
“(…) é às mitologias guerreiras que muitos recorrem para obter respostas sobre os processos que as desencadeiam [guerras] e conduzem. Pintura: Cornelis Cornelisz van Haarlem, A queda dos Titãs (1596-1598). Museu Nacional de Arte da Dinamarca.
De onde saem as guerras? Do ser humano, evidentemente. Mas se há um certo consenso quanto à sua antropogenia – havendo sempre aqueles que consideram que há grupos mais propensos a elas do que outros –, faltará perguntar, com uma inquieta ironia, se um tal fruto não terá agora reencontrado a abundância e a distribuição de outros tempos. Sendo ela o nosso fruto, seria de acreditar que sabemos o que é a guerra, o que ela nos traz e o que faz aos que estão no seu caminho. Suspeito, contudo, que é muito pouco o que queremos saber da sua realidade, que coincide, pelo menos em parte, com o seu mito. Perante a aproximação da guerra, que é a situação em que nos encontramos, é às mitologias guerreiras que muitos recorrem para obter respostas sobre os processos que as desencadeiam e conduzem. O termo mito é aqui usado num sentido derivado, enquanto crença que é social ou politicamente veiculada e adaptada no espaço da colectividade. Neste aspecto, a situação dos europeus é sui generis: depois de termos desmitologizado a religião, havíamos também dado grandes passos em direcção à desmitologização da guerra no continente. Este processo conduziu a que muitos viessem a duvidar da sua viabilidade no nosso tempo[1], uma perspectiva obviamente improvável noutras latitudes.
Uma tal situação dificulta a percepção europeia das guerras actuais: foi com incredulidade que descobrimos, em 2022, que uma guerra em grande escala podia ter lugar na Europa. E é com mais incredulidade ainda que descobrimos que há povos europeus capazes de aderir a novas mitologias da guerra num ápice. Não posso deixar de sublinhar a dimensão trágica desta situação: depois da destruição incalculável da Segunda Guerra Mundial e dos terrores frios da Europa dividida em blocos, acreditou-se que seria possível criar uma cultura de paz, em cuja construção não entravam os cálculos bélicos. É hoje comum os «realistas» virem lembrar-nos de que andávamos sob guarda-chuvas alheios; é hoje frequente sermos acusados de ingenuidade ou de alheamento quando dizemos que é preciso pensar a guerra num terreno que não seja o seu. De qualquer modo, uma cultura menos agressiva que parecia alastrar num Velho Continente cansado das suas lutas intestinas e que, para isso, procurava um novo ordenamento democrático para a convivência dos povos, foi subitamente cerceada e parece ter-se tornado um pensamento irrealista. Em parte, tal deve-se também àqueles que, usando a palavra «paz» como forma de novo alinhamento, procuram destruir a ordem do pós-guerra na Europa ocidental.
Passados dois anos e meio, mudámos de mundo, mas sem sabermos ainda que mundo é este a que viemos parar. E embora não estejamos a pensar a guerra, no sentido profundo do termo, dois tipos de intervenientes parecem ter ocupado aquele que deveria ser o espaço público dessa reflexão: por um lado, os já referidos mitógrafos da guerra (que eventualmente agem como seus mitómanos), que sabem tudo sobre as motivações profundas dos actores, que se lhes antecipam, que lançam avisos e fazem predições sobre o nosso envolvimento no caos. Por outro lado, os geómetras da guerra, mais conhecidos como «analistas» ou «geoestrategas», que parecem ter reencontrado uma serenidade cartesiana diante do espectáculo que decorre nos ecrãs. Uns e outros convergem na transmissão de um sentimento de inevitabilidade conducente à reintegração de uma condição bélica e belicista no horizonte das sociedades. Uns e outros transmitem uma singular desinibição diante do fenómeno, parecendo acreditar que a guerra é parte natural, não apenas da natureza humana, mas das relações internacionais, culturais e religiosas.
Acontece que nada é «natural» na situação actual: longe de ser o mero fechamento de um hiato nos modos habituais da guerra, aquilo a que assistimos corresponde a uma reconfiguração da situação humana no mundo. Embora a desinibição bélica de muitos países seja projectada a partir do passado, ela conduz-nos também a um futuro desconhecido: os dispositivos de guerra de todos os géneros começam a substituir aquilo que conhecíamos até aqui; a proliferação nuclear parece ter entrado numa nova etapa, onde a busca das armas nucleares incluirá todos aqueles que, mais «fracos», verão na bomba nuclear um seguro de vida. Todos os países, mesmo aqueles que se encontram no sul da Europa, reintegram, com mais ou menos hesitações, a guerra no seu horizonte, operando também aqui um conjunto de remitologizações do esforço bélico. No fim de contas, todos os que acreditam que a guerra se torna dia a dia mais possível contribuirão para ampliar a escala e a complexidade dessa possibilidade. A guerra moderna é um investimento mitológico sustentado em dispositivos racionais: não é possível entender a guerra sem se perceber em que medida as escalas industriais, as disposições organizacionais e a sua economia a transformam a partir de dentro.
