Myanmar: 350 mil deslocados “particularmente vulneráveis” à ameaça do coronavírus

Campo de refugiados de Mae La, Myanmar: a pandemia ameaça dizimar estas comunidades, diz a HWR. Foto Mikhail Esteves/Wikimedia Commons
A Humans Rights Watch (HRW), organização internacional de defesa dos direitos humanos, não tem dúvidas: as cerca de 350 mil pessoas que vivem nos campos de deslocados internos em Myanmar (antiga Birmânia) “estão sentadas à beira do caminho de uma catástrofe de saúde pública”. Começam a surgir os primeiros casos de covid-19 no país e a aquela ONG (organização não-governamental) lançou um apelo ao governo local para que levante as restrições nos campos e alargue as áreas disponíveis de modo a tornar possível o distanciamento social.
“As condições de saúde já são desastrosas para as pessoas deslocadas em Rakhine, Kachin, e nos campos do norte de Shan, e agora a pandemia de covid-19 ameaça dizimar estas comunidades vulneráveis”, afirmou Brad Adams, diretor da HRW na Ásia. De acordo com um relatório divulgado no passado dia 30 por esta ONG, nestes campos uma casa de banho é partilhada em média por 40 pessoas e um ponto de água por mais de 600. No mesmo comunicado, a HRW denunciou ainda o bloqueio que as autoridades têm imposto à ajuda humanitária e ao acesso à Internet.
Apesar dos esforços do Governo, liderados pela vencedora do Prémio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, inúmeros conflitos armados têm permanecido ativos no país, opondo militares e guerrilheiros étnicos rebeldes. Também a perseguição birmanesa sobre a minoria muçulmana rohingya provocou nos últimos anos milhares de mortos e deslocados no estado de Rakhine, na costa oeste de Myanmar.
Na sequência do pedido de cessar-fogo global feito pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, no passado dia 23, terá já havido manifestações de aceitação da proposta, de algumas das partes envolvidas em conflito na Birmânia. No entanto, o responsável da ONU sublinha que “existe uma enorme distância entre declarações e ações”. Por isso, numa nova declaração divulgada na passada sexta-feira, dia 3, António Guterres reforçou o apelo: “Exorto todos aqueles que podem fazer a diferença a fazerem essa diferença: instar e pressionar os combatentes de todo o mundo a baixarem as armas”. E concluiu: “A tempestade da covid-19 está a chegar a todos (estes) teatros de conflito” e “o pior está por vir”.
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