
Cardeal Alexandre do Nascimento. Foto: Direitos reservados
Foi o primeiro – e até agora único – cardeal angolano, foi raptado, combinou uma “invasão” da nunciatura que depois não quis fazer, viveu os tempos difíceis da guerra civil no seu país, expôs-se ao “perigo de passar por versejador”. Alexandre do Nascimento, arcebispo emérito de Luanda (Angola), morreu no sábado aos 99 anos de idade, conforme noticiou a arquidiocese. Era o mais idoso membro do Colégio dos Cardeais.
A arquidiocese iniciou nesta segunda-feira, 30 de Setembro, uma semana de sufrágios, que culminará com o funeral, na terça-feira, dia 8.
Nascido em Malanje, em 1 de Março de 1925, foi ordenado padre em Roma em Dezembro de 1952. Foi professor de Teologia e redactor-chefe do jornal católico O Apostolado, no seu regresso a Angola. O seu envolvimento com sectores independentistas levou Salazar e o regime ditatorial do Estado Novo a desterrá-lo para Lisboa, em 1961, com residência vigiada. Com ele, vieram vários outros padres, incluindo Joaquim Pinto de Andrade, um dos fundadores do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e Manuel Fanklim da Costa (mais tarde bispo de Lubango).
Em 1967, quando o Papa Paulo VI veio a Portugal, os padres angolanos estavam ainda no Continente – como então se designava o território. Num episódio já recordado pelo 7MARGENS, combinaram pedir asilo político ao Vaticano. A ideia era confluírem em simultâneo para Lisboa (todos eles estavam em diferentes pontos do país) e entrarem na nunciatura para chamar a atenção da comunidade internacional. O acordo, no entanto, era que ou iam todos não ia ninguém. À última hora, Alexandre do Nascimento resolveu recuar.
A história foi confirmada em Lisboa, em Maio de 2015, por Vitória Pinto de Andrade, que casaria com Joaquim depois de este ter abandonado o sacerdócio. Mas não acabou ali: o secretário do Papa Paulo VI recebeu, assinado por uma dúzia de responsáveis de diversos organismos, uma carta contra a situação que Portugal vivia.
Regressado a Angola em 1971, o padre Alexandre foi nomeado secretário-geral da Cáritas de Angola e presidente do Tribunal Eclesiástico de Luanda. Seria depois nomeado bispo de Malanje em 10 de Agosto de 1975, a três meses da independência do país. Em 1977, foi nomeado para Lubango. E foi enquanto bispo nesta diocese que foi raptado por um grupo armado, em 15 de Outubro de 1982, quando fazia uma visita pastoral.
Angola ensaguentada

Mulher e criança carregam água à cabeça no Cafunfo, Lunda Norte, Angola: o cardeal Nascimento empenhou-se em construir “uma sociedade promotora da dignidade humana”, disse o patriarca de Lisboa. Foto © Mosaiko
O episódio mereceu-lhe uma referência indirecta no Livro de Ritmos, que publicou há 30 anos, editado pela Gráfica de Coimbra: “As visitas pastorais, que fiz durante aproximadamente uma década, nunca firam aprazível digressão. (…) Ia partilhar dos perigos mortíferos, que ainda hoje [1994] se emboscam nas estradas minadas. Por esses e outros caminhos desta Angola ensanguentada, quantos sacerdotes, quantas religiosas, quantos catequistas, quanto povo anónimo deu a sua vida ou ficou gravemente mutilado!”
Libertado um mês depois, tido por alguns sectores como mais próximo do MPLA do que da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), Nascimento viria a ser nomeado cardeal pelo Papa João Paulo II, logo em Fevereiro de 1983. Três anos depois, foi escolhido para a diocese de Luanda, tendo exercido o cargo até Janeiro de 2001. Como dizia o título da tradição para os cardeais, era um “príncipe” da Igreja, próximo da realidade das pessoas e do país, mas que gostava de manter a distância e por vezes alguma frieza que o seu lugar lhe permitia.
Foram “tempos conturbados e difíceis” esses em que exerceu o cargo de arcebispo de Luanda, recordou o Papa Francisco, numa mensagem de condolências enviada a propósito da sua morte ao actual arcebispo, Filomeno Vieira Dias. Defendendo sobretudo uma acção de bastidores, Alexandre do Nascimento tentou pressionar para que MPLA e UNITA pusessem fim à guerra civil.
“Homem corajoso e livre”, acrescentava o Papa Francisco na mensagem, a “fé em Cristo e a esperança na vida eterna” fizeram com que ele fosse “capaz de orientar os seus passos em prol do bem comum” e tivesse “sido para todos expressão do rosto misericordioso de Jesus, Bom Samaritano da humanidade”.
No documento, o Papa recorda ainda o facto de o cardeal Nascimento ter sido presidente da Cáritas Internacional, entre 1983 e 1991.
Além da mensagem de Francisco, o Presidente de Angola, João Lourenço, manifestou a sua “profunda consternação” pela morte do cardeal, “um homem bom que consagrou grande parte da sua vida a transmitir aos seus, valores e princípios para uma vida em dignidade, de perdão e de respeito ao próximo”.
Em Portugal, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, evocou o “seu antigo colega da Faculdade de Direito, notável personalidade angolana e figura da Igreja Católica”, que deixou “uma intensíssima vida de quase um século”, como “teólogo, filósofo e humanista”.
O patriarca de Lisboa, Rui Valério, destacou a capacidade do cardeal Nascimento saber “encarnar o amor a Deus que leva ao serviço simples e humilde aos irmãos” e o seu empenhamento na “construção de uma sociedade mais justa e promotora da dignidade humana”.
Confessando-se leitor diário dos Salmos da Bíblia, e frequentador de Virgilio, Baudelaire ou Leopold Senghor, recusava no livro citado que se falasse em poesia. “Apenas ritmos, com algum sentimento”, dizia. Num dos textos, “Sombra que passa”, escrevia: “São, porém, tantos os rostos/ e as feições/ com que ele se nos apresenta,/ – ora macilento, de fome, ora tristonho, de desprezado,/ que os outros caminhantes intrigados/ param e perguntam: quem é?/ um mendigo? um leproso? um ladrão?// Vê, tu: desta vez, não te enganes! É Cristo que passa,/ nas vestes do sofrimento.”









