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Papa Francisco na sessão de abertura do Sínodo, 2 outubro 2024. Foto Vatican Media
Sessão de abertura da assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, a 2 de outubro de 2024. Foto © Vatican Media

As difíceis decisões do conclave (3)

O caminho rumo a uma Igreja Católica sinodal e as reformas necessárias

| 02/05/2025

Na antevisão do conclave, o 7MARGENS publica uma curta série de textos sobre aspetos fundamentais do pontificado de Francisco e de antevisão do que podem ser temas decisivos do próximo. Mais do que qualquer rótulo com que o queiram carimbar, o próximo Papa ficará conhecido pelo destino que der aos caminhos abertos pelo seu predecessor. E, como se perceberá ao ler estes textos, o ministério do sucessor de Francisco não se apresenta fácil. Sucede a um Papa que foi buscar à tradição e à fé a coragem para “não deixar pedra sobre pedra”. Hoje abordamos o legado de Francisco no capítulo da sinodalidade.

 

O caminho sinodal da Igreja Católica lançado pelo Papa Francisco foi, provavelmente, o mais complexo, rico e desafiante dos seus empreendimentos e uma das marcas mais salientes do seu pontificado. É, por isso, um dos dossiês sobre os quais as atenções mais incidirão, na eleição do novo Papa.

Francisco morreu em 21 de abril deixando um mapa para a conversão e a renovação da Igreja concluído (com a exceção de mais de uma dezena de grupos de estudo sobre temas e problemas específicos, que deveriam apresentar resultados até junho próximo) e tendo também assumido de imediato o documento aprovado pela assembleia sinodal. Teve ainda tempo de aprovar o plano de trajeto para a última fase do processo – o da implementação de uma Igreja sinodal, desenhado para ir até 2028, com a realização de uma Assembleia Eclesial.

Tudo foi suspenso, a partir do momento em que a “cadeira de Pedro” entrou em período de sede vacante. Todos os católicos (e não só) aguardam a eleição que sairá do conclave. Tudo pode acontecer, mas nem tudo tem a mesma probabilidade de acontecer. O bom senso sugere que o caminho a seguir, necessariamente diferente, não sofrerá nem retrocessos nem solavancos.

Neste texto propomo-nos explorar três pontos: a) mostrar como o projeto sinodal foi, desde o início do pontificado, um desiderato de Francisco, mas que foi definido e redefinido ao longo do processo; b) sublinhar alguns pontos mais significativos do caminho percorrido; e c) evidenciar os desafios que se abrem aos próximos tempos da Igreja Católica, com uma nota sobre o caso português.

 

Génese e contexto do projeto de uma Igreja sinodal

Francisco, na cerimónia evocativa do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI, em 17 de outubro de 2015 Foto Osservatore Romano

Francisco, na cerimónia evocativa do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI, em 17 de outubro de 2015. Foto © L’Osservatore Romano

As razões desta ideia poder-se-iam encontrar todas, ou quase, no discurso pronunciado por Francisco, perante bispos de todo o mundo e representantes de outras igrejas cristãs, na cerimónia evocativa do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos pelo Papa Paulo VI, em 17 de outubro de 2015. Vale a pena voltar a ler o texto porque está lá o essencial:

  • o Sínodo é “um dos legados mais preciosos” da última sessão do Concílio Vaticano II, que importa aperfeiçoar;
  • “o caminho da sinodalidade é …o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio” e de que a sociedade também precisa;
  • cada batizado, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização e não um mero recetor;
  • a Igreja sinodal é uma Igreja da escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender, desde o simples fiel até ao Papa;
  • essa escuta é “uma escuta de Deus até ouvir com Ele o grito do povo” e “escuta do povo, até respirar nele a vontade a que Deus nos chama”;
  • as matérias que dizem respeito a todos devem ser tratadas por todos, como na Igreja do primeiro milénio;
  • dentro da Igreja “ninguém pode ser ‘elevado’ acima dos outros”, antes é necessário que alguém “se abaixe” pondo-se ao serviço dos irmãos ao longo do caminho;
  • os organismos existentes localmente “só na medida em que permanecerem ligados a ‘baixo’ e partirem do povo, dos problemas do dia-a-dia, é que podem começar a dar forma a uma Igreja sinodal”.

