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autores - José Centeio

Milagre de Natal

| 24/12/2024

Criança. Palestina

“Hoje é Dia de Natal e o menino passeia-se por entre os mortais alegrando-se com as alegrias e condoendo-se, na sua infinita misericórdia, com o sofrimento do mundo. A esperança anda por aí saltitando de coração em coração.” Foto:Belal Khaled/Agência Anadolu

 

Corre a notícia que hoje é Dia de Natal. Dizem tratar-se da celebração do nascimento de um menino que contam ter sido Deus feito homem há pouco mais de dois milénios. Menino que na sua inocência fora perseguido pelos poderosos do seu tempo ainda antes de se ter feito ao mundo. Fala-se meio às escondidas, ainda a medo, de que que nasceu lá para os lados de Belém, na terra da Palestina. O que mais surpreende é que há quem acredite que o menino continua vivo entre os mundanos mortais. Embora a ciência não possa provar, à luz dos seus critérios de racionalidade, facto tão inverosímil, a verdade é que há homens e mulheres que confirmam ser verdade e juram a pés juntos que só ele (o menino) nos pode salvar. Os incrédulos dizem já ter ouvido tal conversa, a qual, segundo eles, não dera bons resultados nesse tempo há muito ido. Mas são muitos os corações que acreditam.

Dizem ser Dia de Natal e Khalid no seu desespero de pai procura o seu filho Youssef, o seu caçula, por entre os escombros da desumanidade. Khalid confia em Allah, Ele não o deixaria sozinho no meio de tamanha crueldade. Nascido e criado nas ruas de Belém, Khallid sabe perfeitamente o significado do Natal e, para ele e para a sua mulher Zaya, o nascimento de cada um dos filhos era como se fosse o Natal dos seus irmãos e amigos cristãos. Ebraim era o mais velho, seguiram-se Samir, Amin e Youssef. Bem gostaria de ter tido uma rapariga que tivesse os olhos bondosos da sua amada esposa. Mas Allah não lhe concedeu essa bênção. E como ele desejaria que o Natal dos seus amigos cristãos lhe trouxesse o filho de volta. Até já rezou em segredo, não fossem os seus irmãos suspeitar de traição, ao Deus cristão e ao Deus dos do outro lado. Para ele pouco importa que nome se dá ao Deus a quem se ora, ele sabe que Ele a todos escuta. Talvez unidos seja mais fácil concederem-lhe essa graça. Também nunca entendeu por que sendo Deus único as pessoas se guerreiam pelo nome que é o seu e que julgam único. Hoje, se Allah o ajudar apenas lhe restará o caçula. Os poderosos roubaram-lhe a vida dos seus filhos e da sua amada esposa. A ele que nunca se metera em confusão. Muitos dos seus amigos e os seis irmãos foram corajosos rebeldes contra o poder do outro lado. Mas Khallid era um homem de paz, apesar de se recusar a pronunciar o nome dos seus vizinhos, são os do outro lado. A crueldade não tem nome. Imagina que também do outro lado haja quem se recuse a pronunciar o seu nome.

Khallid conhece bem o sabor amargo da humilhação a que a sua família era sujeita pelos colonos do outro lado, nessa terra onde dizem ter nascido o menino, príncipe da paz. Por isso, quando decidiu constituir família se mudou para Gaza para fugir à humilhação e encontrar paz. Queria sonhar com uma terra onde o futuro dos filhos fosse possível. Talvez já se tenha arrependido mais de mil vezes por ter deixado a Cisjordânia. Os pais bem lhe disseram: Khallid, meu filho, o que procuras só o encontrarás dentro de ti. Não entendeu nada. Talvez Zayra tivesse intuído, já que para ele sempre fora inexplicável e incompreensível o sorriso radioso da sua amada mesmo nas situações mais adversas ou mesmo dramáticas. Ele apenas sabia o quanto o sossegava aquela espécie de brisa que levemente soprava dos seus lábios.

Dizem ser Dia de Natal e celebrarem o aniversário do menino com a família e amigos à volta da mesa. O cheiro das iguarias da nossa meninice entra-nos pelas narinas e voltamos de novo, ao menos nesse dia, aos tempos da inocência, irmanados na mesma esperança de futuro.

E Khallid nem casa tem quanto mais uma mesa. A família também já a perdeu e amigos não lhes sabe do rasto. Mas se Allah o ajudar a encontrar Youssef ele montará um banquete usando o seu próprio keffiyeh como toalha estendida entre as ruínas do que já foi o seu lugar e os destroços do que já foram os seus sonhos. Mas se não encontrar Youssef, não tiver ninguém a quem proteger ou a quem cuidar, morrerá de tristeza. Disso ele estava certo.

Dizem que em Belém nasceu o menino que será a esperança dos povos. Mas há quem pretenda que seja apenas Rei do seu povo e que tenha o poder de decidir sobre a vida dos outros.

Mas o menino, nascido há pouco mais de dois milénios, olha para o desespero de Khallid e, condoído, intercede junto de seu pai Yhwh. Ou Allah? Pouco importa desde que juntos salvem este pai do seu desespero e lhe mostrem uma pequena luz de esperança.

Khallid sem saber de onde vinha sentiu no seu rosto um pequeno sopro, uma leve brisa, que lhe sossegou a alma e lhe arrancou um quase impercetível sorriso de gratidão. Voltando-se para trás viu o seu amado Youssef nos seus oito anitos, cambaleando por entre os destroços da maldade. Correu na sua direção na procura de um abraço que suspendesse o tempo e tornasse esse momento eterno.

– Alhamdulillah! (louvado seja Allah), repetiu ele.

Finalmente entendeu. A paz que agora sentia e que encontrou no seu coração era a procura que em tempos os seus pais lhe segredaram: procura dentro de ti. A paz não é um lugar, mas um momento de reconciliação com a vida, com os outros e com Deus. Agora tinha a certeza de que Zayra sabia.

Hoje é Dia de Natal e o menino passeia-se por entre os mortais alegrando-se com as alegrias e condoendo-se, na sua infinita misericórdia, com o sofrimento do mundo. A esperança anda por aí saltitando de coração em coração.

 

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