Um livro singular, construído com a voz de Ibrahima Balde, da Guiné-Conacri, que arriscou a vida para encontrar o irmão mais novo, e as palavras escritas de Amets Antia, militante de um grupo de apoio a migrantes, que acolheu Ibrahima em Irún, no País Basco. O conhecimento público e o interesse de editoras europeias pela edição espanhola de Miñán – Irmãozinho inicia-se quando o Papa Francisco começa a recomendá-lo, sempre que com alguém abordava o drama dos naufrágios de barcos com imigrantes no Mediterrânico, às portas da Europa.
Miñán – Irmãozinho nasce num dia de Outubro de 2018, quando Ibrahima Balde chegou a Irún, no País Basco espanhol, depois de mais de dois anos de uma peregrinação indómita, a partir da sua Guiné-Conacri, por entre prisões de senhores da guerra no Mali, passando florestas, cidades e areias do deserto da África Setentrional, onde chegou a ser vendido como se fosse a transação de uma cabra, perseguido pelas bastonadas da polícia, espancado e ludibriado pelos “comerciantes de sonhos” que, por três mil euros, atafulham centenas de pessoas num zodiac, um pequeno barco de borracha insuflado ali mesmo na praia, já noite escura, na hora da partida para uma “Europa luminosa”.
Mas Ibrahima não correra por interesses seus… É preciso dispor-se a percorrer as quase 150 páginas de Miñán – Irmãozinho para se perceber como é penoso e extenso o périplo do coração que se dispõe a desconstruir todas as lógicas mais repugnantes do relacionamento humano.
«Quando chegaste a Marrocos ou à Líbia, é tarde demais para voltares, a tua casa fica já demasiado longe.» Foi ao ali, no “outro lado” do Mediterrânico, que o desânimo esvaziou a razão da sua jornada: Alhassane, o seu irmão mais novo, com mais cento e quarenta e três pessoas, embarcara num zodiac, igual ao que o trouxe a ele para o “lado de cá”. Mas nenhum deles chegou…
Andava Ibrahima Balde em Nzerekoré, «a mais ou menos mil trezentos kilós de Conacri», a trabalhar como aprendiz com um camionista, quando num telefonema para a mãe ela lhe deu a notícia: «Faz já três semanas que não sei nada do Alhassane». E passaram-se meses sem saber do irmão ainda menor…
Mas numa sexta-feira, «dia de mudar os filtros ao camião e de lhe pôr óleo novo», alguém lhe grita: «A tua mãe ligou-me, tem notícias do Alhassane». Nessa tarde, depois de falar com a mãe e de ela lhe dar o número de telefone do irmão, Ibrahima liga-lhe: «Miñán, o que foste fazer à Líbia?» Que queria chegar à Europa, dizia o irmãozinho (miñán, em língua pular), enquanto chorava e indicava que estava «no grande campo de refugiados de Baba Hasán, à espera de uma oportunidade para atravessar o mar». E como o saldo do telefone estava a acabar, Ibrahima só teve tempo de dizer: «Tem muito cuidado, miñán». Três ou quatro dias depois Ibrahima saiu de Conacri, numa peregrinação em busca do seu miñán. Mais de dois anos em vão… «Explicaram-me a palavra naufrage, e eu compreendi: ‘C’est fini, Alhassane escapou-me das mãos».
Era o dia 25 de Outubro de 2018. Amets Antia encontra Ibrahima, depois de ser recambiado pela polícia francesa de Hendaia para Irún… Naquele dia, estavam os voluntários da rede informal de apoio a migrantes a preparar, na rua, um lugar a acolhimento: um cartaz de boas-vindas, um café, chocolate e uma cadeira. «Porque a empatia e um pouco de carinho são também necessidades básicas», assume Amets no epílogo do livro.
Tudo começou na estação de comboios. «Mon frère, estou na Europa, mas eu não queria vir para a Europa». Amets pressentiu a ferida… Dez meses foi o tempo que demorou «fabricar» um livro, inicialmente escrito em eusquera, à medida da oralidade de Ibrahima.
«A embarcação de resgate ficou ao nosso lado e estendeu-se uma corda comprida. Primeiro subiram as crianças e as mulheres. (…) Chegou a minha vez. Estenderam-me a corda para subir, deram-me água e uma manta. Bebi um gole e comecei a chorar. (…) Agora já sei, o mar não é lugar para nos sentarmos.»
Este é o último relato de Ibrahima, escrito por Amets com a ousadia de quem se esquivou «a usar a dor alheia para exibir acrobacias literárias», como ele próprio reivindica no epílogo.
