Faz este domingo duas semanas que Nuno Portas morreu. O 7MARGENS solicitou ao arquiteto João Luís Marques o texto que agora publicamos:
A Cidade da Rua da Alegria
Então qual é a cidade da Rua da Alegria? É a cidade do dia-a-dia, do arquitecto enquanto homem comum, do espaço real e concreto, e, ao mesmo tempo, de um futuro ideal que se acredita poder alcançar. É o contributo do indivíduo para o bem comum, o extrapolar da prática e da teoria, o concretizar do só depois aparentemente óbvio. Saber que para além daquela casa, daquela rua, daquele bairro, daquela cidade, daquele território há uma outra possibilidade, cujo ponto de partida é o quotidiano. A cidade de Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, Bartolomeu da Costa Cabral e Pedro Viana Botelho é a construção meticulosa de um novo espaço, composto de fragmentos, todos eles aparentemente insignificantes, mas essenciais; novos, mas desde sempre existentes, peças de um quebra-cabeças que é necessário compreender antes de o tentar montar. Uma cidade da tolerância, que não se impõe, que percebeu não existir a redenção em novos mundos por inventar mas apenas a possibilidade de este ser um mundo melhor. Um espaço da responsabilidade de saber viver. Porque em tudo há uma imensa responsabilidade.
Como os rumos do mar
dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto.
(Sophia de Mello Breyner Andresen, 1999)

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, projeto de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Foto © Arquivo do Arquiteto Nuno Teotónio Pereira encontra-se à guarda do SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico/Forte de Sacavém
Talvez bastassem as palavras de Sophia para evocar Nuno Portas, erudito pensador, urbanista e arquiteto, professor e investigador. Por estes dias muitos foram os escritos que permitem retraçar a importância do seu percurso profissional, dos tempos de LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) à sua ação enquanto secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, logo após o 25 de abril de 1974. Recordamos em particular a criação do SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local), que de norte a sul do país procurou responder ao problema do direito à habitação. Foi um pioneiro projeto participativo de valor e mérito reconhecidos nacional e internacionalmente, herdeiro da aprendizagem de um percurso fortemente marcado pela militância e trabalho em equipa.
Mais do que uma biografia extensiva, procuramos aqui no 7MARGENS relevar alguns dos contributos de Nuno Portas no que à arquitectura religiosa disse respeito. Morreu aos 90 anos com um legado que importa conhecer, estudar e divulgar.
Nuno Portas nasceu em Vila Viçosa e estudou, tal como os seus irmãos, no Colégio das Caldinhas, da Companhia de Jesus. Ingressou na Escola de Belas Artes de Lisboa no curso de arquitectura, ainda que fosse um apaixonado por cinema. Fundou juntamente com João Bénard da Costa, Pedro Tamen e Nuno Bragança, o Cineclube Católico. Escreveu com regularidade no jornal Encontro, da Juventude Universitária Católica, e integrou desde cedo, ainda enquanto estudante, o Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) impulsionado, entre outros, por João de Almeida e Nuno Teotónio Pereira, que promoveram a realização da Exposição “Arquitectura Religiosa Contemporânea” (maio de 1953).

Nuno Portas. Foto © Direitos Reservados
Ainda durante a década de 1950, Nuno Portas visitou igrejas na Europa Central guiado por João de Almeida, tal como fizeram os seus colegas Diogo Lino Pimentel e Luiz Cunha, também membros do MRAR. Sobre o santuário de Notre Dame de Ronchamp (França, 1955) projectado por Le Corbusier, escreveram na imprensa portuguesa Nuno Portas, no Encontro (1956) e Luiz Cunha na Miriam (1956).
No ano seguinte, Nuno Portas deu conta na revista Arquitectura da discussão internacional protagonizada por Rogers e Giancarlo de Carlo na revista italiana Casabella, motivada por aquela incontornável obra que visitara, no artigo “Arquitectura Religiosa Moderna em Portugal”. Surgiram ainda a referência a obras italianas que iam ganhando espaço no debate arquitectónico português, graças ao seu interesse e pesquisa – foi o membro do MRAR que mais escreveu para a imprensa. O Concurso para Obtenção do Diploma de Arquitecto (CODA) foi realizado na Escola Superior de Belas Artes do Porto com a prova teórica “A Habitação Social, proposta para a metodologia da sua arquitectura” (1959).
A partir de 1957, Nuno Portas colaborou no atelier de Nuno Teotónio Pereira. Ali estava a ser concebido o inovador e participado Centro Social do Alto da Serafina (Lisboa, 1957-1961), uma obra discreta que anunciava de Nuno Teotónio Puma nova forma de olhar o programa de igreja. Nuno Portas participou, primeiramente, no Mosteiro de Sassoeiros (Cascais, 1958-1968), da Congregação das Beneditinas da Rainha dos Apóstolos, hoje transformado em residência universitária. Ainda no atelier de Nuno Teotónio Pereira, e também com Pedro Vieira de Almeida, venceu o concurso para a igreja do Sagrado Coração de Jesus (Lisboa, 1962-1971). A igreja, que foi prémio Valmor ex æquo com a Fundação Calouste Gulbenkian, foi classificada como monumento nacional em 2010.