Deve dizer-se que o Papa Francisco tinha construído uma ideia sobre os sínodos dos bispos a partir da experiência própria de participação em vários deles. E, tal como outros membros sinodais, entendia que as agendas e os debates eram excessivamente conduzidos e centralizados pela Cúria Romana, como confessou em mais de uma ocasião.

Ele, que trazia a experiência de escuta dos mais pobres e fora protagonista do caminho da Igreja da América Latina, começou a pôr em prática, ainda que de forma mitigada, a escuta do povo de Deus nos sínodos (em duas etapas) sobre a família, sobre os jovens e no Sínodo Extraordinário sobre a Amazónia.

Amazónia. Sínodo dos Bispos. Indígenas

Indígenas na eucaristia de abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia. Foto © Arlindo Homem

Importa ter presente que o processo sinodal não é alheio a problemas e circunstâncias externas e internas da Igreja, que contribuíram de vários modos para adensar um clima de gravidade que exigia medidas de fundo e não cuidados paliativos.

Para além dos escândalos que afetaram os últimos anos do pontificado de Bento XVI, não se pode esquecer o crescendo de casos de abuso sexual e psicológico por parte de membros do clero e outros agentes de pastoral, em diferentes países, em ondas sucessivas que puseram em evidência uma cultura de encobrimento e omertà por parte de episcopados de diferentes latitudes.

Essa espécie de folhetim escandaloso, de uma envergadura que alguns analistas compararam ao impacto da Reforma protestante do século XVI, cujo fluxo continua ainda a conhecer novos episódios, só pode redundar em perda de confiança no clero, pagando os justos pelos pecadores. Conduz, por outro lado, a atitudes e comportamentos de distanciamento perante a própria Igreja, apesar das medidas de combate, prevenção e reparação assumidas pelos responsáveis eclesiásticos, a começar pela política de tolerância zero esboçada por Bento XVI e traduzida em várias medidas por Francisco.

Esta ferida profunda no corpo eclesial refletiu-se de forma vincada nos relatórios resultantes das auscultações diocesanas e nacionais da primeira fase do Sínodo sobre a Sinodalidade, em muitos países. Como sublinharam Massimo Faggioli e Hans Zollner, num artigo no National Catholic Reporter, o processo sinodal não pode ser entendido desligado da crise dos abusos, que que constitui um verdadeiro “sinal dos tempos”, mas ao contrário: não tanto um sinal dos tempos que a Igreja lê na sociedade, mas aquele que a sociedade lê na Igreja.

Além das medidas tomadas por Francisco para atacar este gravíssimo problema, ele foi objeto de uma sessão de testemunhos e de atos de penitência ao longo das duas sessões sinodais, em Roma.

Mas os abusos quer com crianças quer com as chamadas “pessoas vulneráveis” – em muitos casos religiosas manipuladas e abusadas psicológica e espiritualmente – vieram trazer à superfície um dos temas que reiteradamente o Papa argentino levantou: o clericalismo.

Trata-se, para Francisco, de um “flagelo” e uma “enfermidade”, que leva os clérigos (e também outros agentes que orbitam à volta deles) a julgarem-se parte de uma casta, seres superiores, privilegiados, colocados em posição mais destacada, que exercem o poder de forma autoritária e de cima para baixo.

A superação desse clericalismo, que, como nota o Documento Final do Sínodo (n.º 74), constitui um abuso de poder e uma distorção da autoridade da Igreja, acaba por configurar uma cultura que se exprime sobretudo nos abusos sexuais, mas também nos abusos económicos, de consciência e de poder, por parte de ministros da Igreja.

É, pois, neste enquadramento que o Papa anuncia, em 17 de fevereiro de 2020, a convocação do Sínodo dos Bispos para outubro de 2022, sobre o tema “Para uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão”. Os desenvolvimentos seguintes sobre esta decisão vão mostrar que o Papa poderia ter clara uma ideia nova de Sínodo a pôr em campo, mas que nem tudo estava previsto.

Assim, logo a seguir ao anúncio, eclode a pandemia da covid-19. A catástrofe que afetou de forma maciça várias zonas do planeta, levou o Papa a anunciar, no ano seguinte, o adiamento do Sínodo para 2023 e que ele seria precedido de um processo de dois anos, ao nível local, nacional e continental, que idealmente deveria envolver todos os fiéis. A inauguração desta caminhada conjunta teve início em meados de outubro de 2021, prolongando-se até outubro de 2024.

