O ângulo morto da invasão

| 24 Abr 2022

uma familia de refugiados ucraniana chega à fronteira com a romenia foto Albin HillertCOE

Uma família de refugiados ucraniana chega à fronteira com a Roménia. Foto © Albin Hillert | COE

 

Escrever sobre o momento atual não é fácil. Há palavras envenenadas, kits carregados até à exaustão de chavões reveladores de uma cegueira ideológica incompreensível, ignorante e/ou perversa, de uma arrogância cultural, mesmo quando, aparentemente se querem fazer análises complexas, de uma obsessão por considerar que os culpados são sempre os mesmos e que estamos a falar de “jogos de guerra”.

Muitos desses discursos ignoram olimpicamente as culturas eslavas, as experiências passadas e presentes desses povos, as marcas da Segunda Guerra Mundial. Os povos eslavos têm muitíssimo a contar acerca da sua história e é uma visão curta, cruel e arrogante considerar que, sem nunca ter ouvido nenhuma das suas vozes, se pode teorizar como se os envolvidos diretamente, os povos, as vítimas, fossem “danos colaterais” – bélica ou discursivamente – ou não tivessem nada a dizer.

Estamos a falar de povos eslavos (tanto o russo, como o ucraniano): desistir não faz parte do vocabulário. Resiste-se e, no caso de se ser bombardeado, no dia seguinte começa-se de novo – quer se seja velho ou novo. E continua-se, firme. Não pretendo fazer um discurso de glorificação. Pretendo apenas que mudemos de ângulo, que partamos da identidade e da história dos povos eslavos para compreendermos o simplismo de muitas análises. E demos um passo mais: atentemos na relevância que tem partir das vozes de dissidência e de resistência.

Declaro desde já a minha posição: não estamos perante uma operação militar especial. Estamos perante uma situação em que o regime de Putin invadiu um país independente. Será completamente destituído de senso quem considerar que estamos a falar de uma Rússia “comunista” ou que foi comunista e diante da qual seja preciso continuar a manifestar uma subserviência demencial, assim como é obsessivo adotar a estratégia de zurzir na OTAN/NATO a qualquer custo e propósito, mesmo que o custo seja – repito – considerar as vítimas algo secundário.

Não me move o apreço ou desapreço pela OTAN. Considero lamentável que a ONU não consiga dar passos relevantes (o que se revela impossível, já que a Rússia faz parte do Conselho de Segurança, e sem saber ainda o que sairá dos encontros de Guterres com os presidentes russo e ucraniano). Desgosta-me profundamente que a religião volte a constituir um elemento de legitimação de conflitos, neste caso, em concreto, de uma invasão: a posição do Patriarca Ortodoxo de Moscovo é um escândalo. Penso que a palavra “negociação” se torna um insulto, cínico, cruelmente cínico, quando se continua a bombardear um país que, volto a dizer, é um país soberano. Assim como pode ser um insulto invocar a paz se isso significa a paz dos cemitérios ou das valas comuns ou das pessoas enterradas no quintal, porque as famílias não têm, sequer, o direito de sepultar os seus mortos com dignidade.

Considero também um insulto à liberdade toda a lista de estratégias de “lavagem cerebral” levadas a cabo pelo regime de Putin (supressão ou substituição de palavras em contexto escolar, universitário, do mundo das artes e do povo comum com as pessoas a serem presas se se manifestarem na Rússia contra a guerra feita à Ucrânia). Não serão todas essas as vozes que temos de ouvir? As vozes da dissidência e as vozes das vítimas dos vários massacres, independentemente de, neste momento, não ser possível contabilizá-las com rigor? De que lado estamos? Do lado da ocultação do sofrimento do povo, das pessoas concretas, das famílias em fuga (tenham olhos azuis ou não!) ou do lado das teorias elaboradas confortavelmente nos nossos sofás ou nas nossas academias? Não se trata de embarcar num discurso a preto e branco em que, de um lado, estarão os imaculados e, do outro, os demónios. A pergunta é outra: estamos do lado das vítimas ou preferimos fazer delas “o ângulo morto” (no sentido metafórico e real) das nossas reflexões?

Muitas destas questões poderão colocar-se também em relação aos media. Será a cobertura desta invasão apenas um “grande furo” jornalístico, no qual se faz espetáculo com os combates, as armas, a destruição, os mortos, o desespero dos vivos, de preferência à hora do jantar, para que todos vejam no seu conforto aqueles que não têm água, não têm eletricidade, não têm aquecimento, perderam tudo, tudo, pelo simples facto de serem, de existirem, de deverem ser eliminados para tentar subjugar um país matando-o à fome (estratégia, aliás, que a Rússia já utilizou com a Ucrânia, nos anos 30)?

De que lado estamos? Das vítimas ou dos espetadores dos “jogos de guerra”, repito, no sentido material, mas também intelectual? São muitas as questões éticas que se levantam, incluindo, obviamente, no contexto de um conflito armado, melhor – repito – de uma invasão. Há a Convenção de Genebra, o conceito de “genocídio”, de crime de guerra. Mas, tal como Lévinas considerava, em última análise, todo o pensamento ético pode reduzir-se a um princípio: “não matarás!”

Matar significa roubar ao outro o direito a viver, a ter um rosto concreto, que interpela quem o enfrenta e o afronta. Um rosto único e, simultaneamente, um rosto comum: o rosto de um ser humano. A menos que se considere que nem todos são seres humanos. A desumanização do outro constitui uma estratégia milenar para apagar a consciência do mal que é feito ao outro. Matar é partir do raciocínio de que não se está a eliminar um ser humano: o que se está a fazer é eliminar um mal, uma “peste” que o outro representa e do qual o assassino, invocando a “proteção dos seus”, tem o “dever heroico” de se libertar, para libertar o seu povo. Em última análise, a pergunta mais relevante é a pergunta bíblica: “o que fizeste ao teu irmão? A voz do sangue de teu irmão clama da terra por mim!” E esta pergunta coloca-se a todos. Repito: a menos que nos esqueçamos de que somos seres humanos. Nesse caso, como se dizia em Frankfurt, nos anos 1990, numa campanha contra a xenofobia: Heute Die, Morgen Du! (Hoje são eles – amanhã és tu!)

 

Teresa Toldy é professora universitária de Ética

 

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