárias que por ali ganhavam cores e desprendimentos em gentes que vinham da cultura europeia. Um deles era Sebastião Alba, que o Miguel procurou até ser forçado a vir para Portugal em circunstâncias rocambolescas associadas à emergência da guerra civil. Alba era já um mestre das inconveniências da liberdade: «Cada vez quero mais à solidão física; mesmo com este vento, agasalha-me em qualquer parque onde não se vê mais ninguém» (Albas, edições Quasi). Começavam, muito cedo, as caminhadas e as leituras longe de casa, onde tais fraquezas não eram bem vistas pelo pai.
Regressado a um Portugal saído da ditadura, o Miguel tem vinte anos e a sua família permanece ainda em Moçambique. É quando os acasos dos encontros o levam, durante um certo tempo, a abrigar-se na casa de António José Saraiva. Não creio que a influência deste possa ser subestimada: Saraiva era então o grande conhecedor heterodoxo da cultura portuguesa que, desde há anos, rompera com o Partido Comunista e procurava outros ares políticos e espirituais. É o tempo da Raiz e Utopia, grande indagação da liberdade conduzida pelo seu benfeitor, e certamente que algo dessa utopia ia perpassando pelas conversas em casa.

Miguel Ângelo Jardim, num jantar com amigos (c. 2003): um cristão desassossegado. Foto © Jorge Leandro Rosa.
Foi já depois desse período que conheci o Miguel. Nunca me esqueci desse primeiro encontro nem do teor da conversa que se seguiu noite fora, enquanto os dois caminhávamos desde a Feira do Livro de Lisboa. Sobre livros, evidentemente, e sobre teologias e tradições místicas, que eram assuntos para os quais não tínhamos assim tantos interlocutores. Esse era, aliás, um traço que nos aproximava: fazer leituras imprevistas dos acontecimentos, experimentar a inactualidade de tudo, dar saltos mortais entre línguas e discursividades inconciliáveis.
O interesse que o Miguel transportava consigo pela humanidade religiosa traduzia-se sempre em paixão pelas culturas minoritárias. Cristão desassossegado, estudou Teologia no Seminário Presbiteriano, mas as Igrejas tradicionais nunca lhe davam a provar a radicalidade viçosa dos Evangelhos. Eis senão quando tenho dele notícia na Suíça, onde procurara os meios anabaptistas e, em particular, a Igreja Menonita. Esses mesmos anabaptistas que tinham estado em confronto com o Protestantismo oficial no século XVI, alimentando as revoltas camponesas na Europa central que Ernst Bloch descreveu no seu Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução. Ao longo do século XVI, e perante a repressão do milenarismo cristão que se propagara nos países de língua alemã, os anabaptistas sobreviverão na Europa através da sua faceta pacifista, enquanto muitos deles fugirão para o Novo Mundo ou para Rússia, levando consigo o comunitarismo económico e a recusa de qualquer serviço militar que os caracterizava – pude também testemunhá-lo quando me cruzei, por essa altura, com menonitas e quakers na sede londrina da WRI (War Resisters’ International) e em encontros de objectores de consciência.
Embora as igrejas protestantes e, mais tarde, as evangélicas estejam presentes em Portugal desde o século XIX, nunca uma igreja anabaptista se estabelecera entre nós. O Miguel Ângelo, já senhor de uma extensa biblioteca no início dos anos 1980, reunira aí considerável literatura anabaptista, como dá conta um artigo, saído na revista The Mennonite de Abril de 1985, sobre o «Anabaptismo em Portugal», onde ele é o centro das atenções: «Não há igrejas menonitas em Portugal. Mas há pelo menos uma pessoa nesse país que gostaria de ver essa situação modificada. O seu nome é Miguel Ângelo Jardim.» Na sua característica assertividade, quando interrogado sobre se Portugal necessitaria de mais uma igreja evangélica, o Miguel respondeu que «não era de mais igrejas evangélicas, mas de uma anabaptista que estávamos necessitados», assim sublinhando a sua vocação apologética. E eis que é baptizado o primeiro anabaptista português em séculos, logo arquitecto de uma pequena comunidade menonita na Amadora e Loures. Ainda hoje existe uma pequena comunidade menonita nesta última localidade, filiada na Mennonite World Conference, certamente sucessora dessa iniciativa. E, como ele resume no mesmo artigo, «Na tradição menonita, como podemos ler em Tiago 2, “a fé sem obras está morta, as obras sem fé são estéreis”». Tudo nele parecia tomar um rumo definitivo, tanto na fé quanto nas acções. Mas, e nisso não há surpresa, o Miguel não terá querido ou não terá conseguido instalar-se nessa ou noutra condição.
Seguiram-se outras descobertas e outros aventuras (vimo-lo, por exemplo, presidir à secção portuguesa da Amnistia Internacional no tempo em que esta ainda não tinha adquirido a feição burocrática actual). O seu interesse pelo Cristianismo oriental e pelos países do Leste, como dizíamos então, levou-o também à Roménia, onde veio a casar.

Miguel Ângelo Jardim (1959-2026), numa visita à Hagia Sophia em Istambul. Foto © Jorge Leandro Rosa
Ambos leitores do estranho nexo entre filosofia e loucura nos pensadores romenos, ele no original, eu em francês, percorremos o país tomados de encanto pelos “latinos do Oriente” e por figuras como Mircea Eliade, Lucian Blaga e Nae Ionescu, entre outros. Mas como o Miguel parecia ir ficando mais inquieto à medida que o tempo passava, e nada podia já servir-lhe de porto, o casamento desfez-se, as circunstâncias de vida agravaram-se e veio o tempo de um estranho niilismo doce até ser fulminado por um AVC que o põe às portas da morte.
Ele parecia saber o que lá vinha: não estava bem, mas adentrava-se sempre mais no bas-fond como se fosse um peripatético em conversação filosófica. Esse mundo popular e marginal, que já não existe, o Miguel reinventava-o a cada passo. À falta de outras fontes, podem hoje ter vislumbres dessa Lisboa na Ville Blanche, de Alain Tanner.
Passaram-se quase vinte anos, e a vida do Miguel foi-se estreitando em torno de um corpo físico que ainda se rebelava regularmente contra essa hemiparesia. Um dia, raptei o Miguel do lar onde estava internado e corri pela rua a empurrar-lhe a pesada cadeira de rodas. Toda a gente podia ver passar mais do que uma simples condução do “paciente”: assim se precipitava uma impaciência comum entre a vida e a morte. Entrámos num cinema (ainda os havia) para ver o Alexandra do Sokurov. No escuro, enquanto Grozni ia sendo arrasada a tiros de canhão, senti o Miguel chorar na sua cadeira estacionada na coxia.

Miguel Ângelo Jardim (1959-2026), antigo presidente da Amnistia Internacional – Portugal e membro da corrente evangélica anabatista. Foto: Direitos reservados.
Jorge Leandro Rosa é ensaísta e tradutor, tendo sido professor universitário durante vinte anos. Interessa-se, desde muito jovem, pela prática e a teoria da não-violência. Escreve regularmente sobre a Mudança Climática e o Antropoceno.
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