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, projeto de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Foto © Direitos Reservados
Para lá da inovação arquitetónica, dos materiais pré-fabricados em betão armado e do atravessamento pelo interior do quarteirão requerido pelo programa de concurso, a obra do Sagrado Coração contribuiria com uma reflexão de natureza teórica, ainda hoje actual, sobre o lugar da igreja na cidade. O interesse de Nuno Portas pelas dinâmicas urbanas e sociologia religiosa estão bem presentes na solução encontrada, tal como Portas recordou (em entrevista ao autor, no Porto, em 2011):
“Naquela altura, pusemos em dúvida o conceito de paróquia. Porque aquela era uma daquelas paróquias que estava a morrer. Porque fazer uma grande igreja quando os paroquianos estão a ir embora?
O que ali fazia sentido era uma igreja como um equipamento, for city users, diurno (…) de pessoas que trabalhavam ali, mas até não viviam lá.
Aquela igreja era ao mesmo tempo um centro cultural, um centro social, um centro de convívio, além de ser a igreja “sacra” propriamente dita. Isto foi muito determinante para a solução. E isso não se falou muito. Mesmo noutros países não se falou, [a construção de uma nova igreja] estava sempre ligado à paróquia física.”

Igreja de São Tiago, em Almada, projeto de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas. Foto Direitos Reservados
“A gente só faz caixas. Pode fazer caixas mais moldadas e, portanto, forçando mais o tempo em que pode durar, ou mais abertas e mais abstratas, em que se possa fazer aquilo ou o contrário daquilo. Essa é a relação funcional. O que é interessante é que se possa ir adaptando a mudança nas funções, sem proibir essa mudança. E quanto mais a igreja é bem definida, mais limitada é. E aí, a do Sagrado Coração de Jesus, está no limite!”
Portas realizou ainda, com Teotónio Pereira, os projectos para a igreja de S. Tiago (Almada, 1962-1970) e para o centro paroquial de S. Sebastião da Pedreira (Lisboa, 1967-1970), o último não construído. Na memória descritiva deste centro paroquial, previsto para o local onde hoje se encontra o El Corte Inglês, Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas citaram passagens dos documentos conciliares (nomeadamente, da Gaudium et Spes), mostrando que o debate da Igreja era alimento para as escolhas de projecto, não fixando normas num momento de profundas transformações.

Atelier de Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira na Rua da Alegria, em Lisboa. Foto © Direitos Reservados
A leitura da memória descritiva deste projecto torna clara a evolução: a “igreja paroquial e seus anexos” dava lugar ao “complexo paroquial’, um “equipamento urbano” pensado como conjunto de serviços, fruto da experimentação de novas práticas pastorais, como já anunciava o programa do concurso da igreja do Sagrado Coração de Jesus. Depois do Sagrado Coração de Jesus e da igreja de Almada, a situação particular do cimo do Parque Eduardo VII permitiria repensar o lugar da igreja no período pós-conciliar. A proposta espelha o amadurecimento destas reflexões que a prática no gabinete ia consolidando. Na década de 1960 Nuno Portas assumiu ainda a presidência do MRAR, tendo sido o seu último presidente.
João Luís Marques é arquiteto, investigador do Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo (CEAU) e do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR).