Esta nova configuração da guerra rompe com a concepção do espaço-tempo que havia presidido à Guerra Fria: os dois inimigos que se espelhavam um no outro, enquanto vectores da era moderna, são substituídos por um conjunto heteróclito de acções e motivações que, deixando de se reconhecer no ímpeto para o futuro, reencontram a antiquíssima violência do seu conto da origem. Contos muito diferentes, mas idênticas forças mitológicas. Simplesmente, estas mitologias apoiam-se agora na força mundializada da sociedade industrial, no seu poder de multiplicação, cópia e aperfeiçoamento dos dispositivos guerreiros. Os conflitos da Ucrânia-Rússia e de Israel-Líbano-Irão ilustram bem esta potenciação: depois de uma fase inicial centrada na reactivação das respectivas mitologias, os actores procuram apoios em capacidades que são, também elas, representativas da disseminação das tecnologias da guerra, da sua diversificação e do seu embaratecimento quase até ao irrisório. É sempre o esforço de dar a morte mais «económica» a mais e mais gente. A enorme potencialidade de destruição deste novo ciclo tem tanto a ver com a multiplicação de entidades investidas nas suas dinâmicas quanto tem a ver com os novos canais e modos de produção de armamentos de todas as espécies: da bomba artesanal à arma nuclear, todas as armas se vão tornando mais iguais.

Mahatma Gandhi: “Supondo que há uma vaga de auto-purificação através da Índia, o Paquistão ficará em paz. Será um Estado onde os erros passados serão esquecidos… Arrepender-me-ei de lhe ter chamado um pecado.” Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons.
Há ainda política na guerra. Mas ela é tanto mais frágil quanto está constantemente exposta aos oportunismos das alianças improváveis. É por isso que a mitologia serve eficazmente a condução da guerra actual: ela tem um horizonte que se sobrepõe às inadequações do poder à sociedade, que as torna indistintas e ilegíveis. Neste aspecto, nenhum actor contemporâneo levou tão longe a imbricação plástica da propaganda com a mitologia como a Rússia: libertada de limites ideológicos, a propaganda do Kremlin pôde recorrer a um vasto catálogo mitológico que havia conservado no seu arsenal, bastando-lhe actualizar num dado momento certo elemento «histórico», «antropológico» ou mesmo «teológico». Sendo certo que o elemento mitológico oculta eventualmente uma intenção política, a força do mitológico pode, a qualquer momento, autonomizar-se e conduzir a guerra a uma finalidade escatológica que não estaria inicialmente prevista ou só apareceria embrionariamente.
Por seu turno, Israel e o Irão enfraqueceram deliberadamente, ao longo dos anos, o elemento político da sua posição em favor da exponenciação mitológica da tensão: tratava-se mais de apostar no enquistamento mitológico do adversário – o «grande Israel», por um lado, o messianismo xiita, por outro – do que no próprio, deslegitimando à partida toda a hipótese de diálogo político. Quer em Israel quer em Teerão, os inimigos dos Acordos de Oslo trabalharam activamente para a sua destruição, culminando no assassinato de Yitzhak Rabin por um judeu messiânico. O resultado é a desumanização de uns e de outros, afinal o terreno mais favorável à guerra sem limites.
É neste quadro que ressurgem mais actuais do que nunca as palavras que Gandhi – assassinado por um hindu fundamentalista – escreveu dias antes da sua morte no contexto dos massacres e deslocações de populações hindus e muçulmanas que se seguiram à criação do Paquistão: «Supondo que há uma vaga de auto-purificação através da Índia, o Paquistão ficará em paz. Será um Estado onde os erros passados serão esquecidos… Arrepender-me-ei de lhe ter chamado um pecado. Quero viver para ver esse Paquistão, não no papel, não na oratória dos homens públicos, mas na vida diária de cada muçulmano paquistanês. Então, os habitantes da União Indiana esquecerão que alguma vez tenha havido alguma inimizade entre eles e os paquistaneses e, se não me engano, a União terá orgulho em imitar o Paquistão»[2]. São as palavras de quem preferiu o activo encontro com o outro às eternas vinganças mitológicas.
Como é evidente, há um sentido do mito que não cabe naquilo que acabei de descrever. Gandhi pôde redescobri-lo quando, jovem advogado ateu na África do Sul, se pôs a ler a Bhagavad-Gita e os Upanishad. Se o poder do mito é o maior dos perigos quando posto em directo contacto com a destruição humana, e nenhum período da história humana o fez como a modernidade, há nele também uma representação dessa destruição, uma fonte para a sua meditação, que continua a ser insubstituível.
[1] A publicação entre nós (2016) do livro do conhecido psicólogo Steven Pinker Os Anjos Bons da nossa Natureza – Porque tem Declinado a Violência (Relógio d’Água) despertou grande curiosidade, dando lugar a diversas conferências do autor em Portugal. A sua tese sobre o declínio da violência humana incluía o fenómeno da guerra, tendência que os anos mais recentes parecem infirmar.
[2] Gandhi, «Delhi Diary», entrada de 14 de janeiro de 1948, cit. por Louis Fischer, The Essential Gandhi, Vintage Books, Nova Iorque, 1962, p. 365.
Jorge Leandro Rosa é ensaísta e tradutor, tendo sido professor universitário durante vinte anos. Interessa-se, desde muito jovem, pela prática e a teoria da não-violência. Escreve regularmente sobre a Mudança Climática e o Antropoceno.










