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Moisés Espírito Santo. Foto: Direitos reservados.

Uma evocação

Moisés Espírito Santo (1934-2025), um justo entre os homens

| 16/03/2025

 

O sociólogo e antropólogo Moisés Espírito Santo (20/5/34 – 24/1/25) morreu em Janeiro, com 90 anos. O 7MARGENS evoca aqui a figura de um investigador do fenómeno religioso.

A imagem que dele tenho é a de homem jovial, falando e interrompendo quem fala, pequenas risadas ora de troça ora de agrado, camisa aos quadrados, casaco tweed bege ou castanho-escuro, calças listradas e um lenço ou uma gravata deslaçada de cor berrante a apertar um pescoço comprido, terminando numa cara ossuda, onde uns óculos de massa esbranquiçada ou cor-de-mel aguçavam um olhar penetrante, o todo descobrindo uma fronte desguarnecida, acabando em longos fios grisalhos caindo pela cabeça – um original.

A Antonieta Garcia preocupava-se com este desalinho e tentava substituir-lhe o lenço ou a gravata – em vão, obviamente. Decorria a década de 1990, apesar das desilusões ainda se sonhava com “os amanhãs que cantam” e ocasiões havia onde se reuniam no Fundão os expatriados, os exilados e os que tinham vivido o 25 de Abril. Nesse tempo o ponto de encontro era a casa da Antonieta e do António Júlio Garcia, na Rua da Oliveira, a dez passos do Hotel Samasa, onde se albergavam os forasteiros que não tinham poiso próprio na cidade.

O grupo era compósito, mas todo do espectro da esquerda. Sob pena de falhar nomes e desse falha de memória me desculpo desde já, o grupo reunia-se em torno da Antonieta que se tornara num segundo Samuel Schwarz e reabrira o caminho à comunidade marrana de Belmonte em direção ao seu povo de pertença.

Nestas coisas, o Moisés Espírito Santo estava sempre presente – de Trás-os-Montes aos Açores e para lá dos mares navegados. No grupo próximo, no que me diz respeito, além dos fundanenses, inscreviam-se o Costa Dias e o Carlos Miguel, na altura discípulos em curso de desvinculação do mestre Espírito Santo, sem deixarem de ser presenças referenciadas.

As conversas e as passeatas, se o tempo o permitisse, eram de regra e se bem que dominadas pela referência judaica de um Belmonte que não era só de Pedro Álvares Cabral, havia espaço para a discussão que surgia inevitavelmente quando Moisés interpelava o falante querendo saber onde era a capela do “Mártele” São Sebastião. Tendo sido o interpelado lá me fui explicando que na realidade até era uma ermida que agora era intramuros, mas ainda nos anos 1940 ficava fora das extremas da então vila, que se findava nas capelas de São Francisco e do Espírito Santo. “Ná”, ditou Moisés, que quis saber o processo linguístico que levara a “Mártele”. Tinha-me metido numa alhada e tentei argumentar o melhor que sabia, pretextando que devia ser uma corruptela popular, frequente entre as consoantes líquidas r e l, para armar em conhecedor. Ele não ficou convencido e deu-nos uma lição sobre o significado da evolução do processo linguístico. Ouvi e aprendi – mesmo se não dei o braço a torcer.

Ermida de São Sebastião, no Fundão: o “mártele” podia ser uma corruptela? Foto reproduzida do blogue Monumentos do Fundão (https://monumentosfundao.blogspot.com/2013/03/capela-de-saosebastiao-epoca-de.html?m=1)

Ermida de São Sebastião, no Fundão: o “mártele” podia ser uma corruptela? Foto reproduzida do blogue Monumentos do Fundão.

Algum tempo depois, no quadro de uma reportagem para o jornal o diário, sobre o achamento, pelo arqueólogo Luís Raposo, de um acampamento paleolítico no Vale do Tejo vim à conversa com António Salvado, o então diretor do Museu Francisco Proença Júnior, e nunca mais o esqueci. No decurso das suas explicações sobre como projetava o Museu veio à baila a toponímia da Beira Baixa e, devia ser pela Primavera, apontou como tema de reportagem a feira da Senhora de Mercóles, que se celebrava desde o século XVII. A palavra Mércoles ecoou-me nos ouvidos e trouxe-me à memória a “lição” sobre o “Mártele”. Ousei perguntar se havia por baixo da Senhora algo mais antigo – quiçá o deus Mercúrio. Na sua imensa generosidade e afabilidade António Salvado ficou intrigado e prometeu-me que iria investigar. A resposta veio rápida – o local abrigara séculos atrás um santuário dedicado ao deus romano do comércio, Mercúrio (ver também António Roxo, Monographia de Castello Branco. Elvas: Typogrpahia Progresso, 1890).

Vitória, vitória, acabou-se a história! Vai sendo tempo de falar a sério de Moisés Espírito Santo, provavelmente o catedrático mais turbulento que atravessou a mansidão universitária portuguesa do último meio século.