A denúncia do Papa Francisco sobre as circunstâncias sociais que levam milhares de imigrantes a tentar a sua sorte na «nossa casa», foi uma referência em quase todos os seus discursos, desde a viagem que fez a Lampedusa, no início do seu pontificado. Mais tarde, lançou um alerta à Europa, por gastar milhões de euros na contenção dos que nos querem roubar o sossego civilizado… E em 2023, no avião de regresso a Roma por ocasião das Jornadas da Juventude em Lisboa, ele indicava aos jornalistas a leitura de Hermanito, ou Fratelino, ao referir-se à violência exercida sobre os que mar adentro tentavam chegar até ao “continente prometido”.
Este seu interesse, segundo o Vatican News, começara, todavia, já em 2021 a ser recomendação inevitável em conversas com convidados nas visitas de cortesia ao Vaticano, em reuniões com o colégio dos cardeais ou mesmo, a nível interno, com membros da cúria romana. Francisco encontrava sempre oportunidade para motivar alguém a ler o livro. Mais tarde, é o próprio Papa quem telefona a Amets, convidando para uma conversa no Vaticano, na companhia de Ibrahima…
Um excerto de “Hermanito”

A capa da edição portuguesa.
«Ibrahima, o Alhassane está na Líbia», disse-me outra vez. E deu-me um número de telefone. «Ligou deste número; telefona-lhe tu e tenta falar com ele». «Dakor», respondi-lhe. Ao desligar, pensei: «Está na Líbia».
Liguei três vezes para o número que a minha mãe me deu e ninguém atendeu.
À quarta vez, sim, à quarta atendeu um velho: «Alô?». Perguntei: «Alhassane Balde?». A voz do outro lado disse: «Espera». Começou a gritar: «Alhassane Balde? Alhassane Balde?». Logo em seguida, o meu irmão pegou no telefone.
Cumprimentámo-nos e o menino pôs-se a chorar.
«Miñán, o que é que foste fazer à Líbia?», perguntei-lhe. Na língua pular, a palavra miñán significa irmã mais nova ou irmão mais novo. Irmãozinho. Disse-me que queria chegar à Europa. «E partes para a Europa sem me dares qualquer explicação?». Pediu-me que o perdoasse, que queria ajudar-me mas que não sabia como. «Miñán, só Deus pode ajudar-nos, mais ninguém». «Eu sei», respondeu-me. E falou longamente.
«Só te peço uma coisa, koto, não te esqueças da mamã. Não penses em mais nada, não penses porque é que saí de casa, não penses porque é que deixei a escola. Eu queria fazer o meu próprio caminho para ajudar, porque de onde viemos não há futuro nenhum. Olhei à minha volta e não há.» «Eu sei, miñán», disse-lhe, «eu sei isso tudo».
O saldo do telefone estava a acabar e perguntei-lhe onde estava. Disse-me que em Sábrata, no grande campo de refugiados de Baba Hasán, à espera de uma oportunidade para atravessar o mar. «Tem muito cuidado, miñán», disse-lhe. Respondeu-me que sim, que teria cuidado, que mo prometia.
Três ou quatro dias depois saí à sua procura, num miniautocarro que ia de Conacri para Siguiri. Eram dez em ponto.”

A edição portuguesa do livro já foi apresentada em Braga (esq.) e no Porto (dta.), com a presença dos autores. Foto: Direitos reservados
Miñán – Irmãozinho está a ser apresentado estas semana em Portugal – Braga e Porto já acolheram sessões de apresentação, Lisboa deverá ter uma em breve. É também uma forma de assinalar um ano sobre a morte do Papa Francisco, que recomendou repetidamente esta obra para dar rosto e nome a tantas pessoas que enfrentam o drama de travessias inimagináveis: Recomendo-vos uma leitura: há um livrito, pequeno, escrito por um migrante, que, para chegar da Guiné à Espanha, penso que gastou três anos, porque foi capturado, torturado, escravizado. A condição dos migrantes, naqueles campos de concentração do norte da África, é terrível. O tal livro chama-se Hermanito e lê-se em duas horas. Vale a pena! Lede-o, e vereis o drama dos migrantes antes de embarcar… Não vos esqueçais: Hermanito, Fratellino, o livro do migrante. [Papa Francisco, no voo de regresso a Lisboa a Roma, 6 de agosto de 2023].
Miñán – Irmãozinho
Autores: Ibrahima Balde e Amets Arzallus Antia
Tradução de Jorge Melícias
Edição: Flâneur e Associação para o Desenvolvimento Meeru/Abrir Caminho
Março de 2026, 148 páginas, 16 €
O livro pode ser encomendado na página da edição, através da Meeru/Abrir Caminho (pelo e-mail abrircaminho@meeru.org) ou na Livraria Flâneur.