 

Aprendizagens e desafios do caminho sinodal

Papa Francisco lê discurso de conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Vatican Media

Papa Francisco lê o discurso de conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, a 26 de outubro de 2024. Foto © Vatican Media

O espírito e as linhas gerais para uma Igreja sinodal inclusiva e participativa encontram-se claramente explicitadas no Documento Final do Sínodo, que o Papa Francisco, no fim dos trabalhos, decidiu assumir como seu.

Mais do que resumir o seu conteúdo, este texto elege e destaca alguns aspetos que passaram a adquiridos e a enunciar problemas que emergiram no caminho e aguardam amadurecimento e decisão.

  1. O centro e a referência do caminho sinodal é Jesus e o seu Evangelho de alegria, fraternidade e misericórdia, que apela a uma conversão permanente de cada pessoa e da vida das comunidades e da instituição eclesial.
  2. A perspetiva inclusiva do convite à participação na vida da Igreja, colocando todos e todas na mesma ‘onda’ e atitude de escuta e de diálogo, desde o batizado mais ou menos distanciado da Igreja ao próprio Papa (que se sentou à volta de uma mesa, como todos os restantes membros do Sínodo dos Bispos).
  3. A tomada de consciência e valorização da diferença e da diversidade – de pessoas, de culturas, de histórias, de contextos, de identidades, de ministérios e de visões sobre a própria Igreja e a sua missão na sociedade. E o reconhecimento de que essa diversidade constitui um enriquecimento da experiência cristã e abre mais os cristãos ao mundo envolvente, também ele diverso.
  4. A sinodalidade não é um tema a tratar, para alargar e enriquecer as ideias individuais ou a doutrina da Igreja, mas a convocação para uma experiência de vida pessoal e comunitária feita de encontro e partilha de experiências e de ideias. Um caminho espiritual contagiante das instâncias da vida eclesial, que requer frequentemente o debate, mesmo acalorado, mas norteado pela busca de convergências e aceitação das divergências.
  5. A sinodalidade supõe alguma disciplina, aceite por todos, de atenção e cuidado com o que se passa na vida quotidiana, nas esferas em que cada um se movimenta, dos sinais e interpelações que dessa atenção emergem, dos desafios que surgem e das respostas que requerem, tendo presentes sobretudo os mais isolados, pobres, descartados, feridos na sua dignidade e nos seus direitos.
  6. Ao contrário de uma cultura piramidal em que, na Igreja, se fazia o que o Papa, o bispo ou o pároco mandavam (pois “eles é que sabem e para isso estudaram!”), o estilo sinodal é responsabilizante e impele a que cada batizado se pergunte: “que posso eu fazer nas comunidade ou paróquia em que participo, para traduzir a síntese da auscultação feita na diocese ou no país ou o documento final na vida do meu grupo, comunidade, paróquia, diocese?…”
  7. Os órgãos de participação local, nomeadamente o Conselho Pastoral Paroquial (CPP), podem ser uma instância em que vale a pena apostar para iniciar um processo de mudança, em espírito sinodal. Que diligências estão a ser feitas para o criar ou, existindo já, o aperfeiçoar? Faz sentido projetar uma assembleia da comunidade, para que todos entrem no processo com vista ao CPP? Que dinâmicas sinodais em setores como a catequese, os ministérios, os serviços socio-caritativos?
  8. A transparência de processos e a prestação de contas (não apenas no sentido económico) podem ter um papel crucial na confiança entre os membros da Igreja e mesmo na comunidade mais vasta – e a terceira parte do Documento Final dá orientações preciosas (a partir do nº. 79). Nesse sentido, valeria a pena ponderar a organização de conversas para preparar a concretização do que ali se aponta.
  9. Uma matéria em que a Igreja avançou, nestes anos, com Francisco, foi no reconhecimento da radical igualdade de homens e mulheres na Igreja, pela sua condição de batizados. Contudo, apesar dos movimentos das mulheres e de uma sensibilidade a favor de uma Igreja menos clerical e com ministérios renovados abertos a homens e mulheres, as clivagens entre os católicos continuam a ser grandes. Com o Sínodo – e no Sínodo – o Papa abriu processos e é necessário que estes se aprofundem e se traduzam gradualmente em reformas que sejam sinal de que também na Igreja as mulheres são reconhecidas na sua dignidade.
  10. A formação para a sinodalidade é talvez dos desafios mais difíceis que a Igreja Católica enfrenta e que no processo sinodal foi bem vincado. Uma parte dessa formação tem de vir das experiências das comunidades e da sua partilha, e não apenas de especialistas e académicos. Mas também esta precisa de se entrosar com a vida das comunidades e com a leitura dos sinais dos tempos e não esquecer o riquíssimo património da Doutrina Social da Igreja.