Da Batalha a Paris

Moisés Espírito Santo Bagagem, de seu nome completo, nasceu na aldeia da Reboleira, freguesia da Batalha, no dia 20 de maio de 1934, a chorar e a agitar-se como todos nós, os nascidos de mulher. Iria ser um rebelde.

Na justificação desta predicação tive a ajuda do académico Costa Dias, da Wikipédia, da Livraria Trindade (Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, volume VI, Lisboa, 1999), da sempre necessária Helena Pato no que à Resistência diz respeito e, claro, da minha fragmentada memória.

Mesmo nascido em berço de ouro, como então se dizia para os que não nasciam em tugúrios, e já com propriedade adquirida, Moisés, ao que se percebe, lendo com atenção, teve o nome, não por azar, mas por ponderada escolha paterna, com antepassados cristãos-novos. Vieram de Marrocos, retomando o caminho para Sepharad (Ibéria), quando o liberalismo vintista do século XIX chegou a Portugal e Espanha.

Filho único, ao que julgo, teve berço e crescimento aldeão, dito de outro modo, comunitário, onde deve ter dado e levado, joelhos escalavrados e porrada em casa ainda por cima. A rebeldia era ancestral, genética, e o rebento, destinado a ser catedrático (que foi), só dava desilusões.

Humberto Delgado 1958 Arquivos RTP

No serviço militar, em vez de querer ser oficial escolheu ser enfermeiro nos hospitais militares. Teve licença para regressar a civil em 1958, ano em que Humberto Delgado se candidatou a Presidente da República. Foto © Arquivos RTP.

Logo que chegou a idade de ir às sortes, deu para o torto, em vez de querer ser oficial escolheu ser enfermeiro nos hospitais militares. Ainda não era o tempo da Guerra Colonial, vá lá, mas mesmo assim conseguiu pôr em polvorosa a cabeça dos superiores. Teve licença para regressar a civil, mas foi em 1958. O leitor que for do tempo da “outra senhora” compreende de imediato. Para os outros explico que foi o ano das “eleições de Humberto Delgado” (poucos se recordam já contra quem, mas foi o ‘cabeça de abóbora’, Américo Tomás, que , por decisão salazarenta, ganhou…).

Caldo entornado… nem tanto, o moço tinha 24 anos e tudo em regularidade. Até fora qualificado no curso para animador dos presos das cadeias centrais. Embora tivesse ficado uma mancha – despedido por “incompatibilidade com a política do Ministério sobre a organização prisional”.

Dores de cabeça em casa, seguramente, mas tudo acabou por se arranjar.

O rapaz teve “cunha” para entrar nas Caixas de Previdência, onde conseguiu conservar-se cinco anos. Em 1963 rebentou-lhe a bolha – provavelmente a crise académica de 1962 deve ter influenciado e, nem mais, – despedido por “incompatibilidade com a política geral do Governo”.

Estava traçado o caminho para o Forte de Peniche. Não, a rebeldia genética impedia a subordinação a uma vontade superior, mesmo se aceite de livre vontade. Antes partir que jurar. Assim como assim, vale o caminho dos antepassados – trouxa no ombro e atravessar a fronteira…

Fica refugiado em França, depois residente, até 1981.

 

Regressar ou ficar

Como qualquer outro exilado português o acolhimento foi frio, a vaga da emigração já começara, mas ativistas políticos era outra coisa. Ora a razão da ida para Paris tinha motivação política e, naturalmente, aproximou-se dos meios oposicionistas no exílio. Um desses contactos foi com Maria Amélia Padez (1930-2019), militante comunista desde o Movimento de Unidade Democrática-Juvenil (MUD-J), que depois de prisões e fugas casara com um advogado francês, Jacques Kotzki, também ele ativista comunista, e que abriu as portas da sua casa na Rue de Seine aos que chegavam de Portugal à procura de asilo.

Capa do livro Origens do Cristianismo Português, de Moisés Espírito Santo

Capa de uma das edições do livro Origens do Cristianismo Português

Um dos objetivos primeiros de Moisés na sua nova vida de ativista político foi o contacto com as camadas jovens da comunidade emigrante portuguesa. Com esse objetivo ele e Maria Padez meteram mãos à obra e escreveram um livro sobre a expansão marítima portuguesa, que teve por título Le Géant Adamastor et autres Contes du Portugal, com data de edição de 1971, que ainda não consultei e nunca vi referido por Moisés Espírito Santo.

A penetração da cultura portuguesa no ensino escolar em França nunca foi fácil e o agitador Moisés retomou o caminho que já seguira em Portugal de animador cultural junto dos imigrantes, primeiro os portugueses, depois estendendo os laços para as comunidades residentes em França vindas do Norte de África e da África negra de colonização francesa. Ainda tentou lançar o Jornal do Emigrante, destinado à colónia portuguesa espalhada pela Europa, mas foi uma experiência de curta duração, entre 1970 e 1972.

