
Odete, James e Alexandre numa das paragens ao longo da Estrada Nacional 2, que percorreram de bicicleta para apoiar a associação Acreditar. Foto: Direitos reservados
“Quando o cancro se mete no caminho, ninguém vai sozinho”: eis o lema da Acreditar – Associação de Pais e de Amigos de Crianças com Cancro para este Mês Internacional de Sensibilização para o Cancro Pediátrico, o chamado “Setembro Dourado”. Um lema que Odete Azevedo, o seu irmão Alexandre e o cunhado James não podiam ter levado mais a sério. Depois de terem perdido, no último ano, três familiares com cancro (um deles com apenas 17 anos), decidiram assinalar este mês de setembro percorrendo de bicicleta a Estrada Nacional 2. Juntos, fizeram 738 quilómetros para homenagear o jovem Louie, para angariar fundos que permitam à Acreditar prosseguir a sua missão, e para inspirar outros a ajudar o próximo, seja de que modo for. O importante é que, quando o cancro – ou outro problema – se mete no caminho, ninguém seja deixado sozinho.
“Infelizmente, o cancro continua a ser um tabu… Mas afeta cada vez mais pessoas, e há tantas que sofrem sozinhas, em silêncio. E se já para os adultos é difícil, quando se trata de crianças, é ainda pior… Para elas e para as famílias. Para a nossa família, a Acreditar foi fundamental. O Louie, sobrinho do James, foi diagnosticado com neuroblastoma aos 12 anos, faleceu com 17, e ao longo desse tempo a Acreditar ajudou imenso, desde o apoio psicológico ao apoio com toda uma logística com os tratamentos que é exaustiva para as famílias. Eles fazem um trabalho fenomenal com as crianças e com os pais, por isso um dos nossos grandes objetivos com esta iniciativa é divulgar esse trabalho e sensibilizar as pessoas para apoiá-los, para que eles possam continuar a ajudar outros como nos ajudaram nós”, explicou Odete Azevedo ao 7MARGENS, pouco antes de chegarem a Faro, seis dias depois de terem saído de Chaves.

O grupo partiu de Chaves no dia 14 de setembro. Foto: Direitos reservados
“Um bocadinho cansada”, esta rececionista de hotel de 54 anos contou que teve de “trocar várias folgas” no trabalho para conseguir ter uma semana disponível para embarcar nesta aventura e que “apesar de não ter feito a preparação física de que precisava”, não se arrependeu nem por um momento da decisão tomada.
Odete, Alexandre e James partiram do “quilómetro zero” no dia 14 de setembro e apanharam “alguns dos dias mais quentes deste verão”. “Houve momentos realmente difíceis, as subidas foram torturantes, mas foi gratificante estarmos juntos, reforçarmos a nossa ligação, recordarmos o Louie…”, partilha Odete, acrescentando que também rezou pelo caminho. “Trago comigo uma medalha de Nossa Senhora de Fátima que os meus avós deram à minha mãe quando foram a Fátima pela primeira vez, tinha ela 12 anos, e que ela depois me ofereceu a mim. Levo-a sempre nas minhas viagens e agarro-me muitas vezes a ela”, partilha, assumindo que a fé em Deus tem sido determinante para viver este período de luto.

Ao passar pelo Santuário de Nossa Senhora da Ouvida, em Castro Daire, Odete fez questão de parar. A oração tem sido importante neste tempo de luto, diz. Foto: Direitos reservados
Ao longo desta quase peregrinação, valeu-lhes também o apoio de Philip – pai do James e avô do Louie -, que aos 81 anos fez questão de se associar à iniciativa: não a pedalar, mas a conduzir a autocaravana onde, no final de cada dia, podiam recuperar forças.
Estava previsto que outro irmão de Odete se fizesse à estrada com o grupo, “mas infelizmente também ele foi diagnosticado com cancro no final do ano passado e agora está muito focado nos tratamentos”, revela a mentora da iniciativa, sem esconder a emoção. “Assim, é também por ele que estamos a pedalar”, diz.

O avô do Louie, sobrinho do James que faleceu com cancro aos 17 anos, associou-se à iniciativa solidária, conduzindo a autocaravana onde o grupo pernoitava. Foto: Direitos reservados
Nas localidades por onde passaram, várias pessoas mostraram curiosidade para saber o que movia este grupo. “Quando explicávamos, algumas ficavam sensibilizadas, outras parece que tinham medo que lhes fossemos pedir dinheiro”, diz Odete. “Mas o importante é que as pessoas percebam que, se não querem dar dinheiro porque não têm a certeza de como é que vai ser aplicado, está tudo bem. O que não podem é ignorar o que se passa à sua volta. Não é só dinheiro que podemos dar… é o nosso tempo, o nosso esforço, a nossa atenção… é irmos junto do outro e perguntarmos o que é que faz falta… Porque há sempre alguém ao nosso redor que precisa de alguma coisa”, conclui.
Para aqueles que queiram associar-se a esta iniciativa através de um donativo, podem ainda fazê-lo na página de angariação de fundos disponível na plataforma Gofundme, até ao final deste “Setembro Dourado”. “E podem também criar os seus próprios ‘momentos dourados, como sugere a Acreditar“, assinala Odete.

A equipa completa e sorridente, à chegada a Faro, após ter percorrido 738 quilómetros por boas causas. Foto: Direitos reservados
A celebrar 30 anos de vida, a associação irá ao longo dos próximos meses promover uma reflexão sobre o que mudou em Portugal na oncologia pediátrica e o que é ainda preciso mudar. Das várias iniciativas, destacam-se quatro conferências e quatro concertos a realizar em Lisboa, Coimbra, Porto e Funchal – cidades onde a Acreditar está localizada, sempre junto aos centros especializados em oncologia pediátrica. A primeira conferência será no Porto, já a 19 de outubro sobre “O impacto da doença – o papel dos pais e o papel do Estado, o muito que foi feito até aqui e o que falta fazer”.