 

Desafios e interrogações

O decano do Colégio Cardinalício, cardeal Giovanni Battista Re, na homilia do funeral do Papa Francisco. Foto Vatican Media

Não será por acaso que a interessante homilia que o decano dos cardeais, Giovanni Battista Re, fez no funeral de Bergoglio nem uma referência tenha feito ao processo sinodal. Foto ©  Vatican Media

Querem os católicos continuar o caminho de envolvimento de todos e todas e ter portas abertas a todas as pessoas que buscam Jesus ou em busca de quem eles se dispõe a ir? Ou dar-se-á passos no sentido de defender a Igreja face ao mundo, centrada sobre si mesma, continuando a alimentar o clericalismo e a auto-referencialidade?

O Papa Francisco, ainda que tenha tomado muitas decisões e iniciativas surpreendentes de mudança, nas questões fundamentais do modo de ser Igreja foi, sobretudo, aquele que “lançou processos”, incluindo as matérias dos dez grupos de estudo que certamente não andaram a trabalhar (“sinodalmente”) para deitar agora ao lixo os resultados alcançados.

É sabido que muita gente, na Cúria Romana e mesmo entre os cardeais, não morre de amores pelos resultados do Sínodo e por uma Igreja cada vez mais sinodal.

Não será por acaso que a interessante homilia que o decano dos cardeais fez no funeral de Bergoglio, com uma passagem em revista de importantes dimensões do seu pontificado, nem uma referência tenha feito ao processo sinodal que foi, inquestionavelmente, uma das mais salientes apostas de Francisco. Mas isso não significa que o legado do Papa argentino não encontre defensores no conclave e que o Espírito Santo, na convicção católica, não ilumine o discernimento que vão fazer e as escolhas que vão assumir.

encontro sinodal, Sinodo

Encontro sinodal em Fátima com membros dos conselhos pastorais e das equipas sinodais diocesanas, 11 de janeiro de 2025. Foto © António Marujo

É, assim, expectável que o processo sinodal não só não vá cair, como alguns gostariam, mas prossiga a sua marcha, mesmo que com correções e enriquecimentos. É que o caminho que Francisco incentivou a Igreja a percorrer não é dele, mas surge na sequência do Concílio Vaticano II e da concretização que dele falta(va) fazer.

E vale sempre recordar que muito do que vão ser os próximos anos da Igreja Católica vai, necessariamente, depender da orientação do pontificado assumida pelo novo Papa, mas, também, das responsabilidades que, a partir das paróquias e dioceses, movimentos e institutos religiosos, os católicos estiverem dispostos a assumir. Importa não esquecer aquilo que Francisco disse aos dirigentes da Ação Católica de todo o mundo, em 2017: “Sejam ousados! Vocês não serão fiéis à Igreja se esperarem, a cada passo, que vos digam aquilo que devem fazer”.

E ao falar à Cúria sobre o Sínodo que acabava de arrancar, nas vésperas do Natal de 2021, ele observava: “Jamais teremos um estilo evangélico nos nossos ambientes, se não colocarmos Cristo no centro.” Trabalhar juntos, mas também “rezar juntos, escutar juntos a Palavra, construir relações que vão além do simples trabalho e reforçar os laços bons …, ajudando-nos uns aos outros”.

Nesse espírito, há muito a fazer na Igreja Católica, que depende apenas de cada batizado, de cada grupo ou comunidade: aprender a escutar os outros, pondo-se no lugar deles; aprender a ler o mundo à nossa volta e os sinais dos tempos e como eles prenunciam ou travam o caminho para o reino de Deus; prestar atenção às buscas e necessidades das pessoas que vivem nas zonas em que se habita; conhecer testemunhos vivos do Evangelho; conhecer a Doutrina Social da Igreja, bem como a história da Igreja (e das confissões e religiões que se tornaram realidade nos respetivos locais de vida, nos últimos tempos) …

E, entretanto, haverá que acompanhar os desenvolvimentos do processo sinodal.

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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