O ambiente na esquerda política portuguesa e de um modo geral na Europa, era então de confronto entre as correntes do comunismo soviético e as do marxismo-leninismo chinês, com algum renascimento trotsquista e o aparecimento de novas perspetivas societárias, género Internacional Situacionismo. Moisés Espírito Santo seguiu outro caminho: em vez de ativismo partidário, associativismo cultural e intervenção social. Essa sua orientação permitiu-lhe concorrer a uma bolsa de estudo de licenciatura em Sociologia Rural na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. No ano letivo de 1973 torna-se assim aluno numa matéria de que tem vasta experiência prática. É referenciado como aluno superdotado, com uma invulgar capacidade de memorização e de associação mental e em 1976 conclui a licenciatura com uma tese que vai ser decisiva para uma mudança de rumo na sociologia portuguesa. La Freguesia / Comune Rurale Portugaise: Vie Communautaire et Conflits é o título da tese, que teve por referência Reguengo do Fetal, município de Leiria. Prossegue a carreira académica preparando o doutoramento na mesma senda de sociologia rural, mas desta vez com outra abordagem – La Religion Paysanne Dans le Nord du Portugal, que defendeu em 1979, sob a orientação de Placide Rambaud e Émile Poulat. Vitorino Magalhães Godinho, que na Universidade Nova tinha a seu cargo a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), referencia-o e convida-o para abrir na nova Faculdade uma nova área sociológica – a ruralidade, que num país onde era dominante, nada sobre ela fora investigado.

No ano escolar 1980/1981, Moisés Espírito Santo integra o corpo docente da FCSH e retorna a Portugal para exercer uma docência que vai durar até 2004, com a jubilação.

Foi como se um ciclone tivesse varrido os corredores das cidades universitárias e dos meios culturais. De certo modo Moisés Espírito Santo conseguiu chegar a toda a gente dos vários meios sociais, surpreendendo ou chocando; mesmo discordando da argumentação, quem o leu sente que não foi tempo perdido, abriu-lhe uma perspetiva para a qual nunca reparara e que traz outra visão sobre o assunto. Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima (edição Assírio e Alvim) vai na 3ª edição e, aceite-se ou não a sua tese de uma fonte islâmica nos acontecimentos de 1917 na Cova da Iria, em linha direta com a filha do Profeta Maomé, é um facto que a herança moura deixou traços indeléveis na nossa cultura.

Pela minha parte, o livro que mais me atraiu e se me tornou referência foi Origens do Cristianismo Português – Precedido de: A Deusa Síria, de Luciano de Samoçata (Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da UNL), também já em 3ª edição. Considero a sua leitura indispensável para quem se interessa pela origem das religiões abraâmicas e, na vertente da Deusa Síria, sobre o que por mais recalcado tenha ficado do primitivismo sexual, ele continua presente no nosso inconsciente e solta-se da “panela de pressão” que é o cérebro sempre que uma faísca de desejo desperta num olhar lúbrico.

Em tempo de sobressaltos, em que a paz passou a segundo plano e o alvoroço se mobiliza para o conflito, ódio e guerra, faz bem recordar um justo entre os homens, na sua dimensão polémica, mas constantemente solidária e humanista.

 

Obras publicadas

Sociologia Rural:

Comunidade Rural ao Norte do Tejo (editado em 1980 pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, Lisboa, resultante da tese do Diploma da Ecole dês Hautes Etudes. Reeditado pela Universidade Nova de Lisboa sob o título Comunidade Rural ao Norte do Tejo – seguido de Vinte Anos Depois (2000).

Sociologia das Religiões:

– La Religion des Paysans Portugais (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1978)

– Religião Popular Portuguesa (2ª edição, Assírio e Alvim, 1988)

– Introdução Sociológica ao Islão (Edições Estratégias Criativas, Vila Nova de Gaia, 1995).

– A Religião na Mudança – A Nova Era (editado pelo Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da Universidade Nova de Lisboa, 2002).

Etnologia Histórica das Religiões:

Capa do livro Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa

Capa do livro Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa

– Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa – seguido de: Ensaio Sobre Toponímia Antiga (Lisboa, Assírio e Alvim, 1988).

– Origens do Cristianismo Português – Precedido de: A Deusa Síria, de Luciano de Samoçata (Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da UNL, 3ª edição, 2001).

– Os Mouros Fatimidas e as Aparições de Fátima (3ª edição, Assírio e Alvim, 2006).

– Fátima Magica – Le Aparizzioni di Fátima fra Cristianesismo Popolatr e Misticismo Islâmico (edição italiana resumida do anterior, tradução de Marcello Saco, Nardò, 1999).

– Cinco Mil Anos de Cultura a Oeste – Etno-História da Religião Popular numa Região da Estremadura (Lisboa, Assírio e Alvim, 2004).

Etno-Linguística Histórica

– Fontes Remotas da Cultura Portuguesa (Lisboa, Assírio e Alvim, 1989)

– O Brasonário Português e a Cultura Hebraica (Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da UNL, 2ª edição, 1997).

– Dicionário Fenício-Português – Contendo as línguas ou dialectos falados pelos Fenícios e Púnicos (Lisboa, Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da UNL, 2ª edição, 1994)

Imagem de destaque: Moisés Espírito Santo. Foto: Direitos reservados.

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